
Fotos: UEFA
Um dos maiores emblemas da história do futebol europeu vai agora defrontar o FC Porto na Liga dos Campeões. O Inter de Milão, fundado em 1908, já não vence a prova desde 1965, ano em que repetiu o feito que já havia conquistado na época transacta (bem se lembrará o Benfica). Os italianos já perderam uma Taça dos Campeões, designação da altura, para o Celtic de Glasgow, em pleno Estádio do Jamor - 1967. Mais recentemente, o Internazionale conseguiu três triunfos na Taça UEFA (1991, 1994, 1998), sendo que a vitória sobre o Parma constituiu mesmo o último troféu levantado pelo emblema de Milão. Nessa altura Ronaldo ainda brilhava com a camisola nerazurri, ele que esteve duas vezes à porta de acabar com o jejum de títulos na Serie A, que já dura desde 1989. Com casa partilhada com o grande rival AC Milan, o clube presidido por Giacinto Faccheti faz questão de lembrar o nome de Giuseppe Meazza quando joga no seu terreno. Melhor marcador da história do Inter, Meazza (287 golos em 408 jogos) é também a designação do palco que o vizinho apelida de San Siro...
Treinador - Roberto Mancini
Um dos melhores jogadores italianos das últimas duas décadas, Mancini é também um dos mais jovens treinadores da Serie A, sendo já muito respeitado entre os pares. Personalidade controversa mas muito dedicada ao jogo, Roberto estreou-se como profissional ao serviço do Bolonha, tinha então 16 anos! Duas temporadas volvidas, dava início a uma das mais longas parcerias da história do futebol, permanecendo quinze temporadas ao serviço da Sampdória - chegou a defrontar o FC Porto na Taça das Taças. Foi campeão italiano, venceu quatro taças do seu país, uma Supertaça de Itália e uma Taça dos Vencedores das Taças. Com a queda do emblema de Génova, rumou a Roma para defender as cores da Lázio, onde conquistou uma Serie A, duas Taças de Itália, a última edição da Taça das Taças e a Supertaça Europeia. Com quatro golos apontados em 36 chamadas à Squadra Azurra, Mancini disputou quase 550 partidas no principal campeonato transalpino, tendo apontado 162 golos. Deixou a Lázio em 2000, assumindo o carga de treinador-adjunto, que deixou no ano seguinte para voltar aos relvados, numa efémera experiência na Premiership, ao serviço do Leicester. Regressou a Itália para treinar a Fiorentina, tendo ganhou a Taça em 2001, com Nuno Gomes a marcar na segunda-mão da final. Venceu a mesma prova este ano, já ao serviço da Lázio, que passou a orientar desde 2002. Deixou os romanos em Julho para rumar a um projecto bem mais ambicioso - devolver o Inter ao topo do futebol transalpino e europeu. Adepto do futebol de ataque, Mancini costuma montar as suas equipas num 4-4-2, algo que vai contra o que vinha sendo norma nos nerazurri. Perdeu um jogador importante como Fabio Cannavaro mas basta dizer que ainda não foi derrotado esta temporada para comprovar o sucesso que tem sido esta experiência. Ainda assim, o Inter vive dependente de Adriano e se a passagem pela Champions não merece reparos, a prestação na Serie A é tudo menos brilhante. Com escassas três vitórias em quinze jornadas, os milaneses são quintos a já 14 pontos do líder Juventus, sendo que a regra parece ser empatar nos minutos de desconto. De facto, o cenário só não é mais grave porque os pupilos de Mancini têm tido a sorte do seu lado, com verdadeiros milagres nos períodos finais. Ainda assim, Champions é Champions e esta equipa tem provado o quão perigosa pode ser. O último confronto com equipas nacionais remete para a época transacta, com os nerazurri a defrontarem o Benfica num período conturbado da temporada. Acabaram por ser mais felizes, passando à fase seguinte com uma vitória por 4-3 no Giuseppe Meazza depois de um nulo na Luz. Ainda assim, um Inter bem diferente do actual... Os italianos nunca defrontaram o FC Porto em jogos oficiais.
