À primeira vista, Fanny Owen é apenas um romance baseado no sobre-explorado tema do triângulo amoroso, suportado por personagens-tipo e por uma estrutura narrativa tradicional, que se desenvolve pela correlação de forças entre o encanto do pudor e da inocência femininos e o antagónico arrebatamento masculino. Mas, como avisa Agustina, «o fogo arde no mais profundo das coisas vulgares».

Com os costumes durienses e o retrato vivaz da burguesia portuense oitocentista em pano de fundo, as relações da inglesa Fanny Owen com o morgado José Augusto e com o escritor Camilo Castelo Branco vão-se estabelecendo e deixando o plano do convencional ou do previsível.
José Augusto, o morgado que se enamora de Fanny Owen e com ela assume o compromisso do casamento, revela-se irracional e frio, cruel. Camilo Castelo Branco, personagem, neste romance, difusa e pouco assertiva, desenvolve com o perturbador morgado uma amizade tão profunda como repleta de rancores e rivalidades subterrâneas. A rapariga, vértice do triângulo, revela-se ambígua, oscilando entre a força prática e o desprendimento das coisas terrestres (características, aliás, comuns a grande parte do universo de personagens femininas de Agustina, cujo maior paradigma talvez seja A Sibila) e o desespero e a fragilidade da mulher mal amada.
A tensão entre os três personagens adensa-se quando José Augusto descobre que Camilo mantivera com Fanny uma relação epistular e, por orgulho talvez (mais uma vez, a irracionalidade do personagem é intransponível e aí reside grande parte da atracção que exerce sobre o leitor) vai retirando à noiva a promessa do casamento. A trama desenlaça-se com o sacrifício da vida de Fanny ao intransigente amor-próprio de José Augusto.
E se a “febre” com que se lê este romance reside no apelo muito próprio e indizível da mestria ( magia?) narrativa de Bessa-Luís, há outros pontos de interesse que importa relevar: José Augusto, Camilo Castelo Branco e a família Owen tiveram existência real e as suas falas, no livro, resultam em grande parte de colagens de palavras, realmente expressas por eles, magistralmente conseguidas pela autora. Refira-se também que Francisca, o filme de Manoel de Oliveira, resulta de uma “encomenda” de diálogos a Agustina, da qual acabou por resultar este romance.
Agustina Bessa-Luís é unanimemente tida como a grande fazedora nacional de romances, chegando a ser chamada de “Yourcenar portuguesa”, epíteto tão lisonjeador como redutor. Mas de facto, tal como Yourcenar, Agustina tem a invulgar capacidade de criar nos seus leitores a “febre” de que falei, mesmo estando ausentes das suas páginas quaisquer sinais de intimismo e confessionalismo (características que tornam mais fácil a criação de afinidades e laços entre escritor e leitor). Este é, no entanto, um jogo desleal: nunca expondo sinais íntimos, mantendo-se estoicamente exterior aos ambientes e personagens que cria, Agustina perscruta-lhes com assombrosa paixão e profundidade sentimentos e acções.
Bessa-Luís: bibliografia completa
Foi, talvez, o poeta que, no século XX, com maior sensibilidade cantou a vida rural e o folclore nacional. Fica para sempre conhecido através de Amália Rodrigues, cuja voz imortalizou Povo que Lavas no Rio. Foi também o poeta de eleição de vários outro fadistas e o seu rosto tornou-se familiar aos portugueses, ao apresentar vários programas sobre folclore português e minhoto. Se fosse vivo, Pedro Homem de Mello completaria 100 anos de vida em 2004. Esta é uma efeméride que a SPA não vai deixar passar em branco.

Esta Quinta-Feira será marcada, na Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, pela homenagem prestada a Pedro Homem de Mello pelo centenário do seu nascimento. Urbano Tavares Rodrigues falará sobre a obra do poeta, enquanto o cantor José Fanha irá musicar algumas das suas composições.
Ofuscado pelos grandes vultos da poesia portuguesa do século XX, talvez por uma excessiva colagem à sua obra por parte do Estado Novo, Pedro Homem de Mello exprimia com uma linguagem próxima da oralidade e com uma força telúrica a sua admiração por temas da ruralidade e das tradições populares.
Esteve ligado ao movimento da Presença e, para além dos programas televisivos em que promovia o folclore nacional (chegava, até, a corrigir passos de dança de grupos de rancho cujos costumes mais ancestrais se iam degenerando), foi um estudioso do tema, publicando A Poesia na Dança e nos Cantares do Povo Português ou Danças de Portugal.
Foi galardoado com o Prémio Antero de Quental, relativo a Segredo, em 1937 e mais tarde, em 1973, venceu o Prémio Nacional de Poesia com o livro Eu Desci aos Infernos. Faleceu no Porto, a sua cidade natal, em 1984.
Bibliografia de Pedro Homem de Mello
Tornou-se uma escritora de sucesso aos 19 anos e, com a publicação de Bonjour Tristesse, em 1954, um símbolo da contestação juvenil das gerações de 50 e 60. Françoise Sagan morreu esta Sexta-Feira, aos 69 anos, vítima de embolia pulmonar.

