A escritora Lídia Jorge foi condecorada com o Grau de Oficial das Artes e Letras pelo Governo francês. A arquitecta Margarida Veiga e o designer Mário Caeiro são os outros dois portugueses distinguidos com o Grau.

Lídia Jorge é uma das escritora portuguesas mais reconhecidas em França. O seu último romance, O Vento Assobiando nas Gruas, foi considerado naquele país um dos mais importantes do ano e chegou, inclusivamente, a ser nomeado para o Prémio Fémina 2004 e foi um dos finalista do Prémio Leitoras da revista Elle.
Margarida Veiga trabalha regularmente com o Musée des Beaux Arts de Lyon. Colaborou com a Fondation Cartier e com o Museu de Arte Contemporânea de Bordéus. É, de momento, responsável pelas artes visuais no Instituto das Artes do Ministério da Cultura em Portugal.
Mário Caeiro também mantêm uma forte ligação a França, já que colaborou com Serviço Cultural da Embaixada de França e o Instituto Franco-Português no projecto Luzboa. Deste projecto resultou a primeira Bienal da Arte da Luz em Lisboa, em Junho do ano passado.
A entrega das insígnias em nome do governo de França será feita pelo embaixador francês em Portugal, Patrick Gautrat. A cerimónia vai realizar-se a 5 de Julho na embaixada francesa em Lisboa.

Acreditas no que dizem, que quem vê caras não vê corações? Eu nunca te vi antes e vejo-te com a nitidez de quem vê com a alma.
O olhar é um golpe que te lanço e que me devolves. Podemos passar a tarde inteira na pista consumada deste jogo, por entre a elevação de vozes, através do vidro do aquário de dedos e lábios que são as canecas de cerveja, rente aos gestos rancorosos dos empregados.
Os meus olhos sorriem-te e a minha boca oferece-se efusiva à conversa alheia. Tu precedes-me e eu mimetizo-te o sorriso, o fingimento dos lábios, o afagar do cabelo.
Amo-te neste preciso momento, apenas aqui e agora, apenas assim. Amo-te a tarde inteira, em segredo, sabendo-te de cor, sabendo-te das mãos à alma sem saber o teu nome.
Até que te levantas e indicas a porta atrás de mim. Hesitas, sem olhar para trás, sem que eu te espreite por cima do ombro. O empregado embarra em ti sem pedir desculpa. Eu, as pessoas que estão comigo à mesa, viram a cara na tua direcção. Sais e tudo fica intocado, descobrimos que não iremos sofrer.
A demolição da casa de Campo de Ourique que pertenceu a Almeida Garrett foi suspensa pelo presidente da Câmara de Lisboa, Santana Lopes, após uma visita ao local. O futuro da casa onde Garrett passou os dois últimos anos de vida fica assim suspenso por seis meses, há espera do veredicto do próximo autarca lisboeta.

Foto: JN
«O presidente da Câmara de Lisboa deu hoje ordem de suspensão da demolição da casa onde viveu Almeida Garrett», anunciou o gabinete de Pedro Santana Lopes em comunicado enviado à Agência Lusa.
Após deslocar-se aos números 66 e 68 da Rua Saraiva de Carvalho, e depois de reunir-se com a vereadora do Urbanismo, Eduarda Napoleão, e com a vereadora da Cultura, Maria Manuel Pinto Barbosa, Santana Lopes decidiu suspender a demolição do edifício, iniciada há uma semana.
Manuel Pinho, actual ministro da Economia, é o proprietário do edifício, e fora-lhe concedida autorização camarária para demolir o edifício e construir um apartamento T3, dois T4 e um duplex.
No mesmo comunicado, Santana Lopes declara que «a Câmara Municipal de Lisboa defendeu como solução que fosse o próprio Ministério da Cultura a adquirir a casa, até porque, como é público, o proprietário do imóvel é um ministro do mesmo Governo».
A suspensão da demolição do edifício tem, por lei, a duração de seis meses, o que significa que o futuro da casa que Almeida Garrett habitou nos dois últimos anos de vida só será decidido terminado o mandato do actual presidente da Câmara de Lisboa.
A demolição da casa de Campo de Ourique, iniciada há uma semana, tem causado polémica há meses. Um movimento cívico fez circular uma petição a favor da transformação do edifício em casa-museu dedicada a Garrett, que recolheu 2.300 assinaturas.
Figuras públicas como Manuel Alegre e Guilherme de Oliveira Martins, o Bloco de Esquerda e organismos como a Sociedade Portuguesa de Autores, o Pen Clube, a Associação Portuguesa de Escritores também se manifestaram contra a demolição do edifício.
O MUITA LETRA acompanhou desde o início a polémica em torno da Casa de Garrett.
O MUITA LETRA esteve parado na última semana. A entrega dos últimos trabalhos, a preparação para exames, a ressaca dos dias de São João e, confesso, alguma preguiça, levaram a que esta paragem se prolongasse por mais do que um ou dois dias. Talvez os blogues também precisem de férias. Estou de volta com a frequência de publicação habitual, se os exames não derem mais trabalho do que espero.
Obrigada aos leitores pela paciência,
Andreia C. Faria

Apesar de nos serem mostradas, sublimadas, as limitações e necessidades físicas do ser humano continuam sem aceitação. Apresentado como glória pornográfica, salvação do Homem, o corpo é o último tabu. O Homem ainda não aceitou a essência imperfeita e degradada do seu corpo, e nisso é ingénuo.
Porque o corpo é difícil e sem aprendizagem, apesar de todas as ilusões em sentido contrário. Que buscamos quando seguimos os padrões de aparência e comportamento já inventados? Pensamos que a experiência de milénios nos ensina a fazer do corpo um lar seguro. Esquecemo-nos que o corpo é imprevisível, que é finito, que tem uma consciência própria a que somos alheios. Julgamos não escutá-la e permanecemos sem saber o que fazer ao nosso medo da morte, como uma criança em falta não sabe onde esconder as mãos. Tememos ainda com terror, com o pânico inicial do primeiro Homem, a morte. E o que mais tememos na morte é precisamente o sofrimento físico, a mais violenta das experiências assumindo o controlo, invadindo e devassando as planícies, curvas e reentrâncias do corpo.
Na imagem: Morton, Mississippi, William Eggleston
A partir de hoje e até 26 de Junho o Museu Serralves acolhe no Porto a primeira Feira do Livro Gulbenkian.

Literatura, filosofia, obras de ciência, livros de arte, manuais universitários ou catálogos e roteiros de exposições, editados pela Fundação Calouste Gulbenkian nas últimas quatro décadas, são algumas das obras que estarão disponíveis ao público a preço de ocasião no "hall" do Museu Serralves.
A feira pode ser visitada todos os dias a partir das 10h00 e até às 19h00 nos três primeiros dias. No feriado de S. João e no domingo, dia 26, as portas estão abertas até às 20h00 e no sábado, dia 25 de Junho, até às 22h00.
Depois de, em Abril, a Feira do Livro da Gulbenkian ter realizado em Lisboa a sua primeira edição, é a vez do Porto acolher o certame. A feira é inaugurada hoje, pelas 15h30, por Isabel Mota e Artur Santos Silva, administradores da Fundação Calouste Gulbenkian, e Virgílio Folhadela, da Fundação de Serralves.
O Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB) anunciou a ligação de 150 bibliotecas públicas através da Internet. O projecto chama-se Rede de Conhecimento das Bibliotecas Públicas e visa tornar mais rápido e fácil o acesso gratuito às colecções.

