dezembro 15, 2003

Arte e Opinião #1

A cultura em Portugal é algo em crise. Mas que cultura é essa? E porquê? Nós podemos melhorar as coisas se quisermos.

Nunca o pin que eu levo na minha mala fez mais sentido do que naquele dia. “F*** the vote!” é o que diz e é, para mim, uma questão de princípios.

E naquele dia, naquele local, o pin ganhou vida própria. De pequeno objecto de metal com uns certos caracteres desenhados a princípio moral, foi esse o percurso do meu pin. Pelos corredores da Assembleia da República vi jornalistas com uma mão na cabeça outra no bloco de notas, vi políticos a fumar e a rir nas salas dos grupos parlamentares enquanto a sessão decorria dentro do Parlamento. Eu estava ali por trabalho, não por princípios. Ouvi frases como “sem política não existiria sociedade” e ri-me diante dos guardas que, sem qualquer tipo de motivação, cambaleiam com as costas arcadas e espingardas ao ombro em frente do edifício para agrado das excursões de estudantes que por lá passavam. “Olha a fotografia!” diziam eles. E atrás dos jovens estudantes vinham os polícias. Nem um, nem dois, mas três para verem se os adolescentes não faziam nenhuma asneira. Aquele era o centro de onde saem todas as decisões do país, incluindo as da cultura.

A cultura que nós temos faz com que já tudo seja aceite. Tentamos melhorar o que está mal, não tentamos mudar o que está mal ou está bem mas podia estar melhor. Vivemos na cultura da “contento-me com pouco”. Lemos um Harry Potter para contentar as estatísticas que dizem que metade dos portugueses não compram ou lêem um livro desde as férias...do Verão! Vamos ao cinema ver o “Jackass” ou o “Ali G” porque assim podemos dizer a quem nos pergunta que fomos ao cinema no último mês. As estatísticas dão-nos os números, não nos dão os nomes ou a qualidade. Mas o que interessa a quem “governa” é saber que os portugueses estão a ler mais e a ir mais ao cinema, não o que estão a ler ou a ver, ou não fosse afinal o governo alugar o Panteão Nacional para o lançamento do Harry Potter por 1000 euros. Pelo caminho ficam o teatro, a dança, a ópera, entre tantas outras áreas que a pouco e pouco vão perdendo investimento. Fala-se em educar o público, mas onde e como é que isso se faz? Na escola? Introduzindo nos manuais de português o regulamento do Big Brother?

Não acredito naqueles homens engravatados que nunca vi pessoalmente, não acredito na “cultura” como eles a vêem ou como a querem ver. Não acredito na cultura dos dias de hoje. Há muitas, é verdade, mas vocês sabem de qual é que eu estou a falar. A elite cultural também não me interessa. Diz-se que o povo vai atrás das elites? Hoje em dia tudo está confuso. Há tempos dizia uma conhecida minha “não gosto de futebol, não pelo dinheiro que movimenta, mas porque gera uma confusão de valores”. E com toda a razão. As elites de hoje aos olhos da população são os futebolistas, as capas das revistas cor-de-rosa, os “Big-brothers”, ... A sociedade dos dias de hoje decidiu prolongar a duração dos 15 minutos de fama de cada um. A uns mais do que a outros.

Será que o com a evolução da tecnologia o mundo ainda não tem um botão que diz “reset”?

Este texto puramente opinativo vem abrir um espaço de opinião aqui no Arte-Factos que seja rotativo entre todas as pessoas que contribuem para este blog. Chama-se provisoriamente Arte&Opinião.

Posted by at 11:16 AM | Comments (2)

novembro 16, 2003

Vozes de anjos nunca morrem

Cada geração tem o seu. O da minha decidiu antecipar-se em comparação ao seu antecessor. Dia 21 de Outubro de 2003 foi o dia da morte de Elliott Smith. Ele fugiu-me, mas eu nunca o abandonarei.

Dizer que cada geração tem o seu talvez seja demasiado arriscado. Eles não pertencem a gerações, não pertencem a ninguém, são de todos os que os queiram.

Quando um dia destes fui, como habitualmente, ver num site qualquer o que se passava no mundo da música fiquei totalmente paralisado quando li que Elliott Smith se tinha suicidado. Como é que isto tinha acontecido? Como é que ele nos podia ter abandonado? Não será exagero dizer que me senti destroçado. Perdemos mais um para a vida, a droga é só uma desculpa, a vida é que os leva.


Há uns anos atrás, ainda eu não o conhecia, escapou-nos outro desta classe de homens que são mais do que homens sem deixarem de o ser. Jeff Buckley. Afogado. Morto. Quando o vim a conhecer já ele não andava por cá e tive pena de ganhar consciência que nunca mais ouviria nada de novo daquela voz.

1975. Malditos anos psicadélicos que tanto nos deram e tanto nos tiraram. Morre o Tim. Pai daquele de quem já falei. Morre do estereótipo dos que morrem nesta altura: overdose de heroína. Há que recorrer às covers para que ele volte nos anos noventa, "Song to the siren" brilha na voz de Liz Frazer dos Cocteau Twins.

Um ano antes, 1974, deixa-nos Nick Drake. Suicídio. Pelo menos é o que se diz. De todos estes anjos era o que, enquanto vivo, mais tinha voz disso.

Anseio pelo dia em que os vou ver em concerto num sonho que amaldiçoarei quando acordar por já ter acabado. Vou cumprimentá-los, dizer-lhes que nunca os esqueci e dar-lhes um abraço. Perguntar-lhes-ei o que acham eles daquilo que eu escrevo e guardarei as suas respostas numa caixa dentro do meu coração.

Todos eles têm presença constante na minha aparelhagem e sinto que me acompanham diariamente. Ouçam-nos também vocês se é que ainda não os conhecem. Não sejam brutos a apertar-lhes as mãos, eles são frágeis, apesar de imortais. Também nós o somos, por isso é que eles existem, para nos proteger e dizer que há quem compreenda.

Para os que ainda restam...Aguentem-se bem, ainda há muito para vir.

P.S.: A quem ler isto, que não pense que me esqueci de Kurt Cobain, Joplin, Hendrix, Morrison e afins. Simplesmente não pertencem à mesma classe de artistas e escrevo isto sem sentido pejorativo.

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novembro 03, 2003

Universitários debatem no Pico a obra de Agostinho da Silva

Universitários portugueses e brasileiros irão debater a obra de Agostinho da Silva num ciclo dedicado a este pensador português que terá lugar na Vila das Lajes, ilha do Pico, entre os dias 1 e 8 de Dezembro.
É o "II Ciclo Agostiniano - Açores".

Esta iniciativa partiu da associação cultural "Faialentejo" e tem previstas - para além de palestras de estudiosos - projecções de filmes, exposições e exibições teatrais.
A projecção de um filme inédito de António Escudeiro, com o título "Agostinho por si só" e "Função do Espírito Santo" da obra de Agostinho da Silva são outras das iniciativas agendadas para o "II Ciclo Agostiniano - Açores".

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