Guarda-Redes

Começou no rival AC Milan mas nunca jogou pelos rossoneri, celebrizando-se na Serie A ao serviço da Fiorentina (1993-2001) - falhou onze jogos em outros tantos anos de Calcio. Internacional italiano, Francesco Toldo foi finalista do Euro´2000 e assinou pelo Inter em 2001, ainda que recentemente tenha andado afastado da equipa titular por se recusar a prolongar o contrato com os nerazurri. Já assinou novo vínculo, recuperando também o lugar que emprestara durante umas semanas. Aos 33 anos, ainda mantém os excelentes reflexos entre os postes mas também ganha facilmente os lances áreos - ou não tivesse ele quase dois metros. Alberto Fontana defendeu as redes do Inter enquanto Toldo decidia o seu futuro. Quando o seu emblema defrontar o FC Porto, o suplente já terá completado 38 anos, o que faz dele um dos mais idosos jogadores em prova. Jogou muito pouco desde que em 2001 assinou pelo clube milanês, ele que tivera as experiências mais nobres ao serviço do Bari, da Atalanta e do Nápoles. O uruguaio Fabián Carini está prestes a completar 25 anos mas tarda em impôr-se em Itália, onde já defendeu as redes da Juventus. Contratado esta temporada, é o dono da baliza do Uruguai há já bastante tempo mas passou a última época na Bélgica, emprestado pela Juve ao Standard Liège. No início desta temporada foi cedido ao Inter na ida de Cannavaro para Turim.
Defesas

Prima pela veterania o sector mais recuado do Inter, o que não implica necessariamente menor qualidade numa estrutura que perdeu Fabio Cannavaro para a Juventus. Longe disso! O capitão Javier Zanetti é uma marca de qualidade, tanto a defender como a atacar. Seguramente um dos melhores laterais-direitos da última década, Zanetti joga em Giuseppe Meazza desde 1995 (tem 31 anos) e tem sobrevivido a vários treinadores e filosofias de jogo. Como é versátil, adapta-se facilmente a posições mais avançadas - gosta e tem pulmão para subir no terreno - e até dá uma perninha na ala contrária se necessário. Pupi, alcunha por que é tratado, já soma quase cem internacionalizações pela Argentina e é o quinto jogador mais utilizado da história do Internazionale. Rápido e muito combativo, é um adversário difícil de bater e que deve ser bem controlado nas subidas pela lateral.
Herói nacional por ter marcado o golo da vitória na Copa América 2001, Iván Córdoba chegou a Milão em Janeiro de 2000, tendo-se estreado logo ao sexto dia desse mesmo mês, na recepção ao Perugia. Central de baixa estatura mas com grande impulsão e poder de choque, Córdoba beneficia de um centro de gravidade baixo para aliar velocidade às características anteriormente enunciadas, pelo que também é precioso em qualquer das laterais. Adapta-se bem a qualquer esquema de jogo, tem facilidade em sair com a bola controlada e tem espírito de liderança em campo. Ao lado costuma estar Marco Materazzi, filho do Giuseppe que treinou o Sporting em 1999. Internacional italiano, estreou-se no Messina mas foi em Perugia que conheceu a glória e a Serie A, tendo-se estreado na recepção ao Inter, em Fevereiro de 1997. Passou uma temporada no Everton antes de regressar a casa, onde uma grande temporada de 2000/2001 lhe abriu as portas de Milão. Aos 31 anos, tem um percurso conseguido em Giuseppe Meazza, ainda que o bom jogo aéreo não seja sempre acompanhado de eficácia em outros aspectos individuais. Compromete com frequência, deixando-se levar pelo sangue quente ou pela dificuldade em jogar com os pés. Um perigo nas bolas paradas...
Do actual plantel fazem parte vários conhecidos de Mancini. Na defesa estão Sinisa Mihajlovic e Giuseppe Favalli. O central sérvio-montenegrino, em tempos também lateral-esquerdo, está na fase descendente de uma grande carreira que o juntou a Mancini na grande Lázio de finais de século. Estreou-se como profissional no actual Vojvodina Novi Sad e foi campeão europeu e intercontinental pelo Estrelha Vermelha de Belgrado, em 1991. Chegou a Roma em 1992 mas partiu para a Sampdória (onde também estava Mancini) dois anos volvidos, regressando a Roma (mas para a Lázio) em 1998. Partilhou títulos com o agora treinador e celebrizou-se pelo fabuloso pé esquerdo, uma ameaça na conversão de livres directos. Aos 35 anos, perdeu quase todas as qualidades que o tornaram num dos melhores jogadores mundiais, não se percebendo porque arrasta uma carreira que já deu o que tinha a dar. Foi humilhado pelo FC Porto na meia-final da Taça UEFA de 2002/2003. Giuseppe Favalli também fazia parte desse conjunto, ele que tem liderado, aos 32 anos, a lateral-esquerda dos milaneses. Estreou-se na Cremonese, donde saiu após cinco temporadas rumo à Lázio, onde permaneceu doze épocas, sendo capitão na última delas. Certinho a defender, este internacional italiano não é um jogador brilhante, não tendo também grande fôlego para fazer toda a ala-esquerda.
