
Ninguém estava preparado! Portugal não venceu o Euro´2004, ficando um eterno sabor amargo a derrota. O percurso até aqui foi brilhante mas é impossível evitar a sensação de falhanço. Não o foi, é óbvio. A verdade dos factos é que esta é a melhor participação de sempre de uma equipa portuguesa numa grande prova internacional mas a desilusão inerente à derrota é inevitável. Contudo, a hora é de balanço e o evento que a nação abraçou foi um enorme sucesso. Relativamente a esta equipa, um muito obrigado e uma mensagem unânime de que estaremos sempre ao lado de um conjunto que revele a nobreza que este exibiu. Scolari pediu desculpas, não tem porquê…
Ninguém diria que a selecção de Scolari pré-Euro´2004 fosse capaz do feito que, no final, se alcançou. A unidade em torno de uma bandeira foi tal que a sensação é de que se perdeu a maior oportunidade de êxito numa grande prova internacional. Como dói morrer na praia! Como é difícil falhar no nosso próprio país, na nossa hora da verdade!
Não quero entrar no discurso de que se subestimou a Grécia e de que o encontro foi mal preparado, à imagem do que aconteceu na partida inaugural. O certo é que os helénicos venceram mais uma vez, recorrendo ao já célebre esquema de jogo que lhe permitiu superar sucessivos obstáculos até à vitória final.
Otto Rehhagel, típico treinador alemão, montou um modelo táctico perfeito, que encaixa que nem uma luva nas características dos jogadores gregos. De facto, este era o único meio que a Grécia podia utilizar para ser bem sucedida. Incapaz de assumir o jogo, a selecção do Rei Otto faz da força e unidade colectiva o seu grande trunfo, com todos os elementos a conhecerem ao pormenor as suas tarefas individuais e colectivas, as suas disposições tácticas com e sem bola, o posicionamento correcto no terreno em função das movimentações do adversário. É verdade que a Grécia tem um modelo próprio muito bem definido mas também é certo que baseia grande parte da sua actuação em função do adversário e das suas características, tanto colectivas quanto individuais. Tudo espremido resulta numa enorme dose de anti-futebol, um futebol que não cativa adeptos mas que é delicioso para quem entende alguma coisa do desporto-rei e das suas várias vertentes.
Rehhagel voltou a adequar a sua equipa ao adversário. Seitaridis fizera marcação ao homem nos últimos dois jogos mas adoptou nova atitude no desafio final. Em função da mobilidade de Figo e Ronaldo, o reforço portista executou na perfeição uma marcação à zona muito agressiva, com grande proximidade relativamente ao extremo que caía no seu raio de acção. Não era invulgar ver o lateral acompanhar o seu alvo até ao meio-campo, impedindo-o de receber jogo atrás, impedindo-o de embalar pela linha ou flectir para o centro. Consequência: Figo e Ronaldo pouco ou nada fizeram com o consentimento de Seitaridis, que ainda consegue auxiliar os eficientes centrais. Do lado contrário, Fyssas fazia algo semelhante, controlando muito bem as movimentações dos nossos alas, assumindo a mesma postura agressiva do colega do flanco direito. Quanto aos centrais, Kapsis assumia a marcação a Pauleta, enquanto Dellas actuava mais livre, ficando para as sobras e para a cobertura dos lances que ameaçassem chegar à baliza de Nikopolidis.
Deco era manietado com a marcação individual de Katsouranis e Maniche era impedido de subir e/ou rematar pelo capitão Zagorakis. Estes “casamentos” podiam ser momentaneamente invertidos mas contavam sempre com Basinas, um médio mais livre, que tanto fechava ao centro como à direita, onde o avançado Charisteas funcionava quase como segundo lateral! Sem o castigado Karagounis, Giannakopoulos recuperou o lugar no onze e posicionou-se na esquerda, embora nem sempre cuidasse convenientemente das subidas de Miguel. Na frente ficava Vryzas, pelo que o esquema defensivo grego andava próximo de um 4-5-1, sendo que as duas primeiras linhas actuavam com enorme proximidade e muito compactas.
Com a posse de bola, os helénicos procuravam fomentar o contra-ataque, num estilo directo que aproveitasse a velocidade e o bom entendimento dos homens da frente. O avançado do Werder Bremen tinha enorme facilidade em colar-se a Vryzas, criando um 4-4-2 momentâneo, que se desfazia logo após a perda de bola.
Portugal voltou a dar-se muito mal com esta disposição, sobretudo por ver as suas principais armas manietadas e por ser incapaz de ganhar os flancos ou criar situações de tiro nas proximidades da grande área. Assim sendo, a primeira parte foi feia, pouco emotiva, quase nunca bem jogada. Creio não andar longe da realidade se qualificar esta como a pior final da história dos campeonatos da Europa. Entretanto, Miguel teve de ser substituído por Paulo Ferreira, em virtude de uma lesão após lance disputado com Giannakopoulos. Pouco ou nada mudou, portanto.
A segunda parte começou com alguma melhoria no jogo nacional, sobretudo porque a Grécia pareceu meio baralhada no centro do terreno, havendo espaços momentâneos para aparecer nessa zona do relvado e servir, inclusive, as alas. Contudo, a selecção não conseguiu materializar em golo ou em lances de perigo os espaços de que dispunha. Seria mesmo a Grécia a sair na frente, num lance muito idêntico ao que a apurara para a final. Canto na direita e falha nas marcações, com Charisteas a dar o título aos helénicos. Mal marcado e com Ricardo um tanto ao quanto aos papéis, o avançado dava forma aos nossos piores receios: os gregos iam defender ainda mais.
Exigiam-se mexidas e riscos e Rui Costa entrou de imediato, substituindo Costinha. O maestro trouxe vontade, movimento, alguma magia. Fugaz, contudo. O efeito do número 10 desvaneceu-se rapidamente, apesar do médio ser dos que mais tentavam remar contra a maré. Ronaldo teve bola para igualar e pedia-se mais um avançado, até porque Pauleta estava muito só para servir o jogo directo que já se começava a praticar. Scolari não leu o jogo dessa maneira e tirou o Ciclone para meter Nuno Gomes. É certo que Ronaldo se juntava ao benfiquista mas exigia-se mais coragem, mais risco.
Os minutos finais só deram Portugal, como é óbvio, com Paulo Ferreira e Nuno Valente a extremos mas com a sorte do lado dos deuses gregos. A glória final escapou-nos pelas mãos, num jogo que recordaremos eternamente com uma mágoa enorme. Ainda assim, um enorme obrigado à selecção. Estamos sempre contigo, sobretudo quando temos a coragem para dar uma pequena contribuição: com uma bandeira, com uma mensagem, com uma crítica inclusive. Não é menos patriota aquele que vê as coisas de uma outra forma e tenta exprimi-la, sendo, no meu ponto de vista, inaceitável que se crie a opinião de que há entidades acima de toda e qualquer crítica. Força Portugal!