A Estação Dourada valeu a Urbano Tavares Rodrigues o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.

O Prémio foi atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores, por decisão de um júri composto por Ana Gabriela Macedo, Fernando Campos, José Ribeiro Ferreira, Luís Carmelo e Carlos Mendes de Sousa.
O galardão, relativo ao ano de 2003, tem o valor de 5 mil euros.
Para o final deste ano, Urbano Tavares Rodrigues está já a preparar o lançamento de um romance e de um livro de poemas.
Matilde Rosa Araújo é esta tarde distinguida com o Prémio Carreira, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). 2.500 euros e o reconhecimentio de mais de 50 anos dedicados à literatura constituem o galardão.

A autora de As Fadas Verdes ou O Livro da Tila dá relevo, no seu universo poético, à ternura e aos afectos.

Romance de estreia de Miguel Sousa Tavares, "Equador" é um livro de leitura obrigatória. E, já agora, pretexto para uma pequena viagem sobre a produção literária deste marco de referência do jornalismo português.
por Ricardo Simães
As crónicas de Miguel Sousa Tavares já nos habituaram ao seu estilo directo, numa escrita simples e desenvolta, frontal e cativante.
Confesso que quando comecei a ler "Equador" não sentia receio de que este pudesse ser um livro menor, uma espécie de "passo em falso" na carreira daquele que é, para mim, a principal referência no mundo jornalístico português. Nem sempre estou de acordo com as suas leituras da actualidade, mas penso que ninguém de bom senso lhe poderá negar uma coragem e uma forntalidade que, parece-me, muita falta fazem ao povo português. Mas regressando a "Equador", esse receio não existia, não porque não estivesse consciente de que existe uma diferença enorme entre escrever crónicas ("Os Anos Perdidos"), apontamentos de viagens ("Sul"), notas do dia a dia ("Não te deixarei morrer, David Crockett") e escrever um romance, ainda para mais tratando-se de um romance histórico com mais de 400 páginas. As diferenças são evidentes e, dessa forma, é perfeitamente possível (e até natural) que uma dada pessoa tenha um talento especial para escrever determinados tipos de textos e, por outro lado, não ultrapasse a mediania no que a outras vertentes da escrita se refere. No caso de "Equador", esse receio não existia, simplesmente, porque ao longo dos anos me habituei a descobrir em Miguel Sousa Tavares a capacidade para, mesmo em diferentes registos literários, cativar os seus leitores (nos quais, naturalmente, eu me incluo).
"Equador" é romance passado no princípio do Século XX, em Lisboa e S. Tomé e Princípe. Por um lado, é um retrato romanceado mas fiel, de uma parte da sociedade liboeta dessa época. Por outro lado, relata com rigor histórico as nuances do colonialismo português, nomeadamente no que à produção do cacau diz respeito, desmistificando a ideia de que, pela sua brandura, esse colonialismo foi diferente do de outros países europeus. O que se compreende a partir da leitura de "Equador" é que em todas as formas de colonialismo existe o elemento puro de exploração de um povo mas, por outro lado, existe também o elemento da comunhão entre as nacionalidade. Ou seja, os elementos humanos fundem-se, e dessa fusão surgem trocas culturais que são os laços que, verdadeiramente, unem povos que, ao longo do tempo, viram as suas Histórias cruzarem-se, nem sempre pelos melhores dos motivos. "Equador" não é uma crítica ao colonialismo, nem é uma apologia do mesmo. É um retrato consciente do mesmo, tendo sempre em conta que se julgarmos pelos valores de hoje aquilo que aconteceu há mais de cem anos, corremos sérios riscos de efectuarmos juízos deprovidos de sentido.
Por outro lado ainda, "Equador" é a história de um homem, Luís Bernardo, que é nomeado para o cargo de Governador Geral de S. Tomé e Princípe. Aqui se ligam as vertentes históricas e pessoais da obra. Luís Bernardo é incumbido por El-Rei D. Carlos da missão de estudar as condições de trabalho nas roças produtoras de Cacau. Uma vez que essas mesmas condições (nomeadamente se se trata de trabalho escravo ou não) serão tema de um relatório de um enviado do governo inglês, e dado que esse relatório será peça fundamental num eventual embargo britânico ao cacau proveniente de S. Tomé, facilmente se conclui que Luís Bernardo terá que enfrentar alguns dos mais importantes produtores de cacau portugueses, não sendo certo que, dada a instabilidade política que à época grassava, tenha um apoio total de Lisboa na execução dessa tarefa.
No plano pessoal, esta missão representa, para Luís Bernardo, o fim de uma vida mundana na capital do Império e o princípio de um longo exílio numa ilha distante de todas as partes do mundo. Será aqui que, para ele, o amor se revela. Mas, como em todas as coisas na vida, também o amor nem sempre é certo. Um dos pontos mais fortes desta obra, para mim, é precisamente o percurso individual (no sentido interior) do personagem central. Luís Bernardo.
Por último, nada do que anteriormente escrevi faria sentido se a escrita de Miguel Sousa Tavares não se revelasse no romance, como noutros géneros, um caso ímpar de fluidez, de um estruturamento lógico inigualável, de um equilíbrio tão perfeito que até parece fácil de atingir.
Não é. Mas Miguel Sousa Tavares consegue-o.
Um dos mais importantes poetas portugueses contemporâneos dá sinais de vida. António Ramos Rosa lançou ontem, em Lisboa, Relâmpago de Nada, obra poética constituída por 24 textos originais.

