
Carlos Resende está desiludido com o andebol nacional. O FC Porto é tricampeão mas está na iminência de perder atletas, desconhecendo-se ainda se vai representar Portugal na Liga dos Campeões da EHF (Federação Europeia de Andebol). O futuro não é risonho e os índices de motivação já conheceram melhores dias.
Sem papas na língua, Carlos Resende falou ao Quarto Árbitro e pôs os dedos nas várias feridas que ameaçam a sobrevivência do andebol português. O resultado é a radiografia de uma modalidade que cresceu imenso na década de 90 mas que tem sido abalada pela conjuntura económica internacional e por um diferendo entre Federação e Liga, que se prolonga há quase três anos.
O andebol nacional está na Unidade de Cuidados Intensivos e só uma transfusão de sangue o pode salvar! Onde está o doador?
NDR - Dada a extensão da entrevista e a monotonia resultante da sua concentração num único post, optei por dividi-la em temas. Pode consultar toda a entrevista neste post ou ler apenas ou temas que mais lhe interessam nos textos abaixo.
Quarto Árbitro (QA) – O FC Porto sagrou-se tricampeão nacional de andebol na passada semana. Foi mais uma resposta a algumas críticas que foram surgindo e a uma certa imagem de debilidade que se construiu em torno da vossa equipa?
Carlos Resende (CR) – Uma coisa não implica a outra. Eu não diria fraco mas a verdade é que o FC Porto está mais frágil esta época do que estava nas épocas anteriores. Não podemos esquecer que perdemos dois atletas internacionais A, o que nos retirou alguma versatilidade. Agora, mesmo considerando essas perdas, tivemos um plantel suficientemente capaz para chegar ao título e a uma distância considerável dos nossos adversários.
QA – Olhando para os resultados deste ano e de temporadas anteriores até dá a ideia de que tudo foi mais fácil. Foi mesmo?
CR – Quando há uma diferença pontual tão grande comete-se o erro de dizer que foi fácil. Mas a verdade é que nós tivemos imensas dificuldades e sentimo-las no dia-a-dia. Desde o facto de termos de trabalhar ainda mais para sermos uma equipa competitiva, e conseguimo-lo ser, passando pela ausência de uma infra-estrutura própria e capaz de nos receber condignamente.
QA – Reconhece que o FC Porto deste ano é mais fraco. Se a diferença para os outros competidores se acentuou o que é que sucedeu? Os adversários também estão mais débeis?
CR – É sempre difícil falar dos outros. No caso do ABC penso que é notória essa fragilidade, também pela perda de alguns atletas, embora essas saídas se tenham concretizado com o decorrer da época. No entanto, nós perdemos dois titulares e eles apenas perderam um, se é que podemos ver as coisas dessa perspectiva. O ABC terá sido a formação que mais caiu esta temporada. Já o Sporting, que até foi o nosso principal adversário, não denotou tanto essa queda qualitativa. Se formos a olhar para os jogadores que lá estão penso que não podemos tirar essa conclusão. Contudo, nós conseguimos estar sempre num plano muito superior quando encontramos o Sporting…
QA – Conseguiram até vencer pelo dobro dos golos…
CR – Sim, mas muitas vezes isso depende de se estar num bom ou num mau dia.
QA – Curiosamente, o FC Porto só perdeu com o ABC.
CR – E com o Fafe, na fase regular. Perdemos dois jogos com o ABC, sendo que num deles tínhamos imensos jogadores lesionados. Não estou, com isto, a querer justificar resultados menos bons, até porque isso não é prática corrente no nosso clube. Mas a realidade é que essa semana nos trouxe imensas contrariedades. Perdemos outro jogo com eles num daqueles dias em que nada corre bem mas quando foi mesmo necessário ganhar ao ABC nós conseguimo-lo. Isso aconteceu na meia-final da Taça da Liga, por exemplo. No confronto directo com aqueles que eram, pelo menos no campo teórico, os nossos principais adversários, nós ganhamos todos os jogos em que era mesmo necessário vencer.
QA – O formato da competição mudou este ano. Deixamos de ter play-off e temos uma segunda fase em que todos jogam contra todos. Agrada-lhe mais este formato?
CR – Este formato é o que sempre existiu no andebol. O play-off é um fenómeno recente mas o regresso à forma anterior premeia um pouco mais a regularidade, enquanto o play-off dispensa esse factor para privilegiar a espectacularidade. Proporciona meias-finais e finais extremamente interessantes mas também pode afastar equipas da competição desde muito cedo. Portanto, ambos os formatos têm aspectos positivos e negativos.