O IPLB, responsável pela iniciativa, prevê ainda o acesso público gratuito em banda larga e a criação de serviços interactivos, de modo a promover a leitura e dar resposta às necessidades dos leitores. Com este projecto, as bibliotecas públicas passam a trabalhar em rede a partir de uma plataforma tecnológica comum.
Serão instalados, nas 150 bibliotecas públicas com que o projecto arranca, mais computadores com acesso à Internet e os utilizadores podem ainda aceder à Internet sem fios através de computadores portáteis. O público tem à disposição ferramentas de pesquisa de catálogos, reserva e empréstimo de documentos e troca de informação entre os utilizadores.
O projecto Rede de Conhecimento das Bibliotecas Públicas é apresentado hoje na Torre do Tombo, em Lisboa, numa cerimónia em que estarão presentes Isabel Pires de Lima, ministra da Cultura, e Mariano Gago, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

A casa orquestra-se na confiança de um cheiro –
mãe, pai, filho, animal
Na elevação de braços
pranchas
pétalas
A casa rasga sorrisos
respiradouros de luz
à dentição feliz das janelas
A família protege a casa
abafa-a em reposteiros e azulejos mortos
rouba-a ao sol
É uma luta serena -
surdo entrechocar de mãos –
travada na reentrância do sono
nas arestas amaciadas de insectos
no segredo entreaberto de uma porta
A infância da casa
foi no tempo de ausente a criança
Foi na previsão das sombras
e na fremência regular das abas das horas
A casa fez-se ilha
no alheio oceano das avenidas em redor
e quando amanheciam os seus sonhos de luz eléctrica
a casa chocalhava, respirava,
expelia o riso sem hálito dos solitários
e sonhava mãos subindo o corrimão
A casa é agora esquina de gente desaguada da rua
gente que se repete em elipses
no lento apagamento do silêncio
gente adestrando-se em não ouvir a recusa do silêncio
A casa é concha, pavilhão de silêncio
abre-se quietamente, quer sentir
a viva intimidade de braços
pranchas
pétalas
que se ergue em si
A polpa de um dedo ruboriza-a –
A criança póstuma quer saber o seu pulsar
Andreia C. Faria
Na imagem: The Sphinx, Franz Von Stuck
A partir de hoje e até 30 de Junho, os visitantes do Museu da Imprensa, no Porto, podem imprimir manualmente alguns poemas de Eugénio de Andrade, que ali lançou, em 1999, numa sessão solene com a presença do Presidente da República, o livro Sulcos e Poemas.
Para além dos nove textos que compõem Sulcos e Poemas, fará parte da exposição igual número de desenhos de rostos do artistas plástico José Rodrigues. A mostra de fotografias, jornais e imagens em vídeo da presença de Eugénio de Andrade, acompanhado por Jorge Sampaio, no Museu, completam esta homenagem ao poeta, filho adoptivo do Porto desde 1950 e falecido no passado dia 13 de Junho.
O Museu da Imprensa pode ser visitado todos os dias, incluindo feriados, das 15h00 às 20h00.
Eugénio de Andrade no MUITAS LETRA

A música separa o Homem de si, providencia-lhe um meio pacífico de libertar a dor acumulada da sua misantropia.
Imagem de Alain Hanel
Ronda pela imprensa numa semana marcada pela morte de Eugénio de Andrade.

«Os jovens são capazes de aprender mais do que pensamos» - Bryan Perro, entrevista ao escritor canadiano n´O Comércio do Porto de Domingo, dia 12 de Junho [sem link directo].
Democracia ou Condomínio, as aparências iludem, numa crónica de Pedro Mexia no DN:
Dossier Eugénio de Andrade, a secção de Cultura do DN dedica-se em exclusivo ao poeta, no dia seguinte à sua morte.
Italiana estuda poesia de Eugénio, o impacto do poeta no mundo, no JN.
Dossier Eugénio de Andrade, no Público.
Décès du poète Eugénio Andrade, artigo e dossier sobre Eugénio, em Nouvelobs.com
Regarding Cervantes, Multicultural Dreamer, as origens árabes de Dom Quixote, no NY Times.
In Love with Jane, Jane Austen ainda desperta paixões, no The NY Review of Books.
É presidente do PEN Clube Português, há anos que está na vanguarda da literatura portuguesa e venceu, recentemente, o Prémio de Poesia Aleramo-Mário Luzi para “Melhor livro de poesia estrangeira publicado em Itália”, com o Libro delle Cadute. Em entrevista ao MUITA LETRA, Casimiro de Brito fala do galardão, do «livro da sua vida» e do seu modo de estar enquanto escritor. Salvaguardada a certeza de que, após 40 obras publicadas, o melhor de si ainda está para vir.