Perto dos 80 anos de idade, Ramos Rosa não abandona as andanças poéticas e revela-nos composições inéditas. Relâmpago de Nada teve apresentação no café Martinho da Arcada, pela voz de Paula Cristina Costa, professora universitária.
Ao longo dos 24 textos, Ramos Rosa procura explorar a face inesperada das palavras lançadas no vazio.
Relâmpago de Nada está publicado pela Labirinto

Numa carta ao seu pai, Leo, Jack Kerouac escreveu que queria que as suas palavras, no futuro, fossem "um registo de história contemporânea". Quase trinta e cinco anos passados sobre a sua morte, quarenta e sete desde a primeira edição do seu livro mais famoso - "On The Road / Pela Estrada Fora" - as suas palavras tornaram-se, de facto, nesse registo de história contemporânea...
por Ricardo Simães
A escrita de Kerouac é simples. Linear, directa, sem demasiados floreados. No entanto, nesta simplicidade, neste estilo directo, existe a vibração intensa dos viagens pela América, de costa a costa, dos bares do jazz e do bop, de toda a turbulência intelectual que viria a culminar nos anos de ouro da chamada Beat Generation. Se nomes como Allen Ginsberg ou William Burroughs aparecem como referências incontornáveis deste movimento, a verdade é que o nome de Kerouac é o maior de todos, e "On the Road / Pela EstradaFora" o livro emblemático de toda essa geração.
Franco-americano, Jack Kerouac nasceu como Jean-Louis Lebris de Kerouac, no dia 12 de Março de 1922, em Lowell, no Massachussets, filho de emigrantes franco-canadianos, não tendo falado inglês até aos seis anos de idade.
Na sua juventude, foi um promissor atleta de futebol americano, tendo, por via desse facto, ganho uma bolsa de estudo para a Universidade de Columbia. Porém, após uma grave lesão e um desentendimento com o seu treinador, abandona o futebol e a universidade, regressando à sua terra-natal. Aí chegado, durante alguns meses, Kerouac torna-se repórter desportivo no jornal Lowell Sun. Chegando à conclusão que não é isso o que quer fazer da sua vida, parte para Washington DC e depois para Boston onde, durante alguns meses, sobrevive graças a vários trabalhos ocasionais.
Com a entrada dos EUA na Segunda guerra Mundial, Kerouac alista-se na Marinha, passando à reserva, poucos meses depois, com base em motivos psiquiátricos. Kerouac foi considerado mentalmente inapto pela dificuldade que revelava em se submeter à autoridade dos seus superiores militares.
De regresso ao seu país, Kerouac conhece Ginsberg, Burroghs e Neil Cassady (retratado como Dean Moriarty em "On The Road / Pela Estrada Fora"). Este círculo de amigos viria, mais tarde, a formar o núcleo duro da chamada geração beat.
Em 1944, casa-se com Eddie Parker, separando-se poucos meses depois.
É em 1949 que efectua, na companhia de Neil Cassady e da ex-mulher deste, Luanne, uma viagem desde a Costa Leste americana até San Francisco, Califórnia, viagem esta que se viria a revelar a força motriz de "On The Road / Pela Estrada Fora". Durante a década seguinte, Kerouac viajaria vezes conta pelos EUA e méxico, ora na companhia de Cassady, ora sozinho, à boleia.
Em 1950, casa-se com Joan Haverty, com quem tem uma filha, tendo, porém, uma vez mais, se separado após apenas alguns meses de vida em comum.
"On the Road / Pela Estrada Fora" foi escrito em 1951, em apenas três semanas, sob o efeito de benzedrina. No entanto, só seria publicado em 1957. Aquando da sua publicação, este livro torna-se, imediatamente, um sucesso editorial espantoso. Aos 35 anos de idade, Kerouac conhece a fama e, subitamente, vê-se no papel de porta-voz de uma geração. Kerouac não se dá bem com essa fama nem com esse papel, uma vez que o mesmo, muitas vezes, o torna no representante máximo de muitos comportamentos que nada lhe dizem. Subitamente, compreende o vazio da fama, compreende que essa geração que o elevou a seu estandarte máximo, nada sabe dele e, provavelmente, retira dos seus livros leituras demasiadamente superficiais.
Tenta afastar-se desse papel, ao mesmo tempo que se torna alcoólico. Em 1961muda-se para Big Sur, na Califórnia, onde escreve um romance intitulado, precisamente, "Big Sur". Trata-se de uma obra autobiográfica em que é bem patente o estado de degradação emocional e intelectual que o álcool, já nessa altura, provoca nele. Casa uma última vez, em 1966, com a sua amiga de infância, Stella Sampas.
No dia 20 de Outubro de 1969, aos 47 anos de idade, Jack Kerouac morre em consequência de uma hemorragia interna, provocada por uma cirrose hepática.
Na história da literatura, deixa uma obra de importância inquestionável, de onde se destaca, naturalmente, "On the Road / Pela Estrada Fora". Este livro, relatando várias viagens através dos EUA e México, acaba por ser um manifesto de uma forma de viver intensa, vibrante, contagiante. Como se, apenas pela voz de Kerouac, a América tivesse descoberto que muita da sua identidade cultural múltipla, diversa, vive, precisamente, pelas suas estradas fora...
Morreu jovem, mas a sua obra abriu caminho na ajuda a outros jovens. Penafiel vai instituir o Prémio Daniel Faria, em nome do poeta do Vale do Sousa falecido aos 28 anos de idade, para dar visibilidade a poetas com menos de 35 anos.
O galardão é hoje instituído pelo Museu Municipal de Penafiel, durante o decorrer do ciclo literário Entre Pedras, Palavras.