QA – Falávamos do Sporting há pouco e dissemos que o FC Porto foi mais forte em todos os jogos efectuados contra os leões. Contudo, o Sporting fez uma óptima Taça das Taças. Podemos extrapolar e considerar que o FC Porto também teria feita uma boa prova na Europa, mesmo tendo perdido as peças que perdeu?
CR – É uma incógnita. Nunca saberíamos se o FC Porto conseguiria chegar à final da Liga dos Campeões. Do ponto de vista teórico em diria que não, mas…
QA – Para o ano estarão, tudo indica, na Liga dos Campeões. Este plantel é suficiente ou terão de haver reforços?
CR – É evidente que este plantel é reduzido para uma Liga dos Campeões. Qualquer equipa espanhola ou alemã possui praticamente duas equipas e nós temos sempre alternado sete ou oito jogadores.
QA – Para se conseguir alguma coisa de positivo terão de haver reforços portanto. É essa a vontade dos dirigentes?
CR – Pois, uma coisa é a vontade, outra é aquilo que se consegue. O que é certo é que o FC Porto ainda não tem definido, neste momento, o orçamento para a próxima época. Para já, sabemos que vai ser praticamente impossível manter a equipa. Vamos ficar fragilizados com a saída do Dedu, que já é do domínio público, e parece-me, por aquilo que conheço, que há outros atletas na iminência de sair.
QA – Pode referir nomes?
CR – Ainda não, até porque ainda não há nada de concreto.
QA – Estamos a falar de atletas que actuam no sete inicial?
CR – Sim. São os mais visíveis. Neste momento, se não for feito nada num espaço de tempo curto nós vamos ficar ainda mais frágeis.
QA – Vladimir Petric está nesse lote?
CR – Não, é dos poucos que tem contrato portanto não me parece que possa sair.
QA – Entretanto, tem-se também falado em possíveis entradas. Álvaro Rodrigues foi um dos nomes mencionados mas ainda não há definido em relação ao plantel da próxima temporada.
CR – Que eu saiba nada. Eu sou um mero atleta e isso são assuntos para directores. Não lhe consigo responder a essa pergunta.
QA – De qualquer modo, a sua convicção é de que o FC Porto precisa de se reforçar para a próxima época. Até porque, como me está a dizer, há atletas importantes na iminência de deixar o clube.
CR – É, por todos os motivos. O FC Porto conseguiu estes resultados porque teve um grupo que, face às contrariedades, se uniu ainda mais. As dificuldades formam imensas e se calhar não teríamos os resultados que tivemos sem uma união tão exacerbada como aquela que vivemos. Por outro lado, também somos uma equipa que está junta há quatro anos e o factor tempo é importante. A nossa forma de trabalhar e de actuar tem-se desenvolvido mas estes processos são contínuos, pelo que não nos podemos dar ao luxo de começar tudo de novo. Teríamos de percorrer muito até voltar a este patamar actual.
QA – Já falamos do FC Porto mas ainda não falamos do treinador. A equipa perdeu um técnico altamente conceituado no andebol mundial, medalhado em Sydney inclusive. Paulo Jorge Pereira tem, contudo, feito um trabalho excelente. Concorda?
CR – Todos os adjectivos que possamos utilizar para classificar uma pessoa como o Bojislav Prokajac são pequenos. De qualquer forma, e tentando separar a amizade que me une ao Paulo Jorge, o FC Porto ganhou um treinador. Dizer isto é, se calhar, a melhor forma de o elogiar.
QA – Tem sido importante o seu trabalho a nível motivacional?
CR – Claro! Nós, jogadores, somos apenas os peões. Os resultados estão à vista e num ano de dificuldades, e muitas dificuldades, ele soube dar a volta. Passamos por algumas coisas que não são públicas mas hoje só se fala no mais importante, que é a componente desportiva. E aí o trabalho dele é bem visível.
QA – Preocupam-no certamente, como adepto da competitividade, as notícias que vêm de Braga. O ABC vai perder o treinador e o Kostetsky…CR – Muito. Tenho uma grande ligação afectiva ao clube e um óptimo relacionamento com os jogadores, treinadores e dirigentes. Chocam-me imenso essas notícias.
QA – E no Sporting, como estão as coisas?