Fonte: Diário Digital
Françoise Sagan cultivava a imagem de rebelde afecta à contra-cultura e foi, de facto, uma jovem do seu tempo: enquanto os seus romances teciam mordazes críticas à sociedade parisiense da época, a autora iniciava-se no consumo de drogas.
Bonjour Tristesse, o romance de estreia que catapultou a jovem Françoise, então com 19 anos, para a fama ao tornar-se um best-seller, é tido como símbolo da insatisfação juvenil da França de 50 e 60. O romance foca temas como a leviandade da vida social parisiense ou o incesto. Em linguagem minimalista e com laivos de existencialismo, a escritora distingue-se pela narração irónica do cinismo, do ócio e da pretensa sofisticação da sociedade de então.
De seu verdadeiro nome Françoise Quoirez, a autora de Un Certain Sourire ou de Le Mirroir Égaré nasceu em 1935. Frequentou a Universidade de Sorbonne, mas não chegou a concluir os estudos. Viajou por países como a Suiça ou os Estados Unidos e os seus vários casamentos acabaram em divórcio. Teve problemas relacionados com drogas e chegou a ser julgada por fraude fiscal. Faleceu aos 69 anos de idade.
O Código Da Vinci não só é a sensação editorial dos últimos tempos como ainda causa controvérsia. Peregrinações ao Louvre ou a templos citados no livro de Dan Brown sucedem-se, para gáudio das agências de viagens; as religiões cristãs, por seu lado, apontam o dedo às incorrecções das teorias apresentadas n´O Código.

A polémica gira em volta do facto de, no livro, Jesus Cristo ser casado com Maria Madalena e de o casal ter um filho. Dan Brown já explicou que tudo não passa de ficção, mas confessou não achar esta teoria de todo desprezável.
E se, apesar do desagrado dos líderes cristãos, o livro continua nos escaparates e nas bocas de todo o mundo, no Líbano foi retirado de circulação por a Igreja Católica o ter considerado «ofensivo para o Cristianismo».
O sucesso de vendas da obra de Brown passa pelo uso de uma fórmula popular: uma estrutura policial, grandes doses de suspense e o insólito do tema aliado, claro, à ajuda dada pela polémica causada. Até agora, O Código Da Vinci já vendeu mais de 7,5 milhões de exemplares em todo o mundo, assumindo-se como a tábua de salvação de uma indústria, a literária, que já se encontrava em crise desde 2001.
A Feira do Livro da Amadora decorre até dia 5 de Outubro, no Parque Delfim Guimarães. A Câmara Municipal garante que 80% das editoras portuguesas estarão representadas nos 38 pavilhões.

Promoções e novidades editoriais são os grandes atractivos desta edição da Feira do Livro da Amadora. Depois da fraca adesão do público às Feiras de Lisboa e Porto, as expectativas dos organizadores não deverão estar em alta.
Memorias de Mis Putas Tristes é o título do romance que, em Outubro, será lançado em vários países. Os editores dizem que este é, possivelmente, o último romance de Gabriel Garcia Marquez.

A tiragem inicial de Memorias de Mis Putas Tristes será de 1 milhão de exemplares. O romance pode ser encontrado nas livrarias a partir de Outubro.
Um ano após ter tomado posse como Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, Manuel Freire admite que a empresa atravessa uma grave crise, herdada da direcção anterior. As dificuldades financeiras restringiram a actividade da nova direcção e poderão levar ao despedimento de trabalhadores da empresa.
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A SPA, empresa que gere os direitos de autor de mais de 18 mil associados, tem prejuizos na ordem dos 22 milhões de euros e deve 2,2 milhões à Segurança Social. Para ultrapassar a crise, Manuel Freire elaborou um plano de recuperação que levará 4 anos a reerguer a instituição e que passará por uma redução substancial das despesas e dos vencimentos e, até, por cortes de pessoal: “nós vamos fazê-los [os cortes de pessoal] com todo o cuidado, analisando todos os casos do ponto de vista humano", assegura o Presidente.
Outra das medidas de racionalização de custos que a SPA pretende implementar passa pela renovação informática, que vai agilizar os processos levados a cabo pela empresa.
Entretanto, Manuel Freire entregou à Polícia Judiciária o relatório de uma auditoria independente feita à empresa e que demonstra indícios de gestão danosa por parte da anterior direcção da SPA, liderada por Luiz Francisco Rebello.
Depois de Ensaio sobre a Cegueira é a vez de outra das bem conhecidas obras de José Saramago ser encenada. O Evangelho segundo Jesus Cristo pode ser visto no Teatro S. Luiz, em Lisboa. A encenação é do brasileiro José Possi Neto.