Também conhecido dos portugueses é o paraguaio Carlos Gamarra, que actuou meia-temporada pelo Benfica e já foi falado para o Sporting. Veterano atleta, também parece ter perdido a velocidade e a força que impunha na marcação do seu espaço, pelo que nem é titular deste conjunto. Um globetroter do futebol, Gamarra já jogou no Paraguai, na Argentina, no Brasil, em Portugal, na Espanha, na Grécia e agora em Itália. Também sul-americano, o brasileiro Zé Maria é um versátil lateral (faz ambas as alas) que se celebrizou ao serviço do Perugia. Já na casa dos trinta, o internacional canarinho dá o salto tardio para um grande emblema, ainda que também tenha feito parte de uma boa formação do Parma. Mais jovem é o central ex-Boca Juniors, Nicolás Burdisso. Forte na marcação e no jogo aéreo, não tem sido muito utilizado por Mancini. Fechemos os números com o lateral-esquerdo Giovanni Pasquale, um miúdo interessante que faz toda a ala mas a quem os treinadores não vêem grande utilidade, vá-se lá saber porquê. Também inscrito foi Hernán Dellafiore, um jovem de 19 anos que joga normalmente pelas reservas.
Médios

Velho conhecido de Mancini, o sérvio-montenegrino Dejan Stankovic é uma das melhores unidades deste miolo milanês, muito bem constituído. No auge da carreira, este médio foi importante nas conquistas da Lázio, clube que o acolheu em 1998. Contratado ao Estrela Vermelha, Stankovic impôs a capacidade para pautar jogo pelo centro mas também para descair para a esquerda. Forte tecnicamente e no confronto físico, tem muita velocidade e um óptimo pontapé de meia-distância, o que lhe rende bastante golos. Também sabe bater bolas paradas e está numa forma dos diabos desde que chegou a Milão, em Janeiro deste ano. De regresso a Itália está também o ex-Lázio Juan Sebastián Verón, médio argentino que fracassou na experiência inglesa. Decisivo em Roma e em Parma, Verón é um encantador médio-centro, com muito espírito combativo e uma técnica deliciosa, que alia a boa finta e soberba capacidade de remate. Também regressado à Serie A está Edgar Davids, controverso e excêntrico médio holandês que teve problemas com Lippi na Juventus e não renovou com o Barcelona depois de meia-temporada emprestado. Com um dos melhores currículos do futebol europeu, Davids mostrou-se numa grande equipa do Ajax mas não venceu em Milão, onde actuou pelo rival dos nerazurri. Em Turim foi bem mais feliz, fartando-se de amealhar troféus e elogios. Autêntica carraça, corre o campo todo e é incansável na missão box-to-box. Um jogador que todos os treinadores apreciam, um dos melhores atletas da última década.
Compatriota de Edgar, Andy van der Meyde cumpre a segunda temporada em Milão, depois de temporadas brilhantes com a camisola do Ajax. Não pegou de estaca na primeira temporada em Itália mas ninguém duvida de que é um óptimo extremo, nem sempre bem explorado pelos treinadores. Passou por muitos clubes no seu país antes de marcar posição no Ajax, em 2000. Rápido, com boa finta e capacidade de cruzamento, van der Meyde é um perigo na ala. Mais jovem que todos estes é o turco Belozoglu Emre, tetracampeão turco no Galatasaray antes de se mudar para Milão em 2002. Vencedor da Taça UEFA em 2000, Emre é um internacional turco de 24 anos que não tem tido vida fácil para se impôr definitivamente no Inter. O que se estranha, dada a facilidade com que trata a bola e a elegância dos seus movimentos. Preenche bem o miolo e tem uma capacidade de passe fabulosa, sendo que também atira bem de fora. Mais usado na contenção, Cristiano Zanetti foi um dos pilares do título da Roma em 2001, assinando pelo Inter meses depois. Jogador essencialmente pragmático, controla bem as operações no miolo mas não é dos atletas mais elegantes. Os dotes ofensivos são limitados, reconhecendo-se a sua experiência para actuar à frente dos centrais.
Em queda desde que deixou Valência, Kily González compensou com a medalha de ouro nas Olimpíadas um percurso menos feliz desde 2003. Estreou-se como profissional no Rosario Central e ainda jogou no Boca Juniors antes de ser contratado pelo Saragoça. Um óptimo ala-esquerdo, com grande drible e velocidade, que alia a um remate bombástico. Foi o melhor marcador do Valência na campanha para o título nacional espanhol de 2002. Esteban Cambiasso procura em Milão a oportunidade que o Real Madrid não lhe pôde oferecer. Estrela no River Plate e nas selecções jovens argentinas, este médio é bom na cobertura e no lançamento do ataque, tendo facilidade para lançar companheiros ou assumir a condução do jogo. Passe simples é a maior das qualidades deste jovem. Terminemos com Giorgios Karagounis, um nosso conhecido dos confrontos com a Grécia e com o Panathinaikos. É um grande executante mas não se impõe em Milão, tendo sido várias vezes falado para o Benfica.
