
Não há grandes diferenças entre o Inter de Milão actual e o aqui analisado a 17 de Dezembro de 2004, dia em que se ficou a conhecer o adversário do FC Porto para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Exige-se, todavia, uma pequena actualização e a previsão daquilo que amanhã pode acontecer no Estádio do Dragão.
1 – FC Porto mudou, Inter mantém-se

Foram dois meses conturbados para os lados do Dragão, ainda que o emblema ocupe a liderança da Superliga e parta com ambições para a ronda da Champions que se aproxima. Todavia, o reinado de Fernández terminou de forma abrupta. Grande instabilidade exibicional, poucas perspectivas de evolução e uma crescente contestação ao trabalho da direcção, equipa técnica e plantel. Como é hábito nestas situações, o treinador é o sacrificado e assim aconteceu com o espanhol.
Para o seu lugar foi contratado José Couceiro, uma personalidade com fortes ligações ao futebol português mas com poucas provas dadas no cargo de técnico. Com efeito, a prestação que vinha conseguindo em Setúbal constitui mesmo o seu cartão de visita, manchado pela descida de divisão em Alverca, na época transacta. Comparado ao agora treinador do Chelsea, Couceiro tem procurado marcar uma postura forte e aparenta ter dominado o balneário. Todavia, o FC Porto ainda não teve provas de fogo sob a sua liderança e os desafios aprazados para os próximos dias são, efectivamente, dois enormes testes à capacidade desta equipa técnica e ao futuro próximo dos portistas.
Também no plantel se registam enormes diferenças. Derlei e Carlos Alberto eram unidades importantes mas saíram no mercado de Inverno, tal como Maciel, Hugo Almeida, Hugo Leal e César Peixoto. Entraram Leandro, Cláudio, Leo Lima, Ibson e Leandro do Bonfim mas só os dois primeiros podem ser utilizados na Champions. Por outro lado, saliente-se o regresso de Nuno Valente (voltou à competição na Amoreira) e também se aguarda que Maniche esteja ao mais alto nível na noite de amanhã. Operado em Dezembro, o médio foi expulso na curta aparição diante do Sporting de Braga e só agora pode fazer a estreia com Couceiro.
Por seu turno, o Inter mantém a estrutura aqui retratada em Dezembro. Giovanni Pasquale já não faz parte do plantel europeu, tendo sido substituído por um colega de posto. Referimo-nos ao lateral-esquerdo Francesco Coco, um atleta de 28 anos que surge recuperado de uma complicada e demorada lesão. Antigo jogador do AC Milan e do Barcelona, Coco ainda procura a forma física desejável, ele que esteve fora de campo por mais de um ano e recusou-se, inclusive, a receber ordenados durante esse período.
Mancini não perdeu nenhum elemento importante mas também não contratou ninguém durante o período de transferências. Todavia, Marco Materazzi manteve um impasse relativamente ao seu futuro no clube. Titular durante a primeira fase da temporada, o filho do ex-treinador do Sporting perdeu o posto para Sinisa Mihajlovic e chegou a solicitar a transferência para o Bolonha. Contudo, após conversações entre as partes chegou-se a acordo para a permanência do central de 31 anos e até se renovou o seu vínculo contratual até Junho de 2009.
De resto, o Inter mantém-se invencível na corrente temporada. Terceiro classificado na Serie A, o conjunto de Mancini está a onze pontos da liderança repartida entre Milan e Juventus (em Dezembro, esse fosso era de catorze). Há dois meses, os nerazurri apenas haviam somado três vitórias mas agora já contabilizam nove. Relativamente à TIM Cup (Taça de Itália), o Internazionale eliminou a Atalanta na passada semana e encontra-se nos quartos-de-final da prova. Com efeito, fossem necessários maiores índices de motivação e aí estava um enorme catalizador de interesse – o FC Porto pode ser a primeira equipa a derrotar o Inter na corrente temporada...
2 – Que FC Porto?