A peça trazida a Portugal baseia-se, mais precisamente, no capítulo Manhã de Nevoeiro d´O Evangelho..., em que Saramago se debruça sobre os limites do Bem e do Mal, e pode ser vista até 10 de Outubro.
Os actores, também eles brasileiros, são bem conhecidos do público português: Maria Fernanda Cândido é Maria Madalena enquanto Thiago Lacerda encarna o papel de Jesus Cristo.
Pela altura da sua publicação, em 1992, O Evangelho segundo jesus Cristo gerou polémica devido a uma tentativa de censura pelo então Secretário de Estado da Cultura, Sousa Lara, que acusava Saramago de atentar contra a moral cristã. Apesar de, então, o livro ter sido retirado de um concurso literário internacional, José Saramago acabaria por ser laureado, em 1998, com o Nobel da Literatura.
Herberto Helder é, não raramente e salvaguardadas as devidas diferenças, elevado ao patamar dos maiores poetas portugueses de sempre, de Camões a Sophia, passando por Pessoa ou O´Neil. A mais marcante das suas obras é, no entanto, uma colectânea de contos em prosa.

Os Passos em Volta constitui, pelo menos na minha opinião, a obra onde a força de Herberto se expressa com maior clareza. Os textos que dão corpo aos Passos... foram escritos entre 1959 e 1968 e, numa prosa poética em que cada palavra encaixa com perfeição no lugar que lhe é devido, o autor leva-nos a percorrer países e pessoas.
O torpor de uma cerveja, o olhar de um estrangeiro sobre a Holanda, a ironia de um funcionário público que parte em busca de uma espécie rara de peixe, ou a desesperança de um homem sozinho que no silvo dos comboios pensa ouvir Deus são alguns dos passos dados pelo autor em volta da inquietante plenitude que a mais vulgar das existências pode alcançar.
O que seduz em Os Passos... é a clarificação, em prosa, da harmoniosa (ou tortuosa?) conjugação de um lirismo ao mesmo tempo requintado e cheio de força com o que de mais essencial há na demanda humana pela apreensão do mundo. Ou seja, a perfeição estética coexiste aqui com um profundo sentido de humanidade, que é o que o autor procura para si e transmite ao leitor.
Obscuro não é, certamente, o lirismo de Herberto (apesar da «terrivelmente orgulhosa frase: “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro” »). É uma mistura de bruma e céu azul, de cerveja e melancolia, uma alternância entre a pureza e a lucidez. Sempre de uma clareza honesta e cativante.
Destaque para a terna metáfora com que o autor trata o que faz de cada Homem um ser único, aquilo por que ele se move – Estilo, é o epíteto que Herberto dá à razão de viver de cada um e ao texto de abertura da obra. «A verdade é que eu não havia ainda encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: conheço, por exemplo, a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, contudo, porque ele era já muito velho, e o que é que poderia esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a deixar de amar. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.»
O Bosque dos Pigmeus é a mais recente obra da consagrada escritora chilena. Este é o último título de uma triologia juvenil e encontra-se publicado entre nós pela Difel.

Esta triologia é composta por obras que procuram sensibilizar os mais jovens para temas como a ecologia e a convivência inter-cultural. Os antecessores d´O Bosque... são A Cidade dos Deuses Selvagens e O Reino do Dragão de Ouro.
Isabel Allende é uma das mais famosas escritora sul americanas. Nasceu em Lima, no Perú, em 1942, filha de um irmão daquele que viria a ser o Presidente chileno entre 1970 e 1973 e, após o golpe de Estado em que o seu tio foi assassinado, Isabel viu-se forçada a partir para o exílio na Venezuela.
Para além de ser autora de aclamados romances, como A Casa dos Espíritos ou Retrato a Sépia, trabalhou como jornalista e humorista. Actualmente, vive nos Estados Unidos.
O MUITA LETRA pede desculpa a todos os leitores por tão prolongada ausência. Mas promete regressar, para "atracar" de vez.

A partir de amanhã os seguidores do MUITA LETRA podem contar novamente com actualizações constantes sobre o mundo da literatura e comentários pessoais a várias obras.
Sei que na blogosfera, se é dificil conquistar leitores assíduos, é-o ainda mais quando o blog não é constantemente actualizado. De qualquer modo, espero que este regresso agrade àqueles que já seguiam o MUITA LETRA e, quem sabe, a novos leitores.
Cumprimentos
Andreia C. Faria