Durante a sessão, Eduardo Prado Coelho, Valter Hugo Mãe e a professora Vera Vouga vão evocar a obra do autor de Dos Líquidos.
Eduardo Prado Coelho no MUITA LETRA
Arrancou ontem a 74ª edição da Feira do Livro de Lisboa, com a presença do Ministro da Cultura, Pedro Roseta.
No Porto, e sem “benção” oficial, o evento iniciou-se uns dias antes. Este ano, os livros prometem brincar às escondidas com os visitantes do Pavilhão Rosa Mota.

A sul...
No parque Eduardo VII, a Europa será o mote para um debate que se prolongará durante todo o evento, com a presença de nomes sonantes da política nacional, como Francisco Louçã ou Pacheco Pereira.
Para além de Europa é Conhecimento, outras iniciativas como teatro, leituras ou espectáculos musicais vão ser oferecidas ao público.
A Feira do Livro é organizada em parceria pela Câmara Municipal de Lisboa, pela Associação Portuguesa de Livreiros (APEL) e pela União dos Editores (UEP).
O evento conta com a participação de 124 editoras e milhares de livros e pode ser visitado até dia 6 de Junho, no topo norte do Parque Eduardo VII.
...ou mais a norte.
Para além da homenagem a Eugénio de Andrade, a Feira do Livro do Porto organiza sessões de bookcrossing e procura aliciar o público com algumas brincadeiras. Todos os dias, dois livros - 100 livros durante todo o evento - vão ser escondidos no Pavilhão e em diferentes zonas da cidade.
No espaço da Feira e nas ruas do Porto vão estar também disponíveis as pistas a seguir pelos caça-livros.
A Guidinha das Feiras
Nazarenas e Matrioskas é a nova proposta editorial de Margarida Rebelo Pinto, a ser apresentada durante esta edição da Feira do Livro de Lisboa.
Aquele que promete ser mais um best-seller nacional da – porventura – mais apreciada escritora portuguesa vai ser lançado a 27 deste mês, pelas 21:00 horas, com a colaboração do psiquiatra Daniel Sampaio.
Nazarenas e Matrioskas vai ser editado pela Oficina do Livro.
Feira do Livro do Porto no MUITA LETRA
Eugénio de Andrade no MUITA LETRA
Margarida Rebelo Pinto no MUITA LETRA

Recentemente distinguido com o Prémio Ana Hatherly (conforme o Muita Letra noticiou), Nuno Júdice é o caso paradigmático de um poeta cuja obra não teve, ainda, o reconhecimento devido.
por Ricardo Simães
É certo que a sua "Poesia Reunida 1967-2000" venceu o Prémio da Crítica 2001 e viu ser-lhe atribuído, pelo livro "O Estado dos Campos", a primeira edição do Prémio Ana Hatherly. No entanto, este algarvio, aproxima-se da sua quarta década de produção poética. É evidente que a qualidade da poesia não está dependente do número de prémios ou galardões que a mesma recebe, mas parece-me que, de uma forma geral (e excluíndo o público mais atento), Nuno Júdice é um nome perfeitamente desconhecido.
Este desconhecimento revela-se de uma injustiça gritante se atentarmos na qualidade da obra poética de Júdice. Júdice constrói o poema analisando os mecanismos de construção do mesmo. Num certo sentido é como se viajássemos por dentro do poema, como se nos detivéssemos nas suas múltiplas opções, como se caminhássemos cientes tanto daquilo que o autor escolhe como daquilo que o autor exclui. Por estas palavras poder-se-á depreender que, para além de qualidade, falo também de originalidade. E de uma sensibilidade aguda, analítica, que encontra nas palavras o seu meio de expressão ideal.
Na minha opinião, Nuno Júdice é o maior poeta português vivo. Com o devido respeito para todos os outros, entre os quais se encontram nomes perfeitamente incontornáveis da universo poético lusitano, Nuno Júdice é aquele que, e uma vez mais esta é apenas a minha opinião, tem a voz mais equilibrada e, ao mesmo tempo, inovadora.
A obra de Nuno Júdice estende-se também à criação teatral, ao ensaio e à ficção. Nesta última vertente, "Roseira de Espinho" (Quetzal, 1994), um olhar sobre a vida e o suicídio de Manuel Laranjeira, merece o meu destaque.
Regressando à poesia, destacaria "Teoria Geral do Sentimento" (Quetzal 1999) e "Um Canto na Espessura do Tempo" (Quetzal, 1992).
No entanto, o conselho que mais me parece apropriado é que o leitor, seja por intermédio de que livro for, conheça a obra de Nuno Júdice. Seguramente, não se irá arrepender.
Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, é a obra vencedora do Prémio Ler/Millenium BCP.

O jovem escritor vê ser-lhe atribuído um prémio no valor de 50 mil euros, devido ao facto de, segundo Mafalda Lopes, a presidente do júri, esta obra ser «do ponto de vista narrativo muito bem dominada e extremamente actual».
Este não é o primeiro romance de Gonçalo M. Tavares. O autor, de 34 anos, tem no curriculum obras como Um Homem: Klaus Klump ou O Senhor Henri.
O júri, encabeçado pela directora da revista Ler, foi constituído pelo eurodeputado José Pacheco Pereira, o sociólogo António Barreto, o escritor Eugénio Lisboa e os professores Roberto Carneiro (Universidade Católica), Annabela Rita (Universidade de Lisboa), Fátima Marinho (Universidade do Porto)e José Carlos Seabra Pereira (Universidade de Coimbra).
O Prémio Ler/Millennium BCP é atribuído em conjunto por esta instituição bancária e pela fundação Círculo de Leitores.
100 mil euros é o valor com que o júri do Prémio Camões galardoou a obra, considerada «de riqueza incomparável», de uma das mais aclamadas romancistas portuguesas.
Fonte: Lusa