CR – Existe um relacionamento afectivo com as pessoas de Braga mas no que toca ao Sporting o meu conhecimento é diminuto…
QA – Fazia-lhe esta pergunta porque o Sporting tem sido o principal adversário do FC Porto e porque tudo indica que estes problemas no ABC o afastem do patamar superior a que pertence historicamente. Preocupa-o o facto de a Liga portuguesa vir a perder qualidade?
CR – A única hipótese de não perder qualidade é se as equipas mais fortes se mantiverem e se a elas se juntarem outras. O Alto do Moinho era uma formação completamente deslocada mas o campeonato da Federação tem equipas com capacidade para estar no campeonato da Liga, que é onde estão os melhores conjuntos portugueses. Falo de equipas como o São Bernardo, o Benfica e até o Boavista, que têm qualidade para estar no melhor campeonato e que só viriam trazer qualidade. Por outro lado, também é importante conseguir apoios publicitários, de forma a suportar o investimento. Se isso não acontecer ficamos privados de complementar o valor dos atletas portugueses com mais-valias internacionais. E isso hoje já acontece porque, como lhe disse, não conseguiríamos, nos dias que correm, contratar jogadores como o Dedu ou o Petric.
QA – Estamos numa situação que começa a ser desesperante. O FC Porto admite, como foi proposto em anos anteriores, fazer uma eliminatória contra o vencedor do campeonato da Federação para decidir quem joga na Liga dos Campeões?
CR – Eu tinha a minha opinião mas na altura nem fui consultado. Essa situação não está prevista no protocolo para esta temporada mas também é certo que há algumas coisas incluídas no protocolo que não estão a ser cumpridas. Não me parece que o FC Porto se depare com tal situação mas se isso acontecer não me compete a mim decidir.
QA – Mas a sua opinião seria desfavorável?
CR – Se eu tivesse voz na matéria teria jogado sob protesto.
QA – Os elementos do restante plantel pensavam da mesma forma?
CR – Nem todos. Quando existe um problema todos nós temos formas diferentes de o atacar.
QA – No que diz respeito à selecção nacional, está marcada uma eliminatória importantíssima e que dá a qualificação para o Mundial. Qual é o estado de espírito?
CR – Eu penso que é bom. De qualquer forma, nós estamos muito condicionados à forma como as pessoas têm trabalhado e se têm auto-motivado para trabalhar. Mas penso que é bom, apesar de noutras alturas lhe ser capaz de dizer que era bom de certeza.
QA – Deixou a fase da certeza e chegou a uma altura em que lhe resta acreditar?
CR – Quando estamos a jogar costumamos esquecer tudo, sobretudo quando as coisas nos correm bem. Mas quando não correm bem, mesmo que nós não queiramos, é natural que haja influência dos problemas que temos na vida. Neste momento, há muitos jogadores de andebol a sentir esses problemas.
QA – Tem notado algum mal-estar na selecção?
CR – Da parte dos jogadores nunca houve mal-estar, naquilo que é a minha visão. Se calhar outros terão uma perspectiva diferente mas não creio que haja mal-estar. Certo é que há a ausência de uma visão optimista no que diz respeito ao futuro dos jogadores de andebol.
QA – Que resumo faz do Campeonato da Europa, que decorreu na Eslovénia no início deste ano?
CR – Correu de uma forma regular. O que não correu bem resultou das expectativas que algumas pessoas tinham. Jogamos contra equipas que, no campo teórico, são mais fortes do que nós e contra as quais pouco poderíamos fazer. As outras equipas é que tinham a obrigação de ganhar e foi isso que aconteceu. A única coisa que correu mal foi o sorteio, que não nos deu um grupo mais acessível. Nós somos tão pequenos e estes problemas ainda nos diminuem mais, pelo que ninguém se lembra de nós, aqui neste pedaço da Península Ibérica.
QA – Entretanto o andebol também tem estado na agenda devido aos alegados exagerados cometidos numa praxe da selecção de esperanças. Como é que comenta essa situação?
CR – É difícil falar porque, quer queira quer não, há três miúdos da minha equipa envolvidos. Por isso, a minha visão do caso é parcial, até porque não conheço a outra parte. Mas se me é permitido, e só tenha pena desta entrevista não ser o mais pública possível, queria observar que eu, enquanto pai, nunca teria feito aquilo que aquele pai fez, expondo o filho a toda esta situação, que se tem desenrolado em plena praça pública.
QA – Alguma vez lhe aconteceram situações idênticas?
