
O diferendo entre Liga e Federação, suas origens e consequências...
- Toda a entrevista
- FC Porto e seu treinador, crise no ABC e futuro do Sporting
- Selecções Nacionais
- Nomes
QA – Disse-me numa entrevista anterior que um dos seus sonhos era vencer uma prova europeia de clubes. Mantém esse sonho?
CR – Mantenho, embora reconheça que é praticamente impossível de cumprir, dada a fase que o nosso andebol atravessa actualmente. A esperança é a última a morrer mas nós estamos a passar por dificuldades extremas, mesmo extremas. As equipas estão a baixar cada vez mais os orçamentos e isto envolve um ciclo vicioso que implica que alguns atletas que se dedicam ao andebol de forma profissional deixem de o fazer. Há que complementar esta actividade com uma profissão ou com uma carreira académica porque o andebol já não garante a subsistência. Este facto coloca, como é óbvio, a qualidade em xeque.
QA – Essas dificuldades de que me fala provêm de quê?
CR – Provêm, na minha opinião, de dois factores. Um é a crise económica internacional que se vive e se conhece. Há receio em investir e essa realidade é por demais evidente em alguns sectores. Por outro lado temos o diferendo entre a Federação e a Liga, que teima em não se resolver. Quando disse há bocado que íamos à Liga dos Campeões, essa situação ainda não está completamente esclarecida. Existem alguns requisitos que a Federação diz que a Liga ainda não cumpriu, a Liga também se queixa de algumas situações e vivemos neste diz-que-disse intenso e que impede que, a determinada altura, se compreenda quem tem ou não razão.
QA – Ainda bem que toca na questão do diferendo. Esta é uma situação que pode ter contornos absolutamente trágicos para o FC Porto, que estaria, pelo 3º ano consecutivo, privado de disputar uma prova a que teria acesso por mérito desportivo. É preocupante?
CR – A nível económico se calhar não. Mas em termos desportivos o andebol sai a perder…
QA – Se as coisas não estão bem a nível económico, o afastamento de provas europeias pode afectar o aspecto competitivo, até porque não é fácil atrair bons jogadores se se estiver privado de actuar nos palcos europeus…CR – Existe, de facto, um défice de motivação no andebol português. Vejamos que, neste momento, seria completamente impossível contratar um jogador como o Vladimir Petric. Se o Petric não tivesse contrato é certo que ele não viria para o FC Porto. O mesmo acontece com o Dedu, que conseguimos assegurar por quatro épocas mas não temos, neste momento, hipótese de o manter connosco.
QA – Quando é que se poderá dissipar este diferendo entre Liga e Federação?
CR – É uma questão das pessoas se entenderem. Basta reconhecer que o importante é termos um andebol de qualidade e que é importante, como em tudo na vida, fazer concessões, independentemente de se gostar ou não desta ou daquela pessoa.
QA – Proferiu alguns comentários exaltados aquando do último Europeu. Não gostou de alguns comentários do presidente da Federação, Luís Santos, que tentou associar o aparecimento da Liga a uma quebra de qualidade e de resultados no nosso andebol…
CR – Não o escondi mas ele teve oportunidade de me explicar que as palavras não iam no sentido em que foram entendidas. Ficou completamente sanada essa situação. Ele tem o direito de pensar e de dizer o que lhe apetece mas na altura fiquei ofendido porque se punha em causa a aplicação que os atletas têm tido. Há entidades que nem merecem os atletas que têm mas ele explicou-me pessoal e publicamente que as afirmações dele não visavam os atletas mas antes alguns clubes, pelo que a situação ficou esclarecida e eu até lhe dei alguma razão.
QA – De qualquer forma, este diferendo vem comprometer uma evolução que se registava desde inícios da década de 90.
CR – E a continuar assim vem comprometer imenso.
QA – Está desiludido com o andebol português?
CR – Muito!
QA – Já tem muitos anos de competição e nunca passou por nada assim.
CR – É. E só espero que esta situação possa ser resolvida o mais rápido possível. Aquilo que eu pensava há um ano atrás era que isto não podia piorar e que, a partir de aí, ia ser sempre a subir. Fui optimista mas achava mesmo que isto não podia ficar pior.
QA – Parece-lhe que estamos a tratar de um diferendo meramente institucional ou há aqui um problema pessoal?
CR – É pessoal. Por aquilo que eu vejo tratam-se de diferendos pessoais. Não digo que envolvam só três ou quatro pessoas mas antes grupos restritos. O que é certo é que tudo isto extravasa o mero diferendo institucional.
QA – Já sabemos que a sua vontade o leva a acreditar mas apelemos à razão. Parece-lhe que o FC Porto vai jogar a Liga dos Campeões na próxima temporada?
CR – Resta-me acreditar que sim…
QA – Neste momento já só está na fase do acreditar ou as coisas estão mesmo a desenrolar-se nesse sentido?
CR – Esta é uma pergunta muito complicada. O ditado diz que “gato escaldado de água fria tem medo”. É assim que eu me sinto.
QA – Vivemos um diferendo que se prolonga há quase 3 anos. Isto poderá ter repercussões, mesmo que o conflito seja sanado, durante o dobro ou o triplo dos anos?
CR – Depende da forma como as coisas evoluir. Vamos supor que tudo isto termina e que as condições económicas melhoram, mesmo a nível internacional… Uma coisa que nós perdemos foi o espaço publicitário, mas os resultados desportivos a curto prazo podem modificar este cenário num espaço de tempo relativamente breve. Mas também é óbvio que não vamos ter uma selecção campeã do Mundo nem nada que se pareça, isso é demasiado utópico.