outubro 22, 2006

Marítimo

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O mar é um imenso Domingo. Um passeio pelas margens tardias pode inflamar o mais empedernido pai de família. Ao acordarmos ao Domingo de manhã o rumor do mundo - surpresa! - pára. Pára porque é Domingo de manhã e não devemos sentir-lhe a falta. E nós vamos até ao mar. O rumor do mar agitando os átomos silenciados do ar de Domingo. O mar é do solene verde-garrafa da carapaça do carro de família. O carro de família, quando a família o comprou, era a brilhante promessa de aventura ao sol nu da estrada. Agora é a mansa redoma que avança ronronado pela neblina marítima. Não é uma fera, domou a família, ludibriando-a com a preguiça onírica de descer a avenida de casa à praia pelo vidro da janela.
O mar tem o fragor do trovão, a voz irada do padre na missa. Por isso, ao Domingo a família não vai à missa. Quando o céu está de chuva, o mar é do cinzento roxo das madrugadas de infância ou dos frios olhos de uma improvável primeira paixão. O pai de família suspira. O sol põe-se sem fogo. A sombra dos filhos na areia corre até ao mar e tropeça na amarela resignação da espuma.

Posted by Andreia C. Faria at 04:42 PM | Comments (2)

outubro 13, 2006

O primeiro turco

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Orhan Pamuk nasceu em Istambul em 1952. A cidade natal é cenário e personagem dos seus romances e Pamuk, primeiro autor turco a ser agraciado com o galardão maior das letras, diz que o Nobel é uma forma de o mundo se expressar contra aqueles que defendem a "teoria do choque de culturas".

"The Snow" (ainda não disponível em português) já desde há algum tempo vem causando burburinho um pouco por todo o mundo. Em Portugal, tem publicados "A Cidadela Branca" e "Os Jardins da Memória", ambos pela Presença.

Posted by Andreia C. Faria at 03:57 PM | Comments (0)

outubro 10, 2006

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« [...] Devia pois dormir e dormir nu, e estar morto naquele aparato sem solução de continuidade, tal era o meu raciocínio. Mano regressou pálido como osso. "Está todo branco", disse ele. Branco, fiz eu, que queres tu dizer? Branco como? Branco como neve? Porque de paizinho tudo era de esperar. Mano reflectiu. "Sabes, a tapada do outro lado da horta, não o nicho da direita, mas por trás da cabana de madeira. Estás a ver o que eu quero dizer?" Sim, disse eu, do outro lado da capela, onde queres chegar? "Se se desce a ladeira suave que está por trás, chega-se ao riacho seco." Tudo aquilo era exacto. "E lembras-te das pedras que estão lá amontoadas?" Lembrava-me. "Pois bem, pai está assim branco. Exactamente desse branco." Então é porque está mais para o azul, fiz eu, branco-azulado. "Sim aí tens, branco-azulado."
Informei-me acerca do seu bigode, como estava o bigode. Meu mano fixou em mim uns olhos de besta que não percebe porque lhe desferem golpes. "Paizinho usava bigode?" O bigode, digo eu, aquele que nos pedia que escovássemos uma vez por semana. "Pai nunca pediu que lhe escovasse um bigode." Ai ai ai. Meu mano é duma má fé crassa, não sei se me lembrei de o escrever. Foi-se sentar à mesa, lívido e de joelhos trementes, como se fosse revirar o olho para uma visita ao paraíso. [...] » "A rapariguinha que gostava demasiado de fósforos", Gaétan Soucy

Posted by Andreia C. Faria at 12:36 PM | Comments (0)