Ainda que limitado na escolha do lote de convocados, Couceiro terá algumas dúvidas relativamente à constituição do onze inicial. Diego e Jorge Costa são cartas fora do baralho por se encontrarem castigados mas os reforços Leo Lima, Ibson e Leandro do Bonfim também não podem actuar. Leo Lima e Leandro já o fizeram ao serviço de outros emblemas (Marítimo e PSV Eindhoven, respectivamente), sendo que Ibson não chegou a tempo de ser inscrito na UEFA. Resulta daqui que o FC Porto não tem um típico organizador de jogo para a recepção ao Inter de Milão. Lá chegaremos! Vítor Baía será dono da baliza (salvo alguma ocorrência imprevisível) e até o quarteto defensivo soa óbvio. Castigado por duas jornada na Superliga, Giorgios Seitaridis regressa aos convocados e ocupará o posto que Bosingwa reivindicou à condição. Desta forma, o grego será lateral-direito, Nuno Valente estará no flanco oposto e Pedro Emanuel fará dupla de centrais com Ricardo Costa. Também ele afastado dos últimos encontros devido a castigo, o central contratado ao Boavista em 2002 recupera a sua posição no onze e é muito provável que o novo internacional português o acompanhe. Ricardo tem sido utilizado no seu posto natural desde que Couceiro chegou e Pepe denota uma grande intranquilidade quando chamado a actuar. Assim sendo, poucas dúvidas sobram de que será ele o preterido.
Daqui para a frente sobram dúvidas. Por um lado, relativamente ao esquema táctico. Ainda que o 4-3-3 tenha sido utilizado nos dois primeiros desafios da era Couceiro, o 4-4-2 apareceu em Belém e não se pode dizer que tenha fracassado, até porque os dragões saíram vencedores. Aqui, a opção estará sobretudo dependente dos atletas a utilizar mas a forma de actuar do adversário não deve ser descurada. Estou em crer que, face à ausência de um playmaker, o FC Porto terá a ganhar com a opção pelo 4-4-2. Não só por se garantir, dessa forma, a paridade numérica com o forte miolo transalpino mas também porque é esse o garante de outra coesão para as transições atacantes. Estruturados neste esquema, os campeões europeus podem jogar com linhas mais próximas e não sentirão dificuldade em defender em terrenos avançados, algo que é fundamental para impedir que o adversário consiga embalar em velocidade. Parece-me, igualmente, ser este o garante do alargar do leque de opções de construção de jogo, sobretudo pela colocação de médios-interiores que abririam em acções ofensivas e apoiariam os laterais em missão defensiva, sendo que o homem afastado do raio de acção seria o auxiliar de Costinha, elemento repartido entre a zona de avanço dos médios e o auxílio aos centrais (em igualdade numérica com a dupla de avançados do Inter). De facto, Costinha necessita de grande auxílio e creio ser este o esquema que melhor salvaguarda essa situação.
Falando então de nomes, é consensual que Costinha será a unidade mais defensiva do miolo. Bosingwa deve retomar o lugar de interior-direito e Raul Meireles passaria para a posição diametralmente oposta, ele que deixou boas indicações no Restelo. Mais dotado sob o ponto de vista técnico, Maniche pode ser a unidade central deste quarteto e aquela que teria mais obrigações de estabelecer a ligação com Ricardo Quaresma e Benni McCarthy (estou convencido de que o sul-africano, melhor marcador portista na prova, retomará o lugar no onze). Este esquema também favorece o jovem ex-Barcelona. De facto, tem sido evidente a sua subida de rendimento quando liberto de obrigações posicionais em uma das alas. Com um raio de acção alargado, Quaresma foge a marcações e dispõe de espaço para desequilibrar.
Sendo está uma sugestão pessoal, não me parece que Couceiro se afaste muito deste esquema e deste onze. De qualquer maneira, aqui ficam os vinte convocados para a partida de amanhã.
Guarda-Redes – Vítor Baía, Nuno; Defesas – Seitaridis, Pedro Emanuel, Ricardo Costa, Nuno Valente, Pepe, Leandro, Areias; Médios – Costinha, Bosingwa, Maniche, Raul Meireles, Paulo Machado; Avançados - Cláudio, Hélder Postiga, Ivanildo, Luís Fabiano, McCarthy, Quaresma.