CR – Não, eu até tive praxes engraçadas. Agora, o que acontece é que, por aquilo que eu sei, se falaram em coisas que não aconteceram. E coisas graves, como referência a ácidos, que não existiram.
QA – Entretanto, continuam a haver sanções para alguns jogadores.
CR – Há muito tempo. Eu até achei os castigos mais penalizadores para as próprias equipas do que para os atletas. Vejamos: os jogadores punidos podem jogar pelas suas selecções se cumprirem serviços cívicos mas permanecem impedidos de exercer a sua actividade para os clubes que representam e que são, ao fim ao cabo, as entidades que lhes pagam. No meio disto tudo, os clubes foram os verdadeiros castigados, porque se vêm privados dos seus atletas.
QA – Fugindo ao negativismo, as selecções jovens de Portugal têm conseguido resultados importantes, com qualificações para provas do calendário internacional. Os escalões de formação inspiram-lhe confiança para o futuro?
CR – A manter-se este problema não. Nós somos um povo pequeno mas que cresce com alguma rapidez. Temos jovens que ganham uma maturação motora mais rapidamente do que jovens de outros países e os bons resultados que temos nessas idades não têm continuidade porque não há trabalho a esse nível nem há campeonatos suficientemente competitivos para prosseguir com o processo de crescimento. Continuaremos a ter bons resultados nesses escalões mas a maior parte desses atletas não chegará a evoluir no sentido de poder fazer a diferença.
Rui Rocha (capitão do FC Porto e ponta-esquerda da selecção nacional)
Falar dos meus amigos nunca é fácil. Quando temos alguém que consideramos amigo isso representa um sentimento muito forte e não conseguimos dizer nada de mal. O Rui é um exemplo de integridade e de aplicação, para além de ser o melhor atleta na sua posição específica. Como homem é aquilo que se pode esperar.
Paulo Jorge Pereira (treinador do FC Porto)
Só posso dizer bem. Um bom amigo, muito capaz na sua profissão. Não há nada que lhe possa apontar. Estamos a falar de pessoas que se unem perante as dificuldades e não desistem, olham-nas de frente e superam-nas.
Javier Garcia Cuesta (seleccionador nacional de andebol)
Não tenho um conhecimento tão profundo. O relacionamento que existe numa Federação é muito menor do que aquele que existe num clube mas creio que o seu trabalho tem sido regular. Também tem tido imensos problemas mas tem feito um trabalho regular. Há objectivos que tem cumprido e outros que não. Um dos exemplos é a criação da selecção B, que não conseguiu cumprir a sua função de alargar o grupo de atletas seleccionáveis. Isso mesmo foi reconhecido na última convocatória, que teve de recorrer a jogadores mais velhos para dar qualidade ao plantel.
Luís Santos (presidente da Federação Portuguesa de Andebol)
Um homem obstinado. Quando se é obstinado pode-se sê-lo no bom e no mau sentido. É um homem que é capaz de lutar contra a tarefa mais difícil do Mundo e encará-la como perfeitamente atingível. Nesse caso é extremamente positivo.
Aleksander Donner (treinador do ABC e ex-seleccionador nacional de andebol)
Foi o responsável pelo andebol de qualidade que tivemos até há bem pouco tempo.
Bojislav Prokajac (ex-treinador do FC Porto)
Um senhor!
Pinto da Costa (presidente do FC Porto)
É uma pessoa que lidera o meu clube mas o que conheço dele é pela comunicação social, não tenho um relacionamento próximo com ele. Mas por tudo aquilo que conquistou para o clube e para a cidade, tem de ser forçosamente um homem ganhador. Todos os resultados que consegue e a forma carismática como as pessoas olham para ele dizem tudo. Em nenhum outro clube se fala do presidente de forma tão carinhosa, até porque os outros criam os problemas e fogem deles, enquanto Pinto da Costa raramente os cria e quando os cria resolve-os.
Scolari (seleccionador nacional de futebol)
Por aquilo que conheço não gosto. Parece-me um homem extremamente arrogante, uma pessoa que criou um diferendo perfeitamente escusado com o FC Porto. Mas ele está cá por uma tarefa que não passa por fazer jogos-treino. Se ele conseguir cumprir o objectivo a que se propôs é porque foi extremamente competente; se não o conseguir foi incompetente e não justificou as remunerações de que auferiu. O seu trabalho não posso avaliar ainda mas não tenho gostado das relações que mantém. Eu penso que um seleccionador deve manter uma equidistância relativamente a todos os clubes e isso não tem acontecido.