Avançados

Só tem 20 anos e já é um dos melhores avançados a jogar em Itália, para não ser mais abrangente! O nigeriano dos saltos mortais já desponta no Inter desde 2002 mas parece ser este o ano da confirmação de um valor com uma margem de progressão imensa. Um autêntico perigo para a defesa do FC Porto este Obafemi Martins, um atleta que alia um poder de arranque temível a muita força física. Para espanto de muitos, imagine-se que também não é nada tosco com a bola nos pés!!! Um dos avançados com mais prestígio na Europa, Christian Vieri começou no Prato mas despontou na Juventus, onde atingiu a final da Liga dos Campeões de 1997, ganha pelo Dortmund de Paulo Sousa. Foi goleador em Madrid mas voltou a Itália para jogar na Lázio (onde também actuava Mancini) no ano seguinte. De bando em bando, fixou-se em Milão desde 1999, tendo já apontado quase 100 golos pelos nerazurri só na Serie A. Com um feitio difícil, a vedeta Vieri está em queda de há uns tempos a esta parte, não deixando por isso de ser uma ameaça a ter em conta. Dois golos apontados logo na estreia, na vitória sobre o Bolonha em Agosto de 1997, e a conquista da Taça UEFA faziam prometer uma grande carreira para Alvaro El Chino Recoba, contratado ao Nacional de Montevideu. Emprestado ao Veneza, Recoba regressou a Milão em 1999 e cedo ganhou o estatuto de um dos mais bem pagos jogadores do Mundo, ainda que o seu brilhante e temível pé esquerdo nem sempre apareça. Com um percurso periclitante... Termine-se com Julio Cruz, argentino ex-Feyenoord e Bolonha contratado na época passada. Bom avançado, ainda que num plano inferior ao dos restantes.
A Estrela

Um senhor jogador este internacional canarinho de 22 anos. Começou a dar nas vistas logo aos quinze, vencendo o Campeonato do Mundo de sub-17 pelo Brasil. Evoluiu no São Paulo mas cedo foi descoberto pelos nerazurri, ainda que se tenha demorado a impôr. Adriano Ribeiro Leite assinou por um clube a viver o sonho/pesadelo Ronaldo a 1 de Julho de 2001, dando logo nas vistas num amigável com o todo-poderoso Real Madrid. O certo é que não se mostrou imediatamente, sendo mesmo emprestada à Fiorentina em Janeiro do ano seguinte. No Verão de 2002 (vindo da vitória em Toulon) rumou a Parma, onde permaneceu durante uma temporada e meia recheada de golos. Regressou a Milão em Janeiro deste ano, encarregue de resolver os problemas de um ataque em crise. Cedo pegou na equipa, ofuscando um Vieri que vivia de velhos tempos. Em três temporada de Serie A, Adriano já fez 39 golos (os desta época, já são 14!, não estão englobados nesta contagem) mas o seu processo de afirmação ainda está a meio. Foi a grande estrela do Brasil na última Copa América - jogador da final, jogador da prova e melhor marcador - levando o escrete às costas para a vitória final, que tirou à Argentina já em tempo de compensação. Um colosso de força, um génio na técnica, Adriano tem velocidade, poder de choque e um remate estonteante. Não tem sido menos decisivo na Champions, onde já soma quatro golos e três assistências em apenas quatro partidas.
Escrito por André Viana às dezembro 17, 2004 11:59 PMPrometido é devido e é cumprido :)
Às 23:59,tava o post on-line...
Realmente estes gajos têm um plantel soberbo!E o Adriano é,para mim,só o melhor ponta-de-lança do mundo...Quem o vai parar?!O Bicho?Ou o Pedro 'Velocista' Emanuel?
Posted by: Carlos às dezembro 18, 2004 12:28 AMExcelente análise. Detalhado e de leitura fácil. Para além disso gostei muito dos posts relativos à Champions deste ano. (e não posso deixar de acrescentar: um exemplo para outros pseudo-blogs desportivos que preferem alimentar polémicas - "o meu clube é melhor do que o teu... etc, etc")
Posted by: fortune às dezembro 18, 2004 11:56 AM