Qual é para si a importância do Prémio de Poesia Aleramo-Mário Luzi?
Trata-se de um "Prémio Europeu de Poesia" de extrema importância e que muito me honra. Porque está ligado ao nome de um dos poetas italianos que mais admiro, Mario Luzi, recentemente falecido mas que tive o privilégio de conhecer pessoalmente. Depois porque foi atribuído por um júri de elevada qualidade, e quem acompanha o que se passa em Itália sabe que este país tem a poesia em alta conta, sendo o país do mundo onde há mais festivais de poesia. Terceiro porque o Prémio se insere num enorme Festival Europeu, sob o tema "A Nostalgia, Ulisses e o desejo do Retorno" (questões que me são gratas e objecto de muitos dos meus textos), festival esse que se alastra por quase cinco meses de intensa actividade cultural: a primeira sessão foi em 2 de Junho e a última será em 12 de Outubro . Dou-lhe um exemplo: a sessão em que o Prémio me será entregue vai ser em 9 de Julho e nessa noite vão dar um concerto um dos mais prestigiados conjuntos da nossa música: os Madre de Deus! "Saudade, Um amor infinito", o título do concerto deles.
Como era a sua relação com o poeta Mário Luzi?
Foi num Congresso Mundial de Poetas de boa memória. Em Florença, onde Luzi sempre viveu. Lá encontrei (mas não só em Florença, claro) poetas relevantes como Joseph Brodsky, Guillevic, Léopold Sedar Senghor, Czeslaw Milosz, Jorge Luis Borges, Rafael Alberti, tutti quanti. E o Eugénio, que faleceu há dias, se é que os poetas, quando o são, morrem. Luzi, nesse caso, era uma espécie de anfitrião, natural que é dessa cidade que não me canso de visitar, e onde recentemente estive para ver "A Expulsão do Paraíso", de Masaccio, finalmente exposto ao público na delicada Capela Brancacci e para vagabundear nos campos da Toscânia com Kisako, a escultora japonesa que conheci quando fui ao Japão ver os templos, os santuários.
Explique-me o conceito de Livro das Quedas e o porquê de ser editado também em italiano.
Libro delle Cadute é o título da antologia publicada em Itália do meu Livro das Quedas, que acaba de ser editado em Portugal. O Livro das Quedas será o meu último livro, não escreverei outro viva eu 20 dias ou 20 meses ou 20 anos. É uma obra aberta, de certo modo labiríntica e enciclopédica, onde caberá tudo, no sentido em que coube tudo nos Cantos do Ezra Pound ou na Invenção de Orfeu, do Jorge de Lima ou na obra do Walt Whitman. Comecei a escrever esse livro há 9 anos e 14 dias, no dia do nascimento da minha filha mais nova, a Diana. E mais ou menos na altura em que morreu um amigo meu: por esses dias pensei que o meu Amigo morria com um sorriso de pacificação mas também que não sabia que espécie de mundo a minha filha vinha encontrar. Era portanto necessário repensar toda a minha obra poética, iniciada há 40 anos, sob o espírito da tapeçaria, uma espécie de visão horizontal da vida. Agora seria vertical, poria em prática poética conceitos que vinha desenvolvendo, influenciado que tenho sido por tradições as mais diversas. Cada poema seria o último: doloroso ou feliz mas sempre compassivo e pacífico.
Escreve como se cada poema fosse o último. É a fórmula para que o poeta não se angustie na busca da palavra certa, mas se sinta feliz nela?
Para mim foi, é. Durante dezenas de anos, desde a adolescência, eu sabia que ia escrever a vida inteira, e que desejava tocar na luz e em todas as feridas da natureza humana. Era um projecto dilacerante porque, tendo ideias claras sobre o que queria fazer, escrever (a tal tapeçaria mental onde eu inscreveria as minhas obsessões), nunca teria um fim, quero dizer um repouso. Isto apesar de eu me ter deixado envolver por coisas, sobretudo orientais, em que a paz e o repouso e o vazio eram uma espécie de lei… de certo modo alcançada. Mas nunca em poesia. E subitamente a verdadeira iluminação, essa que veio justificar a minha ideia, de toda a vida, de que “a morte não existe”: não é só a vida que é aqui e agora, e só, e mais nada mas também a poesia, a minha poesia, e então comecei a viver com a ideia que… “a minha obra está feita” tal como “o meu corpo está feito”. Isso deu-me uma grande paz mas, atenção, esta paz não é uma coisa fácil porque ela é construída sobre o sofrimento próprio do ser humano nas suas várias componentes, o seu passado antes do corpo, o seu próprio corpo e os outros, sejam eles homens ou não, seja a mulher que busco ou outra coisa, seja o sofrimento próprio da tragédia de existir ou outras dores mais concretas… Mas o poema está feito, o corpo também, e tudo vai bem. Talvez o amor não esteja ainda feito!
Quando diz que Livro das Quedas é o último livro da sua vida quer dizer que de momento não está a trabalhar em mais nada? É, por ser o último, o livro da sua vida?
O meu último livro de poesia é o Livro das Quedas (a ser publicado todo agora teria 700 páginas mas acabo de editar apenas os primeiros 125 fragmentos), de que resultou a antologia italiana, havendo outras em tradução para outras línguas. Acontece no entanto que paralelamente há outros Livros, que vêm de trás. Escrevo haiku há quase 50 anos (comecei em 1958) e os 1500 poemas existentes vão ser reunidos sob o título Livro dos Haiku. Existem milhares de fragmentos e aforismos, género da minha obsessão, que vão sendo reunidos em vários livros. Tudo isso vem de trás, como disse: uma espécie de "fundo" donde vou retirando materiais para livros novos na área da escrita fragmentária. E neste momento estou a trabalhar furiosamente num livro que se intitulará O Sexo e o Canto. Mas a poesia que for surgindo, e cada poema será sentido como se fosse o último, vai toda para o Livro das Quedas.
Qual é o potencial de um aforismo? Tem a força de um slogan publicitário? É isso que o fascina no aforismo?
Bom, a comparação não é famosa, só se comparam por seres ambos breves. O slogan publicitário baseia-se numa verdade relativa (ou numa mentira relativa) e passado o efeito morre e joga-se para o lixo. O aforismo, igualmente breve, tem a forma de um ovo donde pode nascer um pássaro. É um texto mínimo que, começando por surpreender, vai transformar-se em coisa do outro, do leitor, uma vez que a sua estrutura enigmática se presta à interpretação. Deve ser perfeito como o tal ovo ou uma pedra: não há nele uma sílaba a mais mas tudo o que lá está é muito mais. A única comparação possível é com a forma mais bela de poema que existe: o haiku! Vou transcrever um texto, tirado de um dos meus livros de aforismos, Da Frágil Sabedoria:“O aforismo é um quase silêncio; uma pegada de gaivota na areia da manhã. Ainda mais dois, estes do livro que acabei recentemente, Fragmentos de Babel: “As metáforas —e também os aforismos— vêm pelo caminho impalpável da serpente e trazem, inesperadas, a substância mais consistente do inconsciente.” Ou este: “Quantas veredas obscuras para encontrar um ponto luminoso onde o silêncio arda? Tal um ovo —ou um calhau polido por mil estações — o aforismo acontece. A teia interior, a letra interrompida pelos ruídos da cidade, e com eles ao fundo retomada. E completada por quem a lê, ora iluminando-a, ora despenteando-a. O direito do leitor igual ao do escritor.
Fale-me um pouco da sua relação com a poesia japonesa.
Longa e profunda. Tinha vinte anos, tinha partido do país para fugir à guerra colonial e encontrava-me num colégio inglês, a fazer um curso de verão. Havia publicado dois livros que um dos nossos grandes críticos considerou inspirados mas que bebiam em poetas torrenciais: e bebiam. O louvor agradou-me mas pouco depois enervou-me, eu queria encontrar o meu próprio caminho. Ser mais claro, sentir-me mais próximo da fonte, do enigma. E então não é que nesse tal Colégio fui colocado no quarto de um professor em férias de poesia oriental? Uma estante cheia de uma poesia que eu não conhecia! Japonesa e chinesa! Comecei a traduzir com a ajuda de uma japonesa que também estava nesse curso – éramos jovens de 50 ou 60 países —, e isso transformou-me e à minha poesia: conheci uma poética que hoje considero a mais bela de todos os tempos (comparável só as nossas “cantigas d’amigo”), entrei num campo de trabalho como eu gosto, a longo prazo, para sempre; entrei na vida (física, mental, sensível) de um ser celestial, a minha amiga japonesa, enfim, coisas bonitas que mudaram o meu caminho. Nunca mais deixei de respirar essa poesia e, sobretudo, nunca mais deixei de pensar (e de fazer) que é preciso conhecer mais do que a nossa tradição poética…

Escreveu 14 poemas para a exposição de escultura de Kisako Umino, a inaugurar em 2 de abril de 2005 em Paris. Como surgiu essa colaboração? O que é que os seus poemas acrescentam à obra de Umino?
Conheci a Kisako quando fui ao Japão, há dois anos. Uma viagem maravilhosa de 13 horas porque o destino nos colocou lado a lado e encontrámos coisas comuns relacionadas com a arte, com a Natureza, com a vida enquanto tragédia mas, curiosamente e para ambos, esse sentido trágico da vida era luminoso. O ano passado fui ler poesia a Itália e ela foi visitar-me, e eu próprio a tinha convidado para vir a Portugal, passar uns dias numa Casa do Artista, mas não sei porquê quase não pude estar com ela, ia não sei para que viagem… Quando estive no seu atelier, em Florença, foi o fascínio: ela fazia coisas, “animais da terra”, que se pareciam com os meus poemas… bichos enigmáticos! Entretanto uma galeria de Paris convidou 14 artistas para exporem cerâmicas: 7 japoneses instalados no estrangeiro, 7 estrangeiros instalados no Japão. E a Kisako pediu-me um haiku para uma das suas esculturas. Adorei e nessa mesma noite escrevi… 14! Uma maravilha que depois continuou, como? No dia seguinte telefono à minha tradutora francesa, Catherine Dumas, que, generosa como sempre e apesar de se estar a preparar para uma viagem, os traduziu todos de imediato. No terceiro dia mostro-os a Ana Hatherly, que de imediato os traduziu para inglês. E no quarto dia mando-os para o poeta japonês com quem trabalho na tradução de poesia japonesa que, também de imediato, os traduziu para japonês. E que me disse que queria publicá-los, nas 4 línguas, numa das mais relevantes revistas japonesas de haiku. Já foram. Enfim, tudo isto aconteceu como acontece um haiku: quando menos se espera… uma aparição… um enigma! E lá fui a Paris ler os poemas e passear com a Kisako sob as pontes do Sena.
Integrou o movimento Poesia 61 que, se interpreto correctamente, considerava que a poesia não devia perder um certo misticismo, uma certa abstracção do real. Qual a sua opinião sobre os chamados “poetas do real”?
A poesia é o real absoluto e se, para se encontrar um homem, precisamos da tal lanterna, a de Diógenes, calcule o que é preciso para se encontrar um poeta. Coisa que nem se sabe logo. A maior parte dos poetas que se intitulam do real são-nos apenas do trivial, no sentido menos nobre desta nobre palavra: três vias. É por isso que há tanta gente a escrever poesia e tão poucos poetas. Mas isto é outra história. O tema da “Poesia 61” (que de facto deu uma volta à poesia portuguesa da altura por ter insistido no peso profundo e concreto das palavras) não me interessa muito. Isso foi um episódio, embora significativo, no meu percurso. Mas o essencial veio depois, e ainda está a vir…
Tem mais de 40 livros publicados, é presidente da PEN, dirige festivais de poesia. É um profissional das letras? Acha que viver exclusivamente para as letras faz melhores escritores, ou acha que os livros se podem escrever em qualquer circunstância?
Os poemas escrevem-se antes e dentro e sempre quando a via é essa. Num dos meus últimos livros, de aforismos, a referida Da Frágil Sabedoria, a dedicatória era assim: “Este livro, que vem sendo escrito desde os anos setenta, vai dedicado aos engarrafamentos de Lisboa, às esperas nos aeroportos e às praias desertas.” Anos, por vezes dezenas de anos, para completar o tal texto que nos acompanha, como se vivesse num enorme zoo interior; capacidade de escrever sob todas as circunstâncias, adaptando os temas e as formas (engarrafamentos? Aforismos); preenchimento dos vazios negativos – por exemplo as longas horas forçadas nos aeroportos, e dos vazios gloriosos – um corpo nu ao longo das praias desertas…
Prémio Aleramo-Mário Luzi para Casimiro de Brito
Beatriz Pacheco Pereira encerrou ciclo de conferências Ver e Ler, Ler e Ver com debate sobre a condição feminina em Portugal.

