abril 29, 2004

Muito Verdes

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Portugal voltou a deixar maus indicadores em vésperas do Europeu de 2004. Erros crassos, instabilidade emocional, falhas na concretização e outras tantas lacunas que atingem contornos cada vez mais preocupantes, sobretudo se tivermos em conta que este foi o último grande teste antes dos jogos a doer. Foi também o último teste contra uma selecção apurada para a competição, pelo que o saldo dos seis jogos realizados não é nada positivo: nenhuma vitória, sendo que cinco dessas partidas até foram disputadas no nosso país. O frango de Ricardo, a grande penalidade que Figo falhou e o auto-golo de Rui Jorge podem redundar numa expressão: muito verdes!

Sem jogadores do FC Porto (ainda estou para ver se a mão que deu não vai tirar com a outra), o dia da selecção voltou a começar com polémica. Contudo, os factos que rodearam o encontro não pareceram incomodar a nossa selecção, que voltou a entrar bem no jogo. Portugal fez 15 minutos de alguma qualidade, correspondendo esse período às boas actuações de Figo e Rui Costa (com este último a cair de rendimento com o avançar da hora), sempre acompanhados pelo irrequieto Pauleta. Tiago era uma unidade a menos no meio-campo (tem sido poupado no Benfica mas serve para jogar de início na selecção), sendo que Miguel voltou a evidenciar as qualidades e os defeitos do costume sempre que actua por Portugal. Todos elogiamos as caracteríticas ofensivas do 23 encarnado e é importante a disponibilidade que possui para a criação de desequilíbrios. Contudo, é inadmissível que tal facto comprometa a prestação defensiva do conjunto, cuja vulnerabilidade pelo flanco direito foi por demais evidente. Wilhelmsson aproveitou-se desse facto amiudadas vezes para o lançamento de rápidos contra-ataques que passavam, invariavelmente, por Zlatan Ibrahimovic.
Ainda assim, era Portugal quem dominava as operações, criando algumas boas ocasiões, sobretudo pelo centro do terreno. Ora, esta opção centrípeta também contribuía para o atabalhoamento do jogo nacional, embora a fluidez no passe tenha escondido algumas lacunas durante o primeiro quarto-de-hora. De facto, a centralização do nosso jogo tem muito que ver com as posições que Figo ocupa no campo. Ao querer ter uma função omnipresente, o 10 madrileno mistura-se ora com Rui Costa, ora com Simão, o que abre outras linhas de passe à esquerda e ao centro mas fecha as opções na ala direita. Estou em crer que Portugal beneficiaria de um Figo mais rigoroso tacticamente, em detrimento do Figo que faz o que lhe apetece. Até porque Rui Costa é, quando está bem, uma opção mais do que válida para a condução do jogo nacional, sendo que também é conveniente que seja auxiliado por um dos médios mais recuados. Tiago não conseguiu, ontem, ser essa ajuda.
De qualquer modo, a verdade é que o golo de Kallstrom veio contra a corrente do jogo. Ninguém esperava um golo sueco naquela altura, muito menos na sequência de um livre inofensivo que Ricardo não soube defender com as mãos nem com a cabeça. Não pondo em causa as qualidades do guarda-redes, há aqui qualquer coisa que não está a bater certo. O golo abalou Portugal por alguns minutos, temendo-se que a equipa não mais voltasse a assentar o seu jogo. Tal não aconteceu porque apareceu uma grande penalidade, que não sendo concretizada conduziu a equipa a uma movimentação bem mais alegre, que terminou com o golo de Pauleta, após mais um lance de futebol aguerrido mas atabalhoado.
Tudo parecia encaminhar-se para novo ascendente português, que poderia resultar em novo golo. Contudo, o nível voltou a decair e até final do encontro, só a espaços Portugal conseguiu exibir o futebol que se lhe exige. É certo que aa alterações foram quebrando o ritmo de jogo que Portugal quase nunca teve na segunda parte, mas também não é menos certo que o relaxamento defensivo nacional podia ter causado vários dissabores a Quim (que evitou um bom par de golos). Portugal nunca conseguiu sair ileso dos confrontos com as equipas apuradas para o Euro. Dá que pensar!
Enquanto os menos utilizados tentavam, em vão, mostrar serviço, a Suécia foi criando lances de perigo, acabandopor surgir o golo na aparentemente menos perigosa ocasião dos nórdicos. Wilhelmsson voltou a furar pela esquerda, solicitando uma zona onde só Rui Jorge poderia fazer o golo. Assim aconteceu, para o coro de assobios muito criticado pela comitiva mas que tem de ser aceite em função da relação qualidade-preço do espectáculo em que os 15 mil espectadores investiram. Em época de futebol economia, os intervenientes têm de saber aceitar as reclamações dos clientes, sobretudo em função dos preços praticados.
Nuno Gomes acabou por amenizar a contestação mas não disfarçou as fragilidades que a selecção vem exibindo. E o Euro aqui tão perto! Apesar de todos defenderem o palmarés de Scolari (como ainda ontem vincou Queiroz), a verdade é que o passado nada tem a ver com o presente. Nada se ganha sem trabalho, sendo que é difícil surgirem resultados quando as pessoas só aparecem em workshops, em spots publicitários e em eventos que nada têm a ver com a ligação contratual que mantêm com entidades como a Federação Portuguesa de Futebol. Espero estar enganado, mas acho mesmo que Scolari desconhece as qualidades e defeitos dos seus jogadores, assim como não domina as características dos seus adversários. O técnico quase sempre se deu bem nas suas missões mas nenhuma teve os contornos da actual. Treinar equipas implica um contacto diário com os jogadores, treinar a selecção brasileira é gerir compatriotas seus, que tão bem conhece e onde se tem de espevitar o sentimento ganhador. Quanto a Portugal, falta ainda muito trabalho por fazer. A ver vamos se há tempo...

Escrito por André Viana às abril 29, 2004 10:44 AM
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