Segundo os critérios do Prémio Camões, a obra de Agustina Bessa-Luís contribuiu para o engrandecer do património da literatura portuguesa.
O júri foi constituído por Eduardo Prado Coelho, Vasco Graça Moura, Heloísa Buarque da Holanda, Zuenir Ventura e Lourenço Rosário.
O Prémio Camões é atribuído desde 1989 e já consagrou nomes como Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Rubem Fonseca ou Sophia de Mello Breyner Andresen.
Agustina Bessa-Luís no MUITA LETRA
Vasco Graça Moura vai ser galardoado em Itália pela sua tradução para português das Rimas de Petrarca.

O Prémio Internacional Diego Valeri existe desde 1971 e, desde então, distingue traduções da obra de um dos pais da língua italiana.

O galardão será entregue a Vasco Graça Moura no dia 6 de Junho.
As Rimas, traduzidas para português pelo poeta, cronista e deputado, encontra-se publicadas pela Dom Quixote.
Poesia à Volta da Meia-Noite é a proposta para esta noite do bar Triplex, na Boavista. O escritor José Vialle Moutinho apresenta a sua antologia poética. Alberto Serra e José Carlos Tinoco moderam a sessão. Às 23:30 horas, no Triplex.
Esta iniciativa decorre no bar portuense desde Novembro de 2003.
Le Train de Nulle Part é um livro invertebrado (se assim se pode chamar a um
livro sem verbos). Michel Thaler, o autor, compara esta sua inovação às correntes pictóricas que abalaram o início do século XX.

Vários viajantes num combóio que não se dirige a parte alguma são apresentados ao leitor apenas através da adjectivação e de abundantes exclamações.
Tudo para suprimir a ausência de formas verbais, consideradas por Thaler como «invasoras, ditadoras e usurpadoras».
As opiniões quanto a esta nova forma narrativa dividem-se: vanguardismo ou bizarria?
Nascido em 7 de Novembro de 1913, nos arredores de Mondovi (Argélia), Albert Camus viria a ficar na História como um dos maiores escritores e ensaístas de língua francesa. Tendo superado uma infância pobre e difícil, Camus logrou, ainda assim, licenciar-se em Filosofia. Não pôde, devido à doença, prosseguir uma carreira no ensino.
Por Ricardo Simães
Com o advento da segunda guerra mundial, Camus junta-se à resistência francesa, primeiro como jornalista do jornal Combat, tendo posteriormente assumido a sua direcção. É nesta época da sua vida que trava conhecimento com Jean-Paul Sartre. Prémio Nobel da Literatura em 1956, Albert Camus viria a falecer no dia 4 de Janeiro de 1960, num acidente de viação.
De entre a sua produção literária, muito há a destacar. Assim, no que toca a romances e contos, temos “O Estrangeiro” (1942), “A Peste” (1947), “A queda” (1956), “O Exílio e o Reino” (1957). Já depois de ter falecido foram publicadas duas outras obras; “A morte feliz” (publicada em 1971) que é entendida como uma antecâmara de “O Estrangeiro”, e “O Primeiro Homem”, (publicado em 1994) o livro em que Camus trabalhava à data da sua morte.
Por outro lado, a actividade de Albert Camus enquanto encenador foi profícua ao longo de toda a sua vida.
Profícua também foi a sua actividade enquanto ensaísta e cronista. “O Avesso e o Direito” (1937), “O Mito de Sísifo” (1942), “Cartas a um amigo alemão” (1945), “Crónicas 44-48” (1950), “O Homem Revoltado” (1951), “Reflexões sobre a Pena Capital” (1957) são alguns exemplos da sua produção literária nestes domínios.
Irei, em posts posteriores, dar a minha visão sobre alguns dos livros que aqui mencionei.
Gostaria,porém para finalizar, de escrever umas linhas sobre o que esteve na origem do corte de relações entre Camus e Sartre, precisamente aquando da publicação de “O Homem Revoltado”.

Esta obra, ao tratar do tema dos extermínios em massa, tocou num ponto sensível do pensamento intelectual parisiense da época. A existência de campos de concentração na URSS era conhecida como um facto, mas no círculo mais próximo de Sartre discutia-se qual a atitude a adoptar em relação a esse facto. Camus deixara inequívoco que iria denunciar essas situações e condená-las, repudiando todas as considerações políticas e tácticas (aqui, o Sr. José Saramago, deveria ter aprendido alguma coisa...) sobre o assunto. É que, segundo os seus opositores do círculo de Sartre, era inoportuno tomar uma posição clara contra o terror Estalinista, na medida em que, para eles, a existência da União Soviética era ainda a garantia de uma desejada mudança revolucionária. Tais construções intelectuais da história, face às quais o sofrimento humano se torna secundário, são rejeitadas por Camus em nome das vítimas. Nos seus Carnets, escreve: “É fácil pensar a história, mas é difícil a todos aqueles que a sofreram no corpo compreender as suas razões”.
Depois de “O Homem Revoltado” ter sido alvo de uma crítica demolidora na revista Les Temps Modernes, dirigida por Sartre, crítica essa que termina com o anúncio da cessação de qualquer forma de comunicação por parte de Sartre, Camus escreve ainda nos seus Carnets : “Arrivistas do espírito revolucionário, novos-ricos e fariseus da justiça. Sartre, o homem e o espírito, não leal”. Em 1956, perante a sublevação popular na Hungria, pode-se ler, ainda com mais violência: “Intelectuais do progresso. Eles fazem o tricô da dialéctica. A cada cabeça que cai, eles apanham as malhas das reflexões rasgadas pelos factos”.
A verticalidade é, de facto, um valor intemporal.
Rui Zink e Eduardo Prado Coelho têm novas propostas para o seu público: Dádiva Divina e Dia por Ama são, respectivamente, os seus mais recentes livros. Qualquer dos dois autores dispensa apresentações...