3 – Que Inter?

Mancini não deve fugir do 4-4-2 que tem utilizado durante toda a temporada. Com efeito, as nuances deste Inter estarão sobretudo na forma como vão encarar este desafio e no modo delineado para que os italianos levem a água ao seu moinho. Relativamente aos nomes, é previsível que o quarteto defensivo seja constituído por Javier Zanetti, Ivan Cordoba, Sinisa Mihajlovic e Giuseppe Favalli. Note-se que estes dois últimos estiveram na goleada imposta pelo FC Porto à Lázio de Roma na meia-final da Taça UEFA 2002/2003, então jogada no Estádio das Antas. Na frente, Adriano é presença certa mas sobram dúvidas relativamente à opção por Vieri ou Martins. Ambos estiveram em dúvida (pelo que até é admissível que a opção recaia em Júlio Cruz ou no fortalecimento do meio-campo com a inserção de outra unidade) mas estou em crer que as condicionantes deste jogo favorecem a opção pelo jovem nigeriano. Explico porquê. Para além de ser o segundo melhor marcador do Inter na prova (com quatro golos), Obafemi é um atleta bastante mais móvel do que Vieri e não creio que a toada de contra-ataque que Mancini deve apresentar amanhã se coadune com a presença de um típico homem de área. Extremamente veloz, Martins revela maior facilidade em procurar jogo em zonas recuadas e até pode dar garantias defensivas que Vieri, muito claramente, não oferece. De resto, subsistem bastantes interrogações relativamente ao quarteto do miolo. Davids não viajou para o Porto mas sobram seis nomes altamente viáveis para apenas quatro posições. Não creio que Andy van der Meyde (o sétimo elemento) seja chamado ao onze por Roberto Mancini e parece-me que os nerazurri vão apostar em duas unidades de contenção. Acredito que os italianos entregam o domínio do encontro ao FC Porto e apostam deliberadamente em uma estratégia de contra-ataque. Desta forma, Cristiano Zanetti jogaria com Esteban Cambiasso num reduto mais recuado e Juan Veron surgiria à frente destes, ele que funciona muito bem em termos defensivos mas também se incorpora facilmente no ataque, fazendo uso da imensa qualidade de passe e/ou do forte remate que lhe rendeu, inclusive, o golo em Udine. Sobra uma vaga, a disputar entre Dejan Stankovic (ex-Lázio, esteve nas Antas em 2003) e Kily González. Apesar de pouco utilizado, o argentino tem merecido a confiança de Mancini no passado recente e não seria de estranhar a sua inclusão no onze titular. Extremamente veloz, seria uma excelente unidade para o contra-ataque, ao passo que Stankovic é um elemento mais estável, muito dotado do ponto de vista técnico mas também muito cumpridor ao nível táctico – ou não estivesse ele em Itália desde 1998. Independentemente dos nomes, creio que o meio-campo milanês terá duas unidades de contenção, com uma delas a incorporar os movimentos ofensivos, sendo que sobram dois médios-interiores com missões de cobertura aquando da perda da posse de bola e tarefas de condução e lançamento do ataque rápido que deve pautar a acção nerazurri com bola. Aqui fica a lista dos 21 convocados, com óbvio destaque para as ausências de Edgar Davids, Giorgios Karagounis e Álvaro Recoba.
Guarda-redes - Toldo, Carini e Impagnatiello; Defesas - Cordoba, Burdisso, Zanetti, Mihajlovic, Zé Maria , Favalli e Materazzi; Médios - Emre, Zanetti, Andy van der Meyde, Veron, Kily González, Cambiasso e Dejan Stankovic; Avançados - Ricardo Cruz, Adriano, Obafemi Martins e Christian Vieri.
3.1 – A temer...

- Esteve lesionado mas regressou à competição a 6 de Fevereiro, em Parma. Está longe da forma que patenteou até Dezembro mas aguarda-se que apareça em força a qualquer momento. Leva sete golos na Champions e catorze na Serie A e os adeptos esperam sempre uma grande exibição do avançado brasileiro que completou 23 anos no passado dia 17. Cuidado com os dotes técnicos, com o espaço que lhe é concedido para furar ou para ensaiar os remates exteriores, com a eficácia que exibe em lances de bola parada. Adriano é um perigo!