Num auditório, o da Reitoria da Universidade do Porto, grande para tão pouco público, Beatriz Pacheco Pereira, fundadora e organizadora do festival de cinema Fantasporto, professora e escritora, encerrou o ciclo de conferências Ver e Ler, Ler e Ver, organizado pelo Instituto de Recursos e Iniciativas Comuns da Universidade do Porto (IRICUP).
O tema, As Mulheres na Literatura e no Cinema, foi abordado num discurso distante do académico, mais confessional e autobiográfico. Embora o panfleto prometesse uma palestra sobre o diálogo entre as artes plásticas e escritas, abordando o caso das mulheres que trabalham nestas áreas, Beatriz Pacheco Pereira preferiu falar dos obstáculos que uma mulher encontra no mundo das artes, particularmente no cinema, em Portugal.
Muitas vezes minimizada por ser irmã e mulher de duas figuras públicas, Beatriz assumiu frontalmente que em Portugal há desigualdade entre homens e mulheres, particularmente no mundo do cinema. «As mulheres não ganham dinheiro no cinema. Na literatura, na música, nas artes plásticas, é um pouco mais fácil conseguir-se reconhecimento», disse.
«É complicado ser mulher e ter opinião em Portugal»
O caso da comunicação social também mereceu a atenção da professora: «nas redacções dos jornais e das televisões vemos principalmente mulheres jovens. Contratam-nas porque gostam delas, porque são bonitas, não pela capacidade de trabalho ou pelo mérito. Quando se casam ou têm filhos, as mulheres saem de circulação, são substituídas. Não vemos mulheres com mais de 35 anos nas redacções».
Também na televisão, defendeu Beatriz Pacheco Pereira, as mulheres estão em desvantagem: «há comentadores homens, muito bem pagos, nas televisões. Mas não há mulheres. Em Portugal é uma coisa complicada ter-se opinião quando se é mulher».
No entanto, a professora admite que o principal problema da sociedade portuguesa é o da falta de reconhecimento do mérito. E isso afecta tanto os homens como as mulheres.
Novo livro em jeito de «vingança pessoal»
Assumindo-se como uma mulher do Porto, Beatriz prepara um livro sobre as personalidades femininas da cidade no início do século XXI. “É uma vingança pessoal”, explicou em jeito de brincadeira, “já que, aquando da Porto 2001, se fez um dicionário das figuras do Porto e, em 600 personalidades, apenas 33 eram mulheres”.
Em diálogo com o marido Mário Dorminsky, também ele organizador do Fantasporto, presente na plateia, Beatriz Pacheco Pereira recusou cair no discurso da vitimização, incentivando as mulheres a “terem voz, a produzirem mais, a serem menos modestas... todas essas coisas que fazem de nós seres passivos, muitas vezes”.
O público, apesar de escasso, deu novo colorido à discussão, debatendo e lançando questões relativas ao papel da mulher na sociedade e na cultura. De um tema tão complexo ficou apenas a certeza de que haveria assunto para mais conferências.

As nuvens tresmalharam-se
os grandes lagos acolhem a tempestade
Por João Artur Santos
O Prémio Príncipe das Astúrias das Letras 2005 foi atribuido à escritora brasileira Nélida Piñón. De origem galega, Piñón é considerada uma voz com "pronúncia" espanhola em terras brasileiras. Paul Auster, Philip Roth e Amos Oz estavam entre os candidatos ao prémio.

Nélida Piñón nasceu no Rio de Janeiro em 1937, oriunda de uma família de origem galega. Formada em jornalismo, foi a primeira mulher a dirigir a Academia Brasileira de Letras, entre 1996 e 1997.
Estreou-se com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, em 1961. O desejo, o sexo, a política, as origens galegas marcam uma forte presença nos seus romances e contos.
Foram-lhe atribuidos importantes galardões, entre os quais o prémio da União Brasileira de Escritores de São Paulo, pelo romance A doce canção de Caetana (1987), o Prémio Golfinho de Ouro, pelo conjunto de obras, conferido pelo governo do Estado do Rio de Janeiro (1990) e o Prémio Internacional de Literatura Juan Rulfo, o mais importante da América Latina, concedido pela primeira vez a uma mulher e a um autor de língua portuguesa (1995).
O Prémio Príncipe das Astúrias das Letras já distinguiu autores como Mario Vargas Llosa, Camilo José Cela ou Susan Sontang. À edição deste ano apresentaram- se 31 candidaturas de 16 países, entre as quais as de Paul Auster, Philip Roth e Amos Oz.
Obras de Nélida Piñón
- Guia-mapa de Gabriel Arcanjo (1961)
- Madeira Feita Cruz (1963)
- Tempo das Frutas (1966)
- Fundador (1969)
- A casa da Paixão(1972)
- Sala de Armas, (1973)
- Tebas do Meu Coração (1974)
- A Força do Destino (1977)
- O Calor das Coisas (1989)
- A República dos Sonhos (1984)
- A Doce Canção de Caetana (1987)
- O Pão de Cada Dia (1994)
- A Roda do Vento (1996);
- O Ritual da Arte, Ensaio Sobre a Criação Literária (inédito).
Obras da autora disponíveis em Portugal.
O corpo de Eugénio de Andrade foi ontem a enterrar no jazigo municipal do Cemitério do Prado do Repouso. Numa despedida em que o clima de tristeza não impediu a serenidade, cerca de três centenas de portuenses e algumas figuras públicas prestaram uma última homenagem ao poeta de As Mãos e os Frutos.

Imagem: DN
A ministra da Cultura esteve presente no adeus a Eugénio
A Cooperativa Árvore foi pequena para acolher as pessoas que ali se deslocaram numa última homenagem a Eugénio de Andrade, falecido às 3h30 do dia 13. Alguns poetas, entre os quais Ana Luísa Amaral e Manuel António Pina, recitaram poemas de Eugénio em jeito de homenagem. A ministra da Cultura Isabel Pires de Lima e o assessor do Presidente da República estiveram também presentes na galeria portuense.
O cortejo fúnebre partiu da Cooperativa Árvore às 16h30 da tarde. Pelas ruas do Porto, cerca de 300 pessoas partilharam a última viagem de Eugénio de Andrade até ao Cemitério do Prado do Repouso. Durante o percurso, o cortejo parou no número 111 da Rua Duque de Palmela, que o poeta habitou até 1993, ano em que se mudou para a Fundação com o seu nome.
«Eugénio não se fechou sobre si mesmo»
Na igreja, Arnaldo Saraiva, presidente da Fundação Eugénio de Andrade, fez o discurso de despedida, lembrando Eugénio como «um poeta que nunca se fechou sobre si mesmo. Mesmo agora, no fim da vida, ele gostava de ler jovens autores, quando reconhecia que havia talento neles».
Saraiva sublinhou ainda a dimensão humilde do poeta, que não se comportava como se já conhecesse «os segredos todos da poesia. Ele nunca deixou de ter vontade de aprender, e sabia que podia aprender com todas as pessoas».
O presidente da Fundação aproveitou ainda a ocasião para incentivar o público a ler poesia, e a própria poesia a tornar-se acessível aos leitores.
«Corpo deverá ser transladado para sepultura melhor»
O presidente da Câmara, Rui Rio, realçou «o grande orgulho da cidade em ter um poeta como Eugénio», que viveu no Porto desde 1950. O autarca garantiu que a obra de Eugénio não será deixada ao esquecimento e expressou o desejo de «transferir mais tarde o corpo do jazigo municipal para uma outra sepultura melhor».
Francisco Louçã, dirigente do Bloco de Esquerda, Rosa Mota, o ex-presidente da autarquia portuense Nuno Cardoso e o jornalista e historiador Germano Silva foram algumas das personalidades dos vários quadrantes da vida nacional que marcaram presença na cerimónia de despedida ao poeta Eugénio de Andrade.
Eugénio de Andrade no MUITA LETRA

