maio 06, 2004

Oportunidade(s)

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José Mourinho tem propostas irrecusáveis e quer aceitá-las. Volta a dizê-lo, ainda que não usando estas palavras, na edição de hoje do jornal O Jogo. Todos sabemos que Mourinho é um técnico ambicioso, sendo que toda a sua ambição é justificada, ou não fosse ele o melhor treinador da Europa (diz a votação da UEFA, dizem os resultados).
Ainda não falou com Pinto da Costa mas as propostas já foram entregues à SAD por Jorge Mendes. Com o presidente falará mais tarde, “porque não é o momento”. Contudo, estou em crer que todo este discurso tem um destinatário, que é precisamente Pinto da Costa. Um discurso que vem na altura errada (veja-se o exemplo de Ranieri), que até pode influenciar o grupo de trabalho, mas que já vem com intenções de domar os apelos que vão surgir por parte da direcção portista.
José Mourinho tem óptimas oportunidades para sair mas tem perdido óptimas oportunidades para estar calado. Num clube protegido e comandado a partir de quatro paredes, seria aconselhável que também este episódio se resolvesse longe da opinião pública. É assim que as coisas têm funcionado e Mourinho não tem motivos para mandar recados pela comunicação social.

Face a esta situação, Pinto da Costa continua a ter a faca e o queijo na mão. Tem dito, nas poucas vezes que toca no assunto, que Mourinho continua e com Abramovich diz não se preocupar. “O dinheiro é importante para comprar o que está à venda”. O presidente quererá manter o treinador mas não sei até que ponto se pode opor à determinação do “mister”. “Mister” que sempre disse não sair do clube em litígio. Ou seja, alguém tem que ceder.
Ou Pinto da Costa cede às pretensões de Mourinho ou Mourinho cede à vontade da SAD e dos portistas e cumpre o contrato que assinou e as promessas que proferiu. Parece simples de resolver, sobretudo se falarmos de pessoas amigas e civilizadas. Como tal, não se percebe os recados “by media” atirados pelo técnico, que ora diz mais do que o que deve, ora se escusa a comentar com um “estou farto dessas histórias”. Numa altura em que há dois troféus em jogo, este tipo de discussões não vêm nada a calhar. Não ponho em causa o profissionalismo de José Mourinho mas estamos a considerar aspectos que mexem com as pessoas, isso é indiscutível.
Pelo que posso depreender, igualmente, do discurso do treinador portista, há imensa vontade em que alguns jogadores partam consigo rumo à aventura inglesa ou italiana, com preferência para a primeira (e talvez haja aqui mais de Liverpool do que de Chelsea). Diz Mourinho que “no futebol actual há um preço para tudo” e que “não se deve dizer este jogador eu não venderei nunca”, como que respondendo aos insistentes comentários que Pinto da Costa tem feito ao alegado assédio a jogadores portistas.
Ora, isto é que o presidente não pode permitir. As responsabilidades dos dragões não são consonantes com um começar de novo, inerente à partida de elementos fulcrais como o treinador e os jogadores. Para mais, estou certo de que Mourinho quererá levar Paulo Ferreira, Maniche, Derlei, Ricardo Carvalho, para não falar noutros nomes. A lógica do “dinheiro em caixa” não tem ditado a actuação da SAD e não pode imperar a partir de agora, sob pena de se comprometer um longo período competitivo.
O jogo de pressão que o treinador tem feito não pode ser muito facilmente compreendido e é pouco profissional da sua parte. Pinto da Costa sempre deixou a sua porta aberta para Mourinho, pelo que a discussão só devia ser feita entre ambos. Acontece que o “mister” sabe que o presidente lhe diria que conta com ele. Como tal, faz o papel do miúdo que se vai queixar ao padrinho: “Eu queria ir, mas não sei se o meu pai me deixa”.

Escrito por André Viana às maio 6, 2004 10:28 PM
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