
Foto: BBC Sport
Na última aparição televisiva, Marcelo Rebelo de Sousa usou um tom elogioso relativamente à figura de José Mourinho. Mais do que as conquistas do técnico, evocou uma nova forma de afirmação pessoal. Mourinho preconiza, diz o comentador da RTP, uma novidade na atitude típica do português. Ainda que não detecte incoerência no raciocínio que Marcelo vem fazendo a propósito do treinador do Chelsea, não posso deixar de notar que a postura de alguma (grande parte da) comunicação social portuguesa face ao treinador mudou radicalmente. Seria o tom do azul?
1. Ainda não o ouvimos pronunciar-se directamente sobre a polémica que rebentou devido a algum conformismo do Chelsea na defesa do seu treinador relativamente ao castigo que lhe foi aplicado pela UEFA. Todavia, parece unânime que Mourinho terá ficado melindrado com a falta de apoio que alegadamente sentiu. Se bem o conhecemos, é natural que o português exija equivalente retorno comparativamente com aquilo que dá: 100%. Nesse sentido, só lhe fica bem que faça sentir a Abramovich e a Kenyon a insatisfação que lhe causou o episódio. Nada mais coerente com aquilo que vem assumindo desde que aterrou em Inglaterra, em consonância até com o que já acontecia em Portugal. Mourinho revela uma terrível facilidade em impor-se e creio que o conseguirá fazer junto da direcção dos blues, que não se vê em posição de perder o treinador que lhe devolveu o sucesso, meio século depois. Da mesma forma, José Mourinho parece ter ganho por KO o duro combate com a mortífera imprensa britânica. Costuma-se dizer que qualquer publicidade é boa publicidade e o treinador capitaliza todo esse princípio. Controverso? Com certeza! É também por aí que se explica que tenha levado consigo, para Israel, mais de 150 jornalistas, número superior ao conseguido, num passado recente, por um conjunto de oito personalidades galardoadas pela Fundação Nobel. Mourinho construiu um estatuto que procura preservar no dia-a-dia e isso confirma-se na firmeza com que se dirige aos media e agora, ao que tudo indica, ao próprio Chelsea. É óbvio que o ex-treinador do FC Porto terá milhões à espreita assim que decida fechar a porta de Stamford Bridge. Não parece disposto, todavia, a abdicar de princípios. Muito se explorou a máxima “para ganhar vale tudo”, sobretudo num sentido negativo que, diz Mourinho, não pretendeu fazer passar. Marcelo Rebelo de Sousa identifica aqui uma nova forma de ser português. Saudável, diga-se. Um exemplo de método, rigor, profissionalismo e até, pasme-se!, princípios. Mourinho orienta o seu trabalho por um essencial – a excelência. Só isso lhe permite elevar o futebol à condição de área científica.
2. Todavia, importa que nos questionemos se não é este o mesmo Mourinho que treinava em Portugal, ainda há menos de um ano? Claro que é. Mudou, isso sim e de forma gritante, a postura de larga comunicação social face ao personagem. Mereceria isto um estudo comparativo que, pelo menos por ora, não tenho possibilidade de realizar. Mas teríamos conclusões bem interessantes caso se averiguasse o tratamento jornalístico (versão opinativa incluída) feito sobre a figura de Mourinho antes e depois da sua saída de Portugal e, porventura mais importante, do FC Porto. Bastou uma mudança de azul para que o treinador passasse, também ele, do arrogante asqueroso que passeava pela Superliga a adorado génio que, ressuscita Pessoa, concretizou a utopia do V Império. Curiosidades da bola, verifica-se que quem o tentou irradiar no seguimento do episódio de Alvalade esteve do seu lado quando altas instâncias da UEFA o acusaram de ter provocado o fim da carreira do árbitro Anders Frisk. Acima de tudo, a mudança de atitude face a Mourinho registou-se a partir do momento em que se criaram condições para que mudasse, igualmente, o raciocínio causal sobre o fenómeno FC Porto. Até Maio de 2004, desfilou-se um imenso rol de justificações para o domínio nacional e internacional dos dragões – os árbitros (cá como lá), a fragilidade e até alguma cooperação dos adversários, a batotice do Jorge Costa, a borboleta que bateu as asas na América do Sul. Tudo se unificou com o famoso discurso pós-Gelsenkirchen e aí estava a mais brilhante descoberta desde as espátulas de café – afinal foi Mourinho quem fez o FC Porto ganhar. Assim, de um momento para o outro, o provinciano clube do corrupto Pinto da Costa viu como ilegítimas todas as conquistas que conseguira. Não só aquelas que se ergueram na passagem do treinador ex-Leiria mas também todas as barreiras derrubadas nos longos mas esquecidos anos de presidência de Jorge Nuno Pinto da Costa. Mourinho fez mal em não ter transportado consigo todo o espólio portista mas, argumentarão algumas mentes brilhantes, que há de tão relevante nesse enferrujado palmarés?
É verdade que bastou Mourinho sair das Antas para passar a ser amado pela imprensa nacional. Os benfiquistas ainda batem com a cabeça na parede quando pensam que o trocarm pelo Tony.
Na minha opinião, Mourinho é uma mistura de mesquinhez, arrogância, imaturidade e ganância.
Por outro lado, é genial no que faz, competente, exigente consigo mesmo e com os outros. Não temos aqui um potencial ditador?
Não vejo muita gente a queixar-se dele e refiro-me, como é óbvio, a quem com ele priva diariamente. Não o vejo como ditador mas acho que percebes o que queres dizer, sobretudo se estiveres a falar do facto de ele gostar de controlar todo o processo de trabalho e de traçar orientações para quem o coadjuva. Continuo a achar que ele transformou o futebol numa ciência e arrisca-se a abolir a máxima da bola ser redonda. Quanto ao resto, é óbvio que ele suscita opiniões sobre a sua personalidade (a mim também) mas isso pouco importa. Que o julguem pelos resultados e aí ela apresenta excelência. Enquanto assim for...
Posted by: André Viana às abril 5, 2005 11:40 PMEssa do ditador foi em jeito de brincadeira. O que quis dizer foi que, enquanto figura pública, Mourinho possui um mau carácter, embora seja genial. Quanto ao modo como se relaciona com as pessoas, suponho que seja diferente do modo como se relaciona com a comunicação social, mas não posso saber. Quanto aos resultados... palavras para quê?
Posted by: Andreia C. Faria às abril 6, 2005 09:14 PM