Dádiva Divina foi apresentada num bar lisboeta no dia 13 de Maio. A data não foi escolhida em vão: diz Rui Zink, o autor, que esta é a história de «um homem que não acreditava em nada, até ao dia que morre e se enamora». O livro encontra-se publicado pela Dom Quixote.

Dia por Ama foi escrito em parceria por Eduardo Prado Coelho e Ana Calhau (esta também autora das fotografias que ilustram a obra). O que o livro tem para oferecer é uma visão, conjunta e distinta, do amor no feminino e no masculino. A publicação é da Texto Editora.

Chuck Palahniuk tornou-se conhecido por ter escrito o livro "Fight Club", que esteve na base do filme com o mesmo nome. "Asfixia" é o seu último livro. E é caso para dizer que Palahniuk se define, cada vez mais, como um "case study" dos comportamentos desviantes.
Por Ricardo Simães
O norte-americano Chuck Palahniuk é um escritor de vidas marginais. O universo dos seus personagens é sempre um espaço que se situa para lá dos limites da normalidade e daquilo que é convencional. No entanto, note-se, Palahniuk não é um escritor preocupado com essa marginalidade. Ele será tudo menos, com toda a certeza, socialmente comprometido. A abordagem que Palahniuk faz a essas estranhas formas de vida é uma abordagem essencialmente estética. Ou seja, o norte-americano escreve sobre o que não é normal e, através do exagero, torna esta não-normalidade em algo bizarro. E é sobre personagens bizarras que Palahniuk escreve de uma forma mais bizarra ainda. Ou seja, no fim de contas, quem de facto se afasta da convencionalidade é Palahniuk, utilizando as personagens como molas propulsoras para a aventura da sua escrita.
Palahniuk, refira-se desde já, não parece levar-se a sério. Isto é evidente em tudo o que escreve. E, diga-se, a melhor forma de o ler será, provavelmente, não o levar demasiado a sério. Ou então, quiçá, compreender que aquilo que nos seus livros é para ser levado a sério não será aquilo que nos aparece como a leitura mais evidente mas sim, precisamente, tudo aquilo que se encontra num palno mais subliminar. O quê? A escolha de temas marginais, apesar da abordagem que deles depois é feita. O espaço claustrofóbico dos seus personagens, personagens que pensam sempre demais, que o fazem de uma forma obsessiva. E, por fim, entender que se deve ler Chuck Palahniuk com a mesma disponibilidade com que ele escreve. Ou seja, só retiraremos algo dos seus livros se nos dispusermos a entrar nas mentes bizarras que nesse espaço proliferam da mesma forma que Palahniuk as expõe. Explicitando melhor: é para ser lido de uma forma obsessiva. É o grande tesouro dos seus livros: a compreensão de uma forma obsessiva de pensar. E, claro, no meio de toda a parafernália demencial dos personagens, existem pérolas de sabedoria. Frases que marcam. Afinal, acho que ainda não o tinha dito, Palahniuk escreve bem. Escreve mesmo bem.
"Asfixia" gira em torna de uma personagem, Victor Mancini. Mancini tem a mãe internada num asilo, num estado demencial. Por forma a garantir a sobrevivência da sua progenitora, e a sua própria, arranjou um esquema simples para ganhar dinheiro. Ciente de que todos necessitamos de nos sentir importantes na vida de alguém, Mancini finge que se engasga nos mais variados restaurantes. É sempre salvo por alguém. A partir de então, esse alguém liga-se à pessoa que supostamente salvou. E, através de uma eficiente gestão da natureza humana, Mancini vai garantindo o empréstimo de dinheiro mediante os mais variados pretextos.
Este, contudo, é apenas um dos pressupostos da história e do próprio personagem. Mancini é, também, um viciado em sexo. Para resolver este seu vício, frequenta grupos de auto-ajuda. No entanto, desengane-se quem julga que existe aqui alguma procura redentora. Mancini frequente estes grupos apenas para encontrar mulheres, tal como ele "viciadas" e, tal como ele, mais desejosas de ceder ao vício do que o tratar. Pelo meio vive com um amigo, Denny, um masturbador compulsivo, que, por forma a dominar a sua compulsão, recolhe pedras pela cidade, levando-as para casa. Certo dia, resolve criar algo com a quantidade absurda de pedras que tomam conta de todos os recantos do local onde ele e Mancini vivem...
Entre tudo isto, temos ainda a médica que trata da sua mãe, pela qual Mancini desenvolve, naturalmente, uma obsessão particular. E, claro, existe ainda a mãe, Ida Mancini, perfeitamente demente. E um diário da mesma onde, parece, se pode depreender que afinal Mancini, que nunca conheceu o pai, é um desenvolvimento genético do santo prepúcio. O prepúcio de Jesus Cristo. Ou seja, Mancini o filho de Deus.
Confuso? Sim, muito. Obsessivo? Claramente, para lá de todas dúvidas. Tentativa gratuita de chocar o leitor? Não me parece, de forma alguma. A não ser que o leitor, conforme já foi dito, leve Palahniuk mais a sério do que o próprio.
"Genial" não será a palavra certa mas é primeira que me ocorre.
Por Ricardo Simães
Ps - Para compreender a última frase, é imprescindível ler o livro...
Núno Júdice foi o vencedor da primeira edição do Prémio Ana Hatherly . Tentado a distinguir obras de grande qualidade de novos autores, o júri acabou por premiar um dos mais produtivos e sempre inovador poeta dos últimos anos. O Estado dos Campos, de 2003, foi a obra consagrada.

