
Chuck Palahniuk tornou-se conhecido por ter escrito o livro "Fight Club", que esteve na base do filme com o mesmo nome. "Asfixia" é o seu último livro. E é caso para dizer que Palahniuk se define, cada vez mais, como um "case study" dos comportamentos desviantes.
Por Ricardo Simães
O norte-americano Chuck Palahniuk é um escritor de vidas marginais. O universo dos seus personagens é sempre um espaço que se situa para lá dos limites da normalidade e daquilo que é convencional. No entanto, note-se, Palahniuk não é um escritor preocupado com essa marginalidade. Ele será tudo menos, com toda a certeza, socialmente comprometido. A abordagem que Palahniuk faz a essas estranhas formas de vida é uma abordagem essencialmente estética. Ou seja, o norte-americano escreve sobre o que não é normal e, através do exagero, torna esta não-normalidade em algo bizarro. E é sobre personagens bizarras que Palahniuk escreve de uma forma mais bizarra ainda. Ou seja, no fim de contas, quem de facto se afasta da convencionalidade é Palahniuk, utilizando as personagens como molas propulsoras para a aventura da sua escrita.
Palahniuk, refira-se desde já, não parece levar-se a sério. Isto é evidente em tudo o que escreve. E, diga-se, a melhor forma de o ler será, provavelmente, não o levar demasiado a sério. Ou então, quiçá, compreender que aquilo que nos seus livros é para ser levado a sério não será aquilo que nos aparece como a leitura mais evidente mas sim, precisamente, tudo aquilo que se encontra num palno mais subliminar. O quê? A escolha de temas marginais, apesar da abordagem que deles depois é feita. O espaço claustrofóbico dos seus personagens, personagens que pensam sempre demais, que o fazem de uma forma obsessiva. E, por fim, entender que se deve ler Chuck Palahniuk com a mesma disponibilidade com que ele escreve. Ou seja, só retiraremos algo dos seus livros se nos dispusermos a entrar nas mentes bizarras que nesse espaço proliferam da mesma forma que Palahniuk as expõe. Explicitando melhor: é para ser lido de uma forma obsessiva. É o grande tesouro dos seus livros: a compreensão de uma forma obsessiva de pensar. E, claro, no meio de toda a parafernália demencial dos personagens, existem pérolas de sabedoria. Frases que marcam. Afinal, acho que ainda não o tinha dito, Palahniuk escreve bem. Escreve mesmo bem.
"Asfixia" gira em torna de uma personagem, Victor Mancini. Mancini tem a mãe internada num asilo, num estado demencial. Por forma a garantir a sobrevivência da sua progenitora, e a sua própria, arranjou um esquema simples para ganhar dinheiro. Ciente de que todos necessitamos de nos sentir importantes na vida de alguém, Mancini finge que se engasga nos mais variados restaurantes. É sempre salvo por alguém. A partir de então, esse alguém liga-se à pessoa que supostamente salvou. E, através de uma eficiente gestão da natureza humana, Mancini vai garantindo o empréstimo de dinheiro mediante os mais variados pretextos.
Este, contudo, é apenas um dos pressupostos da história e do próprio personagem. Mancini é, também, um viciado em sexo. Para resolver este seu vício, frequenta grupos de auto-ajuda. No entanto, desengane-se quem julga que existe aqui alguma procura redentora. Mancini frequente estes grupos apenas para encontrar mulheres, tal como ele "viciadas" e, tal como ele, mais desejosas de ceder ao vício do que o tratar. Pelo meio vive com um amigo, Denny, um masturbador compulsivo, que, por forma a dominar a sua compulsão, recolhe pedras pela cidade, levando-as para casa. Certo dia, resolve criar algo com a quantidade absurda de pedras que tomam conta de todos os recantos do local onde ele e Mancini vivem...
Entre tudo isto, temos ainda a médica que trata da sua mãe, pela qual Mancini desenvolve, naturalmente, uma obsessão particular. E, claro, existe ainda a mãe, Ida Mancini, perfeitamente demente. E um diário da mesma onde, parece, se pode depreender que afinal Mancini, que nunca conheceu o pai, é um desenvolvimento genético do santo prepúcio. O prepúcio de Jesus Cristo. Ou seja, Mancini o filho de Deus.
Confuso? Sim, muito. Obsessivo? Claramente, para lá de todas dúvidas. Tentativa gratuita de chocar o leitor? Não me parece, de forma alguma. A não ser que o leitor, conforme já foi dito, leve Palahniuk mais a sério do que o próprio.
"Genial" não será a palavra certa mas é primeira que me ocorre.
Por Ricardo Simães
Ps - Para compreender a última frase, é imprescindível ler o livro...
Posted by Andreia C. Faria at maio 16, 2004 06:55 AMGenial é msm a palavra mais correcta para descrever o livro!!!
Posted by: Nuno Oliveira at maio 24, 2004 01:29 AM