novembro 21, 2004

Há vida para além do futebol?

Há muito tempo que suspeitava, se não com inquietação pelo menos com tristeza, que em Portugal só a arte da bola motiva as pessoas e todas as outras formas de expressão atravessam um deserto de indiferença. A morte de Sophia de Mello Breyner em vésperas de final do Campeonato da Europa e a possibilidade de os 150 anos da morte de Almeida Garrett serem ignorados pelas entidades públicas vieram confirmá-lo.


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Gosto muito de futebol. Nenhum outro desporto me entusiasma, só o futebol exerce um inexplicável fascínio sobre mim. Talvez por isso seja o desporto-rei, e a comprová-lo há milhões de adeptos em todo o mundo. Mas também sei que, se há coisas importantes e às quais vale a pena dar atenção, o futebol não é uma delas. Porque a atenção que já lhe é dada é excessiva e está a retirar espaço e visibilidade a outras coisas.

Sophia de Mello Breyner Andresen morreu dois dias antes da ansiada final do Euro 2004. Não estava à espera que alguém deixasse de assistir, 48 horas depois, ao jogo com a Grécia, mas a apatia com que a notícia da morte de alguém tão especial como Sophia foi recebida só pode ser sinal de duas coisas: mau carácter ou estupidez. Incrível como a tanta gente passou despercebido que, com a morte da poetisa, Portugal sofria uma perda mais irreparável do que a de qualquer jogo de futebol.
Para além dos comentários de pêsames de governantes e figuras de vulto da cultura nacional, ninguém mexeu uma palha em homenagem a Sophia até bem depois do dia 4 de Julho. Resta-nos o consolo de saber que Sophia, ela, estava consciente da sua grandeza: «Para que é necessário que os outros saibam que somos grandes se nós o somos realmente?».

Almeida Garrett, figura de proa do romantismo português e à qual os estudantes do secundário prestam, quantas vezes a contragosto, reverência, morreu há 150 anos. Seria de esperar alguma iniciativa da parte da Câmara Municipal do Porto ou do Ministério da Cultura no sentido de assinalar a data, mas até agora nada, ninguém se chegou à frente.
Das duas uma: ou Almeida Garrett é mais do que o personagem que o tempo tornou pitoresco e que o programa lectivo impõe aos estudantes, e como tal deve ser tratado com respeito e a importância da sua obra relembrada em datas como esta, ou então é um escritor datado, em quem já ninguém vê génio, e como tal deve ceder o seu lugar a outros nos livros de português e nas comemorações públicas. Eu acredito que Garrett contribuiu para a evolução da literatura portuguesa e que os 150 anos da sua morte mereciam mais do que esquecimento.

Como fã de futebol, sei que as emoções que este desperta são por vezes incontroláveis. Sei que o futebol é um fenómeno social de grande relevo, que une as pessoas como poucos outros. Mas quando o futebol ocupa, nos meios de comunicação social e na vida das pessoas, o espaço de todos os outros fenómenos sociais (entre eles, a arte) algo vai mal.
O Presidente da República vai condecorar António Lobo Antunes com Grã-Cruz da Ordem de Sant'lago, por ocasião dos seus 25 anos de carreira, e ninguém duvida que Sampaio esteja ciente do mérito do autor de Memória de Elefante. Mas quem não se lembra das lágrimas de Sampaio ao condecorar os vice-campeões da Europa? Depois disso, tudo o que seja menos do que lágrimas por Lobo Antunes ou outros de igual mérito não é suficiente.
Não sei se, 150 anos após a morte de Figo, alguém lembrará o jogador. Sei, sim, que nem a sua melhor finta deve fazer esquecer um poema de Sophia.


Sophia de Mello Breyner Andresen no MUITA LETRA

António Lobo Antunes no MUITA LETRA

Posted by Andreia C. Faria at novembro 21, 2004 12:38 AM
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