O galardão foi atribuído a Júdice pelo júri do Pen Clube, composto por Casimiro de Brito e pela poetisa Ana Hatherly, que dá nome ao prémio.
2004 é o ano de estreia deste prémio, que será bienal e irá atribuir 2500 euros à melhor obra de poesia portuguesa dos dois anos precedentes à entrega do galardão.
O Estado dos Campos é a mais recente obra poética de Nuno Júdice, que desde a década de 60 vem editando, para além de poesia, obras de ficção e ensaios, e está publicada pela Dom Quixote.

Existem tantos livros que amamos pelas mais variadas razões, tantos livros que reconhecemos como uma fonte inesgotável de sabedoria humana e, no entanto, aquele que mais nos marca será, muito provavelmente, aquele que mais soube ser "o livro certo na altura certa". Será provavelmente por isso que "A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera, foi o livro que mais me marcou.
Por Ricardo Simães
Este livro tem sido, ao longo dos seus cerca de 20 anos de existência pública, bastante criticado por uns, e aplaudido por outros. Os que o criticam, fundamentalmente, criticam aqueles que o aplaudem, aqueles que, como eu, encontraram nesta obra algo de marcante. Ainda não compreendi bem porquê, mas isto de gostar de Milan Kundera, e em particular de "A Insustentável Leveza do Ser" é um verdadeiro pau de dois bicos... Senão vejamos: quando dizemos que adoramos este livro, ou as pessoas ficam a olhar para nós como se estivéssemos a dar uma de intelectuais, ou então as pessoas ficam a olhar para nós como se estivéssemos a dar uma de intelectuais. Confusos? Eu explico. No primeiro caso, as pessoas não conhecem Milan Kundera e, não se sabe bem porquê, têm a vaga ideia de que se trata de um escritor de leitura bastante difícil... Por isso, ficam desconfiadas e tentam não ligar muito a esse acesso de intelectualismo snob que nós, supostamente, estamos a demonstrar... No segundo caso, as pessoas conhecem Milan Kundera. No entanto, chegaram a uma conclusão brilhante: Milan Kundera não é um escritor de leitura difícil. Assim sendo, acham que os estamos a tomar por aqueles que não conhecem Milan Kundera e que estamos armados em intelectuais com o vil intuito de os rebaixar. Ora, como eles até sabem que Milan Kundera se lê bem, desfazem o nosso embuste, passando eles a serem os intelectuais, citando uma carrada de nomes de escritores maiores... Milan Kundera, pelos vistos, encontra-se num limbo: é demais para o povo, mas é arraia míuda armada em filosófica para as elites intelectuais.
No que me toca, esclareço já o seguinte: conheço vários escritores bem mais complicados. Dou até de barato que Milan Kundera esteja bem longe de ser um expoente do chamado romance filosófico (a verdade é que esse tipo de rankings não me interessam nada). Não aceito que a sua obra - em particular "A Insustentável Leveza do Ser" - prime pela superficialidade ou, pior ainda, por meia dúzia de chavões, supostamente indutores da ideia de profundidade onde ela, afinal, nem sequer existiria. Por isso, abri o jogo. Sei que existem livros mais complicados, não faço ideia se é, ou não, um expoente do romance filosófico, afirmo que este livro se encontra atravessado por uma profundidade pouco comum. Estarei errado? Penso que não e vou tentar explicar porquê.
"A Insustentável Leveza do Ser" é um livro que, como poucos, explora as vastidões do território do amor. Fá-lo de uma forma realista. Num certo sentido, pode-se até dizer que o faz de uma forma amargurada. Milan Kundera mostra as cartas com que dá início a um romance sobre o amor: um cirurgião checo, divorciado, vive embrenhado naquilo a que chama "amizades eróticas". Conhece Tereza, uma empregada de café, numa deslocação que, por mero acaso, tem que fazer à provincía. No momento em que se conhecem, Tereza está no balcão a ler um livro. Repara em Tomás que se senta numa mesa também com um livro. Para ela, o livro é uma espécie de senha entre almas. Nunca naquele local em que trabalha, vira alguém com um livro. É neste momento que se apaixona por ele. Duas semanas depois ela está em Praga. Fazem amor e, depois, ela adoece. Durante uma semana, fica na cama dele, convalescente. A dado momento, enquanto Tereza arde em febre, Tomás sente que não sobreviveria à sua morte. Era como se aquela mulher, naquela cama, fosse uma criança que alguém abandonara, numa cesta untada de pez, rio abaixo. Essa criança viera ter à sua cama. Amá-la-à? Nem ele sabe e, manifestamente, parece-lhe excessivo esse sentimento.