Acredito em amuletos. Procuro rodear-me de objectos que me confiram serenidade e estilo. Projecto os meus desejos na segurança táctil dos objectos. Para meu conforto e ilusão forço-os à inevitabilidade de uma estória.
Na imagem: Amuleti, por Nando Snozzi
O funeral do poeta, falecido ontem aos 82 anos, sai às 16h30 da tarde de hoje da sede da Cooperativa Cultural Árvore para o Cemitério do Prado do Repouso.

Imagem: O Comércio do Porto
Recorde-se que Eugénio de Andrade morreu às 3h30 da madrugada de dia 13 de Junho, devido a doença prolongada, na sua casa no Porto, disse à Agência Lusa fonte da Fundação Eugénio de Andrade.
O poeta, que dedicou Adolescente (1942), seu livro de estreia, a Fernando Pessoa, morreu no dia em que se assinalaram os 117 anos do nascimento do poeta da Mensagem.
Biografia de Eugénio de Andrade
Subordinou a arte à crença política e fica conhecido como histórico dirigente do Partido Comunista Português (PCP). Mas Álvaro Cunhal deu também corpo a um artista plástico, a um ensaísta e ao romancista Manuel Tiago.

Para a maioria dos portugueses, e durante muito tempo, Álvaro Cunhal foi o homem que deu a cara pelo PCP. Só mais tarde se descobriu que o mesmo homem que se empenhava de corpo e alma na política guardava ainda energia para escrever e pintar.
Numa estética fortemente neo-realista, panfletária, maioritariamente seguida por autores comprometidos política e socialmente, Manuel Tiago (pseudónimo literário de Cunhal) foi publicando romances em que a clandestinidade, a passagem pelos calabouços da polícia política, o quotidiano dos militantes comunistas e do proletariado eram temas fortes. A literatura, claro, estava ao serviço da crença política do escritor.
No Dicionário da Literatura Portuguesa, António José Saraiva e Óscar Lopes defendem que o relato ficcionado da experiência de Cunhal é «o mais informativo, o mais exemplar e vivencialmente denso dos romances baseados numa intensa e íntima experiência de organização clandestina».
Só em 1995, já arredado da política activa, o histórico líder comunista revelou o rosto que o pseudónimo Manuel Tiago escondia. Entretanto, já publicara a trilogia formada pelos romances Até Amanhã, Camaradas (recentemente adaptado à televisão por Joaquim Leitão), Cinco Dias, Cinco Noites (levado ao cinema em 1996, por José Fonseca e Costa), A Estrela de Seis Pontas e ainda A Casa de Eulália.
Ao morrer, esta madrugada, aos 91 anos, Álvaro Cunhal leva consigo não só o político, mas tabém o escritor.
O poeta Eugénio de Andrade morreu hoje, às 03h30, na Fundação Eugénio de Andrade, no Porto, de doença prolongada. José Fontinhas, que escrevia sob o pseudónimo de Eugénio de Andrade, tinha 82 anos.

Eugénio de Andrade nasceu na Póvoa da Atalaia, em 1923, e vivia no Porto, onde criou a Fundação com o seu nome, desde 1950. É um dos poetas mais reconhecidos e premiados da literatura portuguesa contemporânea e a sua obra está traduzida para alemão, asturiano, castelhano, catalão, chinês, francês, italiano, inglês, jugoslavo e russo.
Outros artigos sobre Eugénio de Andrade no MUITA LETRA
A 13 de Junho de 1888, às 3h20 da tarde, no quarto andar esquerdo do n.º 4 do Largo de São Carlos, em frente da ópera de Lisboa, nasce Fernando António Nogueira Pessoa. A criança é baptizada com os dois nomes do Santo que a acolhe: Fernando (Fernando de Bulhões era o verdadeiro nome do frade franciscano) e aquele com que ficou conhecido para a posteridade, António.
Enquanto, no calor da tarde, os lisboetas descansam da noite de festas em honra do Santo Padroeiro da cidade, chega o rapazinho ao mundo. Num dia em que todos os pensamentos estão ainda com as marchas, com a música, com as fogueiras, este acontecimento passa despercebido.
Foi há 117 anos e essa tarde de Junho, ensimesmada, esgotada pela noite de Santo António, não sabia ainda o que a tornaria especial.

Fernando Pessoa no seu primeiro ano de vida
O escritor argentino de 67 anos morreu ontem num hospital de Paris na sequência de doença prolongada, informaram hoje fontes familiares. Juan José Saer dedicou-se à literatura, à crítica literária, ao ensino e ao cinema e era considerado um dos mais importantes escritores contemporâneos da Argentina.

O escritor de origem síria nasceu a 28 de Junho de 1937 em Serondino, na província argentina de Santa Fé. Mudou-se para a capital francesa em 1968, altura em que lhe foi concedida uma bolsa de estudo. No seu país natal estudara Direito e Filosofia e em França leccionou na Faculdade de Letras da Universidade de Rennes até 2002, ano em que se retirou.
Colaborou como crítico literário na imprensa e chegou a realizar algumas crutas-metragens. Foi no romance, na poesia e no ensaio filosófico, no entanto, que mais se destacou (obra completa). Em 1987, La Ocasion valeu-lhe o Prémio Nadal, um dos mais importantes das letras espanholas. No ano passado venceu, ex-aequo com o romeno Virgil Tanase, o Prémio da União Latina das literaturas românicas (artigo). Antes, em 2003, vira-lhe ser atribuido o Prix France Culture.
Livros do autor disponíveis em português.
Há meses assisti a uma conferência sobre Os Lusíadas de Luís de Camões. Um dos intervenientes emocionou-se e chorou ao falar sobre o episódio da morte de Inês de Castro, e eu lembro-me de ficar triste, até com ciúmes, por não ver, «claramente visto», o encantamento que aquela pessoa encontrava na obra. Ontem comemorou-se o Dia de Camões, unanimemente tido como o maior poeta português, e na Feira do Livro do Porto era maior a procura de Dom Quixote de Cervantes do que do clássico da literatura portuguesa. Afinal, onde pára o génio de Camões? Merece que as gerações mais novas o tragam de novo à vida?

