setembro 27, 2006

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Em criança sabia tudo sobre sementeiras
Pela manhã o avô lambia nos beiços as frieiras do leite e pedia-lhe -
a oração das sementeiras

Em criança o silêncio do poço revestia-lhe a noite
de enigmas o clarão da lua revelava
o que ela mais tarde procurou na escarpa das letras

A manteiga era o ouro fresco do sol no orvalho e o seu perfume
permanecia debaixo da língua uma manhã inteira
Agora sabe ao mesmo que a lavagem dos hábitos

Em criança ensimesmada precedia a levitação das chuvas
e em voz alta as palavras eram pedradas na nuca
Agora são a métrica sonâmbula do adiamento

Imagem: The Open Door, William Henry Fox Talbot

Posted by Andreia C. Faria at 05:08 PM | Comments (1)

setembro 24, 2006

O lógico e a poetisa

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- Porque ela é assim uma mulher... uma mulher com uma sensibilidade estraordinária! - dizia ele, o lógico, o matemático. Que outra forma para desdizer que a amava?
- Mas X. é melhor do que ela. Ela é barroca. - atacou o professor de geografia.
- Qual X, qual quê! Ela sim... ela. - e abria os braços, no êxtase terminado do pronome. Ela. Como se não houvesse outra.
A mulher batia-lhe com a ponta do dedo no cocuruto, o ponto mais alto da montanha que era ele quando falava dela.
- Estás doido. Desde quando percebes de poesia?
E o lógico deixava a sala de jantar para se refugiar na varanda. O fragor das estrelas, sim, eram como as estrelas os poemas dela - era preciso unir-lhes as pontas, com amor e paciência, e beijá-los em adeus perto do infinito quando se afogam.

Imagem: Crow-lit stars, William Hollingsworth

Posted by Andreia C. Faria at 01:12 AM | Comments (3)