Ela veio para viver com ele. E ele, ele que sempre fora tão cioso da sua liberdade, não se consegue ver livre dela. Nem, na realidade, sabe se é isso que quer. O que temos aqui, então? Um homem que até aí, vivia feliz entre as suas várias amantes e uma mulher que veio para Praga viver com o grande amor da sua vida.
À partida, poder-se-ia considerar que as cartas que Kundera mostra, ainda que não muito usuais, facilmente poderiam cair na vulgaridade: Tomás esforça-se por deixar as suas amantes, com mais ou menos dificuldade acaba por consegui-lo porque, acima de tudo, existe o seu amor por Tereza. Errado, Tomás não consegue deixar as suas amantes. Aliás, nem sequer tenta, uma vez que, para ele, isso em nada interfere com o amor que sentirá (nem ele, creio, está certo de o sentir) por Tereza. Entramos, portanto, num campo mais perigoso. Kundera começa a explorar o território do amor. Explora o seu lado escuro, o lado que se afasta da visão solar que, normalmente, temos do amor. Tereza tenta aceitar as amantes de Tomás. No fundo, tem medo que ele a deixe e que ela tenha que regressar a esse mundo onde não existiam almas que conhecem os segredo dos livros.
O amor joga-se, portanto, entre um homem femeeiro que não está certo de amar aquela mulher, e essa mesma mulher que tem a certeza que o ama, ao mesmo tempo que reconhece a sua incapacidade para o mudar.
O que acontece? Em termos gerais, uma vez que não é meu intuito descrever o livro, o que acontece é que vão ficando juntos. Numa análise fria, é isso o que sucede. Ficam juntos porque Tereza é demasiado fraca para o deixar, e ficam juntos porque, à sua maneira, Tomás é demasiado fraco para a deixar. Portanto, ficam juntos. Dificilmente se poderá imaginar quadro mais desprovido de verdadeiro amor: duas pessoas que estão juntas, simplesmente, porque nenhuma delas tem força para partir. No entanto, e é esta principal razão pela qual considero que este livro é de uma profundidade inquestionável, isto pode até nem ser amor verdadeiro, mas é o amor de Tomás e Tereza. Logo, é tão verdadeiro como outro amor qualquer. Para mais, este amor nem sequer tem a felicidade para o justificar. Assim, justifica-se a si próprio.
Ler "A Insustentável Leveza do Ser" é ler um livro triste. É ler um livro que relata um amor que vai funcionando sem nunca funcionar. Um amor que funciona apenas, e só, porque o tempo passa e esse amor não termina. É ler um livro em que, a cada página, esse amor de uma forma paradoxal, se parece autoconsumir e, no entanto, ficar sempre mais forte... Talvez, apesar de tudo, não seja assim tão paradoxal: é o tempo aquilo que verdadeiramente joga a favor desse amor.
Mas é também no tempo que esse amor desgasta as personagens que o vivem. Um Tomás incapaz de fazer Tereza feliz, uma Tereza infeliz incapaz de ser aquilo que, no fundo, nem Tomás sabe o que quer que ela seja.
Na repressão pós Primavera de Praga, a descida dos dois ao anonimato, às profissões menores que ainda iam sendo permitidas a todos aqueles que não fizessem a sua autocrítica, aproxima-os mais ainda. É como se o seu amor fosse um caminho descendente. E o leitor, aqui, comprende que, mais importante do que adjectivo, é o substantivo. Esse amor é um caminho. Como todos os amores o serão. Mas alguns, por maldição talvez, são um caminho que fica no lado escuro dos territórios do amor. Talvez por isso mesmo, no fim, nos deixem um travo de nostalgia e um brilho diferente, triste, melancólico, amargurado.
Aprendi, com este livro, algo que já intuíra: o amor pode não ser sinónimo de felicidade no sentido mais corrente do termo. E pode também não ser infelicidade no sentido mais corrente do termo. O amor, afinal, pode, uma vez mais no sentido mais corrente do termo, não ser amor.
Ricardo Simães
Vermelho é a obra eleita este ano pela Associação Portuguesa de Escritores.