Pela minha parte, posso adiantar algumas razões para o desinteresse pela epopeia dos Descobrimentos. D’ Os Lusíadas, confesso, conheço pouco mais do que a estrutura, o que o provérbio conta dos principais episódios e o que rezam os livros de Português. Estudei, como muitas gerações de portugueses, a obra de Camões na escola preparatória e vem daí a minha aversão por ela. A professora utilizava os versos rebuscados para ensinar gramática aos alunos, obrigando-nos a dividir e identificar as várias orações de cada estrofe. Estava o caldo entornado...
Outro dos motivos do desinteresse passa pela época histórica em que estudei Os Lusíadas, quando o episódio da Ilha dos Amores já não era proibido e lido às escondidas, mas apresentado em voz alta à turma, que não podia deixar de rir da ideia das ninfas se interessarem por marinheiros mal cheirosos e cheios de escorbuto. A minha geração, desmitificada a sexualidade, não vê no Ilha dos Amores o fruto proibido. Lembro-me de ler o episódio com cinismo, imprudência de quem tem 14 ou 15 anos.
Não deixa de ser também curioso que, no Dia de Camões, Dom Quixote fosse o herói mais procurado na Feira do Livro do Porto. Há várias explicacações para o fenómeno: o clássico de Cervantes assinala em 2005 os 400 anos da sua publicação e tem sido revisitado, por mérito da campanha encetada por Espanha e pelos países de língua castelhana, um pouco por todo o mundo. Em Portugal foram recentemente lançadas duas novas traduções, com uma boa operação de marketing a acompanhar, de uma obra de que só conhecíamos a versão portuguesa de Aquilino Ribeiro.
Também é certo que não fomos obrigados a dissecar as orações de Cervantes e todos os artigos que lemos sobre o livro realçam a magia e o idealismo de Dom Quixote e a mestria narrativa do escritor espanhol. Podem Os Lusíadas, nesta conjuntura, concorrer com Dom Quixote?
É claro que Vasco da Gama, Dom Pedro e Inês, o Adamastor e as Tágides renasceriam após uma releitura atenta. Tê-la-ão quando, da minha parte, houver maior maturidade, menos preconceito e maior disponiblidade de tempo. Até lá, fico-me com Dom Quixote e Sancho Pança e deixo-vos o texto integral d´Os Lusíadas aqui. No caso de já estarem preparados para conceder a Luís de Camões a segunda hipótese que merece.
O mundo à volta dos livros.

«Esta é a história de me tornar honesto», entrevista a DBC Pierre, no Diário de Notícias.
«O álcool ajudou-me a sobreviver ao Booker», continuação da entrevista a DBC Pierre, no DN.
Camões, sobre Luís de Camões, no DN, por Pedro Correia.
Just give me that old-time atheism!, artigo de Salman Rushdie no Toronto Star.
A tale of two writers, quando H. C. Andersen e Charles Dickens se conheceram, no The Independent.
And The Winner Is…, o livro eleito pelos britânicos como o melhor de sempre, na BBC.
Top 100, a lista dos restante 99 livros escolhidos pelos britânicos.
Umberto Eco: Miracles in Milan, o último romance de Umberto Eco?, no The Independent.
Com as Feiras do Livro de Lisboa e Porto a decorrer, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) apresenta o projecto APEL Digital. O projecto consiste numa base de dados com o registo de título e autor de todas as publicações portuguesas, tornando possível a pesquisa online, e estará disponível na Internet na próxima semana.

No site da APEL podemos ler que este este projecto pretende «conseguir disponibilizar mais informação, de um modo dinâmico e contínuo, bem como tornar muito mais célere todo o modelo de interacção da estrutura associativa com os seus associados e o público em geral».
Deste modo, todos os livros, portugueses ou estrangeiros, publicados no nosso país podem ser encontrados, de forma rápida e fácil, online. A APEL Digital quer assim tornar-se uma ferramenta indispensável no quotidiano dos profissionais do livro.
A concretização desta base de dados saldou-se em 370 mil euros, dos quais a APEL financiou 40% e o Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ao Investimento (IAPMEI) o restante. O projecto APEL Digital é hoje apresentado hoje, pelas 18:30 horas, no auditório da Feira do Livro do Porto.
O Silêncio de um Homem Só é o livro com que o escritor Manuel Jorge Marmelo convenceu o júri do Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) com o patrocínio da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.

O prémio, relativo ao ano de 2004, tem o valor pecuniário de 5 mil euros. O júri, composto por Cristina Almeida Ribeiro, Fernando Campos e Mário Ventura, escolheu a obra de Marmelo por unanimidade.
Manuel Jorge Marmelo nasceu no Porto, em 1971. É jornalista desde 1989 e estreou-se nas letras em 1996, com O homem que julgou morrer de amor/O casal virtual. Mantêm um site pessoal e um blogue.

Partiram para férias. Fecharam a casa e readmitiram o velho jardineiro para que alimentasse os gatos. Eram propriedade dela, que brincava com eles à lareira nas noites de inverno, os seus olhos faiscando quase tanto como os dos felinos. Ela agarra aqueles corpos vibrantes, força os mais ariscos a sentarem-se no seu colo, cobre-os de beijos ao mesmo tempo que lhes prende as patas para que a não arranhem, repuxa-lhes suavemente a pele dos crânios para que fiquem com uma expressão inadvertidamente aflita. Pela manhã chama o marido para que os veja, e a ela orgulhosa, beberem leite pela mesma tigela. Tenho muito jeito com gatos, diz.
O jardineiro prende-os em casa para que não persigam as galinhas no pátio. Os gatos derrapam nas carpetes da sala, esfarrapam os cortinados, crispam as unhas no papel de parede e esbofeteiam as porcelanas. O jardineiro prende-os na sala da lareira e esquece-os. Está a aparar as roseiras quando o carro dos patrões dobra a curva. As rosas têm um perfume bravo, naquela altura do ano e as pétalas, se não são acariciadas com uma macia destreza, caiem amadurecidas como frutos no chão. Os espinhos arrepiam-se levemente ao toque, são dorsos.
Um grito de dor lança-se da janela do primeiro andar. O jardineiro sobe as escadas com os pensamentos correndo mais rápido que os pés. Os gatos, esqueci-me dos gatos.
Imagem retirada do site http://www.evanrizo.com/interest.htm
Agustina Bessa-Luís esteve ontem no café literário da Feira do Livro do Porto para falar do seu último livro, Antes do Degelo, e da reedição do primeiro, Mundo Fechado. Com o público fascinado pela sua presença, a escritora acabou por fazer outras confissões.

Imagem: Jornalismo Porto Net
Quando a autora d´A Sibila chegou, vestida com a discrição elegante de quem sempre pertenceu a uma espécie de aristocracia, fez-se silêncio no café literário do Pavilhão Rosa Mota. Era óbvia a admiração dos presentes pela mulher e pela escritora. A sua estatura pequena, o seu andar passarinhado, o brilho infantil dos olhos que traía os seus 83 anos causaram forte impressão.
Bessa-Luís começou por falar da experiência de escrever e publicar o seu primeiro livro: «O Mundo Fechado foi escrito enquanto a minha filha, bebé então, dormia. Era o único tempo que tinha livre». Aos anos, a jovem Agustina leu A Selva, de Ferreira de Castro. O pai dissera-lhe que era o melhor livro de um escritor português. Agustina não teve problemas, logo aí, em afirmar: «Se isto é o melhor livro de um escritor português, eu vou fazer o melhor livro de um escritor português». Assim, a boa recepção do seu romance de estreia não a surpreendeu, já que a escritora debutante estava «muito segura daquilo que tinha escrito».
«Há que gerir o Mal de forma a torná-lo impraticável»
Antes do Degelo, publicado em 2004, foi também tema de conversa. «O enigma da culpa é a chave do livro», explicou Agustina, que escreveu o seu mais recente romance inspirada na obra Crime e Castigo de Fiódor Dostoievski. «O homem vive da culpa, precisa da culpa para criar. A mulher é aquilo que é, tem esse dom criador, ao ser mãe. O homem usa a culpa como modo de superar esse dom da mulher. É pela culpa que se dão os grandes feitos da humanidade», defendeu.
A problemática do Bem também mereceu a atenção de Agustina: «Cinco séculos de moralidade, de pregação do Bem, não deram resultado. A questão é agora gerir o mal de modo a que ele se torne impraticável», considera. Para a escritora, «o Mal é um excitante. Quando perde a natureza de trangressão, de mistério, deixa de ser excitante e de interessar as pessoas».
«A palavra do crítico não define o destino do escritor»
Questionada por uma leitora sobre a sua faceta perversa enquanto escritora e carinhosa enquanto pessoa, Bessa-Luís disse que a perversidade sempre a acompanhou: «sempre tentaram aplicar-me esse adjectivo como modo de travar a minha vivacidade, a viscosidade do talento. A civilização é perversa, o ser humano é perverso no modo como tenta adestrar a Natureza, é assim para sobreviver».
Durante esta conversa informal com os seus leitores, a escritora confessou que recebe muitas obras de jovens escritores que lhe pedem opinião. Nem sempre responde: «sou generosa em coisas profundas e, mesmo quando leio um livro na diagonal, se percebo que tem qualquer coisa sou a primeira a dirigir-me a essa pessoa». Mesmo sendo uma das mais importantes escritoras contemporâneas, Agustina Bessa-Luís é uma mulher presa à sua geração e por isso não dá grande atenção ao que de novo se vem fazendo na literatura portuguesa: «se calhar injustamente leio pouco novos livros, mas não é a palavra de um crítico que define o destino de um bom escritor».
As Intermitências da Morte, novo romance de José Saramago, já está na editora para ser publicado, anunciou ontem a Editorial Caminho. O livro, com uma tiragem inicial de 100 mil exemplares, vai ter edição simultânea em Portugal, Brasil, Itália, Argentina, México e Espanha.