- Genericamente, o ataque do Inter deve ser atentamente vigiado. Martins tem uma velocidade imensa e uma capacidade de choque acima da média mas todos os sectores conseguem chegar ao golo. Mordazes no contra-ataque, os italianos têm forte presença na área e facilidade em rematar de fora. Redobrada atenção aos lances de bola parada. Há que tentar evitá-los porque Mihajlovic, Adriano, Stankovic e Veron têm facilidade em batê-los, seja directamente, seja para a conclusão dentro da área. Neste particular, a estatura de Cordoba é altamente enganadora...
- Extremamente forte nas pontas finais dos encontros. Por várias vezes na condição de derrotado (frequentemente por mais do que um golo até), o Inter tem facilidade em recuperar no marcador e fá-lo com minutos finais de extrema pressão. Sobe os sectores com facilidade, coloca força de choque na área, ganha livres. Inevitavelmente, tal estará igualmente associado a uma capacidade mental invulgar. Diante do Inter, os encontros jogam-se mesmo até ao apito final. Cuidado com festas antecipadas ou substituições para os aplausos. Há que manter unidades de ataque e demonstrar capacidade de chegar com perigo até junto de Toldo...
- Matéria-prima de qualidade no miolo do Inter. Mancini apresenta sempre um miolo muito coeso, que alia solidez defensiva a toque de bola e capacidade de inserção no ataque. Predominam elementos dotados tecnicamente, que sabem subir a jogar e que sabem trocar a bola. Exploram com eficácia o remate de fora, solicitam com precisão as unidades mais avançadas. Andy van der Meyde e Kily González são homens para lateralizar e dar velocidade, Veron e Stankovic têm controlo de bola e grande visão de jogo. Muito importante: cuidado com as subidas de Javier Zanetti!
3.2 – A explorar...

- Favalli! Usar a velocidade e a técnica de Quaresma sobretudo no flanco direito e dar indicações a Bosingwa e a Seitaridis para, sempre que possível, subirem pela lateral. Favalli esteve nas Antas há duas temporadas e cabe ao FC Porto oferecer-lhe mais uma noite para esquecer. Aos 33 anos, Favalli é um mau defesa. Lento, com défice posicional e frequentes atrevimentos ofensivos que Couceiro deve aproveitar. Cambiasso deve fechar nessa zona (sobretudo se tiver a companhia de Cristiano Zanetti) mas nem por isso o FC Porto deve deixar de apostar no aproveitamento das debilidades de Favalli.
- Mihajlovic! Outro dos que esteve na meia-final da Taça UEFA. Fez 36 anos anteontem e só joga porque tem uma soberba capacidade para transformar bolas paradas em lances de golo. Como defesa é muito fraco e o FC Porto deve insistir no municiamento ofensivo para o seu raio de acção. Cordoba é incomparavelmente melhor, tanto por saber jogar em antecipação com pela facilidade que revela em posicionar-se dentro do espaço que lhe é destinado. Apesar da baixa estatura, tem grande poder impulsão e não perde disputas aéreas.
4 - Equipas Prováveis
Salvaguarde-se a liberdade de acção de Quaresma para cair em ambas as faixas e até para jogar perto de McCarthy. No Inter, a dúvida entre Kily ou Stankovic.


É verdade que, como redactor deste espaço, sou suspeito... Porém, daqui vai o meu aplauso a este excelente trabalho do André!
Posted by: Ivo Adão às fevereiro 22, 2005 06:29 PMExcelente análise. Agora só falta mesmo a vitória amanha.
Posted by: Léccio às fevereiro 22, 2005 08:41 PMMuito bem, de facto. E o toque de CM foi muito bem dado. Se bem que neste tipo de situações não era mal pensado criarem gráficos próprios. Acho que antevisões e análises só ganham com a demonstração táctica.
Posted by: Fortune às fevereiro 22, 2005 10:27 PMShow...
Posted by: Ricardo às fevereiro 24, 2005 02:05 PM