Vermelho, romance escrito em 2003 por Mafalda Ivo Cruz, foi distinguido com o Prémio de Romance e Novela.
O livro está publicado pela Dom Quixote, inserido na colecção Autores de Língua Portuguesa. A bibliografia de Mafalda Ivo Cruz inclui obras como A Casa do Diabo, Um Requiem Português e O Rapaz de Botticelli.
Já toda a gente ouviu falar do famoso dramaturgo francês Molière. E nunca ninguém pôs em causa a autenticidade da obra reconhecida como sua.
Em França, Denis Boissier está a gerar polémica ao assegurar que, afinal, não era Molière quem escrevia as peças que levava à cena.

O Caso Molière é o livro que está a abalar a reputação de um dos mais respeitados vultos das letras fancesas. Denis Boissier, autor do livro, afirma que Molière nunca escreveu nada pois, alegadamente, não teria nem tempo nem talento para tanto.
A autoria das obras do escritor e encenador deve ser, segundo Boissier, atribuída a Pierre Corneille, um seu amigo que, para sustentar os filhos, aceitou ver as suas obras encenadas sob a tutela de Molière. Aliás, Boissier diz que o nome de Molière, pelo qual Jean Baptiste Poquelin ficou célebre enquanto dramaturgo, é igualmente uma criação de Pierre Corneille.
Sendo ou não certo o engano de séculos a que Boissier diz ter Molière sujeitado os leitores e espectadores das suas peças, o melhor é ler os argumentos com que o investigador francês sustenta a sua tese.
Não sei se é assim com toda a gente, mas a mim os livros que mais me marcaram (ou seja, os livros que fazem parte de quem sou) foram descobertos na infância, nos primeiros passos dados entre palavras desconhecidas e personagens que se insinuavam pela frincha recém aberta do meu imaginário.
Vou aqui falar de dois desses livros-tatuagem: Celine, de Brock Cole e Aquele Verão, de Saint-Marcoux. Porque por detrás da etiqueta “literatura juvenil” esconde-se muito mais.
Celine é um romance feito do olhar perspicaz e quase inocente da sua jovem protagonista. Em dias banais, em rostos novos ou já gastos, em situações de conflito eminente, em sentimentos ambíguos (aquilo que a literatura – dita para adultos? – mais sisuda não resistiria a transformar em aborrecido debate metafísico entre o herói e sabe-se lá mais quem) Celine impõe-nos o seu desarmante sentido de humor, honesto, despretensioso, e faz-nos descobrir a face – senão cómica – nua da vida. Tudo é relativo, nada é eterno. Se não for o humor e a imaginação, a vida só poderá causar-nos asia.
Não significa isto que Celine é um livro que se fica pela superfície do bom humor. Pelo contrário, Celine é uma rapariga que nos sugere – não cai nunca no erro de pretender ensinar seja o que for – a inteligência, a sesibilidade, a criatividade e, acima de tudo, a força com que, mesmo nascida de momentos desprovidos de magia, a verdadeira amizade se nos impõe.
Aquele Verão (Cet Eté-La...), de Saint-Marcoux, foi escrito em 1961 e chegou até mim não sei por que acaso. Caiu-me nas mãos com o manhoso epíteto de “Livro da Colecção Biblioteca das raparigas”. Sinto muito pelos rapazes que, alertados por esse subtil aviso, desistiram de ler o romance...
De facto, este é um livro luminoso, recheado de aventuras em lugares pitorescos, do vigor despreocupado de jovens em férias, de amizades tão fortes como o silêncio do que fica por contar, de memórias tão luminosas como as tardes daquele Verão.
Não vejo motivo para que algum destes dois romances (e quantos mais não haverá...) sejam confinados às crianças pela categoria a que pertencem: literatura infantil e juvenil. Não vejo por que não há-de um adulto descobrir pontos de interesse em algumas obras ditas para crianças.
Ainda hoje esses livros, que comigo fizeram um pacto (eles ofereciam-se-me inteiros, eu apenas tinha de os aceitar) me conseguem surpreender se pela milionésima vez os leio. Sorte têm as crianças, a quem esses livros - os livros mais simples, os momentos mais mágicos, os mais encantadores heróis - não escapam.
A Onda Poética, iniciada esta segunda-feira no Casino Estoril, é dedicada a Eugénio de Andrade. Durante alguns meses, os primeiros dias de cada semana serão dedicados a vários outros poetas.

Nomes como o de Ricardo Reis, Vinícius de Morais, Edgar Carneiro ou Pablo Neruda também serão evocados durante as noites dedicadas à poesia.
A Onda Poética tem entrada livre e abre as portas às 21:30 horas. A música fica a cargo de Gisela Silva.
Eugénio Andrade no MUITA LETRA
Luísa Dacosta escreveu, Cristina Valadas ilustrou e as Edições Asa publicam: O Perfume do Sonho, na Tarde e Sonhos na Palma da Mão são dois livros dentinados às crianças. A apresentação é este sábado na galeria Degrau, no Porto.

Luísa Dacosta (pseudónimo de Maria Luisa Saraiva Pinto dos Santos) escreveu críticas literárias e foi, durante longos anos, colaboradora de vários jornais e revista de referência, como O Jornal de Notícias, Seara Nova ou Vida Mundial.
Paralelamente, a escritora foi erguendo uma vasta obra, distinguindo-se na literatura infantil. Em 1994, foi galardoada como o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças.
A apresentação das duas mais recentes obras de Luísa Dacosta está a cargo de José António Gomes.
Javier Reverte conta uma história de amor em tempo de guerra, vivida por um jornalista; As Noites de Sarajevo vai ter lançamento pela mão da Texto Editora.
Por seu turno, a Editorial Caminho apresenta esta semana a biografia do jornalista Carlos Cardoso, É Proibido Pôr Algemas Nas Palavras. A obra foi escrita por Paul Fauvet e Marcelo Mosse e será lançada esta 4ª feira, no Auditório da RDP-África, em Lisboa pelas 18:30 horas.
Javier Reverte é um jornalista espanhol e este é mais um entre os seus vários romances, livros de poesia e de viagens.

Carlos Cardoso foi jornalista e proprietário do jornal moçambicano Metical até à data da sua morte, em 2000, por homicídio.

Contos Orientaisé um singelo conjunto de fábulas e lendas, dos Balcãs à China, passando pela Índia, reunidos pela mão genial de Marguerite Yourcenar. Se os seus romances são marcantes pela perfeição formal, pela exímia criação de personagens ou reconstituição de tempos históricos, pecam, parece-me, por um certo distanciamento emocional da autora. Nestes Contos, pelo contrário, é pelo coração e pela boca de Yourcenar que as personagens vivem, amam e morrem.

Um velho pintor cujos quadros transbordam lágrimas; um homem tão forte que nenhuma tortura, que não a do desejo, vence; uma mãe cujos seios emparedados alimentam os filhos e cujos ombros são os alicerces de uma torre impossível de erguer; um rapaz emudecido pelo amor das Nereidas; uma mulher que se lança de um precipício abraçada à cabeça ruiva e degolada do amante.

Estas são algumas das lendas que Yourcenar nos conta em palavras simples e que tudo dizem. A ruína enquanto glória do amor, a morte como coragem redentora, a beleza, mesmo a mais cruel, como deus que rege a vida dos Homens - tudo isto é sabedoria experimentada por anos e anos de lendas populares, que a autora nos ilustra com as mais límpidas imagens, como se o que parece genialmente simples fosse o mais difícil de arrancar aos dias.