Ainda este ano, Saramago publicou Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido, peça de teatro inspirada na ópera de Mozart Don Giovanni ou O Dissoluto Punido.
Como «uma enorme responsabilidade», é assim que Mário Cláudio lhe vê ser entregue o Prémio Pessoa 2004. «O facto de existirem nomes maiores da cultura portuguesa associados ao prémio leva-me também a encará-lo com humildade», acrescentou ontem o escritor, durante a cerimónia de entrega do galardão, pelo Presidente da República, no Museu Militar em Lisboa.

O júri do Prémio Pessoa distingue o escritor portuense por, «como ficcionista, ser autor de uma obra que se caracteriza pela mestria da língua, a preocupação historiográfica, a tentação biográfica e a extraordinária invenção narrativa».
O vencedor do galardão, no valor de 42.500 euros, foi anunciado, como o MUITA LETRA noticiou, em Dezembro de 2004. Manuel Alegre (1999), José Cardoso Pires (1997) ou Herberto Helder (1994) estão entre os escritores distinguidos com o Prémio Pessoa.
Mário Cláudio prepara já um novo livro, de que não revela o título, mas que adianta ser «um compromisso entre a História e a ficção», baseado na vida de «uma figura da Cultura portuguesa», e deverá ser publicado no próximo ano pela .
Mário Cláudio, o «escritor raro»
Por duas horas, a Feira do Livro do Porto reuniu ontem amigos e estudiosos do professor e ensaísta Óscar Lopes. Durante o tributo, a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, pôs de parte o cargo político para ler «uma declaração de amor» ao amigo. Manuel Dias da Fonseca, Ana Maria Brito, Fátima Oliveira, Fernando Guimarães e Leonor Curado Neves também fizeram parte do painel de especialistas, numa cerimónia a que só faltou o homenageado, por motivos de saúde.

Imagem: O Comércio do Porto
Depois de Eugénio de Andrade (2003) e Agustina Bessa-Luís (2004), esta edição da Feira do Livro do Porto presta tributo a Óscar Lopes, considerado por Jorge Araújo, vice-presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), como «uma das figuras mais importantes da cultura portuguesa do século XX».
Para debater o homem e a sua obra, reuniu-se no Pavilhão Rosa Mota um painel de seis especialistas em estudos literários, dos quais se destaca a actual ministra da Cultura.
Isabel Pires de Lima pôs em relevo «a sua [de Óscar Lopes] dimensão integradora», «o seu carácter evolutivo e consequente» e a «abertura de espírito e o rigor no que faz, o amor pela língua, como pelas flores, gatos e pela vida». Pires de Lima, que já tinha realizado, em conjunto com Francisca Gorjão Henriques, um documentário sobre Óscar Lopes (Óscar Lopes - Os Sinais e os Sentidos), apresentou-se no certame como amiga do homenageado e não como representante de um cargo governamental, lendo um texto seu, escrito há 15 anos, que rotulou de «uma quase despudorada declaração de amor» ao antigo colega da Faculdade de Letras do Porto.
Óscar Lopes, escritor e ensaísta, professor, crítico literário e linguista, nasceu em Leça da Palmeira, Matosinhos, no ano de 1917. Licenciou-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras de Lisboa, é diplomado pelo Instituto Britânico e pelo Conservatório de Música do Porto. Desde 1974, lecciona na Faculdade de Letras do Porto.
Faz parte do comité central do Partido Comunista Português, a que aderiu em 1945. Enquanto ensaísta e crítico literário, colaborou com vários jornais e revistas. Da sua vasta bibliografia destaca-se a História da Literatura Portuguesa, que escreveu em colaboração com António José Saraiva.

Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.
Cecília Meireles
Na image: Sombra de Costa Pinheiro, de Lourdes de Castro
O Booker Prize, o prémio maior das letras britânicas, foi este ano atribuído ao escritor albanês Ismail Kadaré. O júri escolheu Kadaré por considerá-lo um «escritor universal na tradição dos contadores de histórias que remontam a Homero». Com a atribuição do prémio a um autor não britânico, os responsáveis pelo Booker respondem aos que os acusam de apenas levarem em conta autores britânicos ou da Commonwealth.

Imagem: BBC
Ismail Kadaré vive actualmente em Paris, depois de fugir da Albânia comunista no início da década de 90. A sua obra de poeta e romancista, que há vários anos faz deste escritor um forte candidato ao Nobel da Literatura, foi até há pouco tempo proibída no seu país natal. Ainda assim, é o autor mais reconhecido pelos albaneses, talvez porque os seus livros exploram a identidade do país, constantemente questionada pelo choque entre oriente e ocidente.
Além da literatura, Kadaré dedica-se também ao jornalismo. Nascido em 1936, deixou os Balcãs há 15 anos para poder escrever em liberdade. Em 1996 foi eleito membro da Academia das Ciências Morais e Políticas e, recentemente, foi agraciado com a Legião de Honra, em França.
Kadaré, que se declarou «profundamente honrado» com este prémio, deixou para trás, na corrida ao Booker deste ano, autores como Muriel Spark, Doris Lessing ou Ian McEwan. O galardão, no valor de 60 mil libras, será entregue a 27 de Junho, em Edimburgo.
Livros do autor disponíveis em Portugal.
A semana letra a letra.

«A solidão é a doença do milénio», entrevista a Margarida Rebelo Pinto no Correio da Manhã.
Num idioma sagrado e sexual, comentário de Pedro Mexia ao livro A Alegria do Mal, de José Emílo-Nelson, no Diário de Notícias.
Apontamentos sobre o escritor japonês do momento Haruki Murakami, por João Céu e Silva no DN.
«Ressuscitar Camilo através do seu estudo», entrevista a Aníbal Pinto de Castro, director do Centro de Estudos Camilianos, no DN.
Identidade nacional e sexual em causa no tecido da ficção, comentário de Elizabete França a O Mensageiro Diferido, de Rui Nunes, no DN.
Ten Most Harmful Books of the 19th and 20th Centuries , os livros que a Human Events considera os mais nefastos dos últimos dois séculos.
Heavyweight champion, entrevista a Umberto Eco no Arts.telegraph.

Ele pensa nela, despojada na cama que não deixa há dias e dormitando. Quando acorda levanta o lençol e ergue os olhos para o seu corpo deitado. Ela pensa: é um corpo nublado, feio, e move-se difuso e como num sonho. É como um animal que não me pertence, pensa ela. E de facto há qualquer coisa de animal no corpo dela, ele pressente-o. Imagina-a Antínoo, infantil, melena solar, coxas tensas como as de um jovem cavalo. Ele é Adriano, o velho soberano a quem a adoração daquele corpo, daquela inteligência irredutível de quem já tem entre os dedos dos pés a areia do abismo, dana. Pela primeira vez desde que ela chegou à sua cama sente-se com ela na intimidade. Ela está sozinha nos lençóis, sentindo a fremência do animal turvo que é o seu corpo. Ele passeia pela Baixa da cidade, fazendo horas para voltar para o pé dela e sente com ela o que nunca sentiu com ninguém: o medo compartilhado da carne, a estranheza da carne. Sente intimidade com ela.
Na imagem: Eleanor, de Harry Callahan
Juntamente com cinco outros institutos culturais europeus, o Instituto Camões recebeu ontem o Prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades 2005. O ministro dos Negócios Estrangiros, Freitas do Amaral, já se congratulou com a vitória deste organismo de divulgação da língua portuguesa, dizendo ter recebido a notícia «com enorme honra e satisfação». O Prémio será entregue em Outubro, numa cerimónia a realizar-se em Oviedo.

Para além do Instituto Camões, também foram distinguidos o Instituto Cervantes (Espanha), a Alianza Francesa (França), a Sociedade Dante Alighieri (Itália), o British Council (Reino Unido) e o Goethe Institute (Alemanha). Todos estes organismos têm como função a protecção e divulgação da língua dos respectivos países.
O Prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades foi instituído em 1980 e tem como objectivo dar visibilidade a quem se destaque no trabalho científico, técnico, cultural, social e humano nas categorias da Comunicação e Humanidades, Ciências Sociais, Artes, Letras, Investigação Cientifica e Técnica, Cooperação Internacional, Paz e Desportos. Umberto Eco, George Steiner ou o canal televisivo CNN são alguns dos vencedores em edições anteriores.
Criado em 1992 para promover no exterior a língua e a cultura portuguesa, o Instituo Camões é actualmente presidido por Simonetta Luz Afonso, pelo que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, já felicitou a reposnável pelo Instituto, realçando «a extrema importância de um prémio que distinguiu o esforço e o trabalho que o Instituto Camões tem vindo a desenvolver, ao longo deste 13 anos, para a promoção da língua e cultura portuguesa em todo o Mundo».
Saiba mais sobre o Prémio Príncipe das Astúrias.

A luz da manhã escorrendo pelas
arestas dos prédios,
embebendo-se nas
texturas das
paredes, explodindo na
superfície instável das
copas das
árvores.
As árvores
sorvendo no duche
o leite morno do sol.
Os arcos invertidos
que suspendem a ponte
fendendo com gozo o fluído amarelo,
propagando reflexos matálicos ao
oxigénio relavado pela madrugada.
Cada avenida, um
aeroporto. Cada
omnibus, um
transatlântico. Cada
chegada, uma
partida. Cada
partida, uma
chegada.
(«Se pensas realmente que chegas e que partes,
Ninacava, essa é a tua ilusão»).
A algazarra histérica das gotas
sobre-regando a relva já fecundada
pelo orvalho polidimensional. O verde
mais verde. O brilho
contra o brilho. O relevo
sobre o relevo. O real
três vezes real.
A água de colónia na fronte de todas as coisas
Por 227
Na imagem: Ovos da Lua, Paula Rego
Com a 75ª edição da Feira do Livro do Porto a decorrer, há quem considere que o modelo segundo o qual o certame se organiza está «esgotado». Em conversa no Pavilhão Rosa Mota, no âmbito da Feira, Francisco Madruga, da APE, o escritor Germano Silva, o cronista e historiador Hélder Pacheco, e o livreiro Nuno Canavez criticaram o «afastamento entre as empresas e a Feira do Livro» e a ausência de alfarrabistas no evento.

Germano Silva: «gostava de ver a Feira ao ar livre»
Imagem: JN
O actual modelo da Feira não é do agrado de Germano Silva, que afirmou gostar «de a ver [a Feira do Livro] ao ar livre, no Jardim de Arca d'Água ou no Jardim das Virtudes». Por seu lado, Hélder Pacheco prefere o Clérigos Shopping, que «serviria como estrutura de apoio. A feira teria de ser em moldes completamente diferentes». O historiador alerta também para a necessidade de se «pensar como promover o livro português, defender a língua portuguesa».
Para Fernando Madruga, é preocupante o «afastamento entre as empresas e a Feira do Livro», enquanto que Nuno Canavez considera «inconcebível» a ausência de alfarrabistas no certame.
Apesar das críticas, a Feira do Livro prossegue até dia 13 de Junho. O programa do evento pode ser consultado aqui.
«Eu bem queria poupar-me ao suicídio; mas desde os 18 anos que pressenti a necessidade dessa evasiva, sem me lembrar que a cegueira seria o impulsor justificadíssimo da catástrofe.» Camilo Castelo Branco, em carta a Francisco Martins Sarmento.

Camilo visto por Rafael Bordalo Pinheiro
Foi a 1 de Junho de 1890 que o nome maior do Romantismo português pôs termo à vida com um tiro de revólver. Uma vivência angustiada pela orfandade, a precaridade financeira, a prisão, a cegueira que o impedia de escrever e ler fez com que Camilo andasse, como ele próprio assume, desde os 18 anos com o pressentimento de que o suicídio seria inevitável. Camilo matou-se aos 65 anos.
Amor de Perdição
O escritor de novelas atribuladas e embuídas de romantismo tinha, ele mesmo, uma vida idêntica à das páginas que escrevia e que faziam as delícias do público da época (Camilo foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente do que escrevia); leva uma vida de boémia, está permanentemente apaixonado. Passeia-se pelos cafés e pelas casas burguesas do Porto. Mas o episódio mais tipicamente romântico - e com pesadas consequências - da sua vida foi o seu amor com Ana Plácido.

Camilo e Ana Plácido
Ana era casada com um "brasileiro" (emigrante português no Brasil regressado a Portugal). Ela e Camilo apaixonam-se e ele rapta-a, fugindo com ela durante algum tempo, até serem encontrados pelas autoridades. O casal é julgado e detido na Cadeia da Relação, onde Camilo escreve em apenas 15 dias a mais famosa das suas obras, Amor de Perdição.
Quando o marido de Ana Plácido morre, já ela tem dois filhos de Camilo. Vão viver para São Miguel de Seide, em Vila Nova de Famalicão. Apesar de finalmente poder viver em paz com a mulher que ama e de ser agraciado com o título de Visconde, a relação com os filhos, Nuno e Jorge, não deixa Camilo ser feliz: Nuno sai ao pai, leva uma vida despreocupada e boémia; Jorge é deficiente mental. A estes desgostos, junta-se o avanço da cegueira que o afasta das letras e o leva ao desespero. Camilo acaba por suicidar-se em 1890, deixando Ana sozinha na casa de São Miguel de Seide.
Um escritor controverso
Os 118 volumes publicados em vida por Camilo e a "profissionalização" nas letras dão-nos a dimensão da sua popularidade. Ele escrevia segundo os preceitos do Ultra-romantismo, os seus livros falavam de amores que iam contra a convenção social, sobre a pureza da gente do povo, sobre a sociedade portuguesa de então. Mas, embora os enredos intricados dos seus livros sejam claramente românticos, há quem considere, como Eduardo Prado Coelho, que a análise psicológica que Castelo Branco faz das personagens e dos seus sentimentos é «ideologicamente flutuante», algures entre o Romantismo e o Realismo. Do sentimentalismo das suas obras não estavam descartados o sarcasmo, o cinismo, a crueldade de um bom observador com um aguçado sentido de humor.
Apesar do sucesso que granjeava, Camilo era considerado por muitos um escritor menor, que escrevia à medida do gosto do público por episódios rocambolescos. A verdade é que hoje continua a ser lido e estudado no ensino secundário. A inauguração, no dia em que se assinalam os 115 anos da morte do autor de Eusébio Macário, do Centro de Estudos Camilianos, espaço destinado à investigação da sua obra, é mais uma prova do importante papel desempenhado por Camilo Castelo Branco nas letras portuguesas.
O Estado dos Campos valeu a Nuno Júdice a unanimidade do júri do Prémio Consagração do VIII Concurso Nacional de Poesia/Prémio Cesário Verde, promovido pela Câmara Municipal de Oeiras. Filipe Borges Tereno, nascido em 1974, venceu o galardão na categoria Revelação pela obra A Perfeita Ocupação do Espaço.

Do júri do prémio fizeram parte Vasco Graça Moura, Mafalda Lopes da Costa, Filipe Leal, Fernando Pinto do Amaral e Jorge Barreto Xavier.
Com O Estado dos Campos, Nuno Júdice já havia ganho, em 2004, como o MUITA LETRA noticiou, o Prémio Ana Hatherly.
Nuno Júdice: a obra por conhecer