
“Deram a sensação de que estávamos num jogo de apresentação do Benfica”
Litos, treinador do Estoril, após o encontro
“Para bom entendedor duas palavras bastam”
José Veiga, ainda no Algarve
“Nem sei se fui expulso, vim-me logo embora porque estava enojado”
Carlos Xavier, adjunto do Estoril, ontem
“Um desses técnicos tem uma escola de jogadores e, se é esse o tipo de formação que lhes dá, esses jovens não vêem bem educados daí”
Luís Filipe Vieira, em resposta a Xavier
Estamos a assistir a duas semanas deliciosas no futebol português, que tiveram um Estoril-Benfica polémico no intervalo. Todavia, o pior tem sido mesmo o comportamento nojento mas extremamente moralista dos dois principais dirigentes encarnados. Muita lata é necessária para reclamar a postura da diferença e da vontade de clarificação dos males do futebol nacional.
1. Ainda que com pontos divergentes, já lá vamos, a nova direcção encarnada tem uma referência clara a marcar toda a gestão – sobretudo a mediática e verbal – desta temporada. Ingénuos, pois acreditam ter absorvido por osmose a excelência comunicacional do melhor dirigente português de todos os tempos e aquele que melhor sabe criar soundbyte, mesmo que por vezes também se deixe enredar pelas teias do exagero e da falta da oportunidade – acontece ao melhor! Bem do alto do seu benfiquismo dos quatro costados, Luís Filipe Vieira e José Veiga imitam claramente mas de forma aberrante o estilo seguro e vincadamente irónico do homem-forte do FC Porto. Julgavam ter aí a fonte do sucesso mas enganam-se, mesmo que o Benfica venha a ser campeão. Qualquer que ele seja, este está longe de ser um vencedor categórico e consensual, contrariamente ao passado que conheço pela minha vivência – vicissitudes de só recentemente ter entrado nos ternurentos vinte. Voltando a Vieira e a Veiga, a disparidade que apresentam face a Pinto da Costa reside no execrável moralismo, a lembrar os tempos áureos (vocês sabem para quem) do longínquo mas tão próximo Estado Novo. Mais do que Fado e até do que Futebol, o novo Benfica tem muito de Fátima, como facilmente se nota em algumas declarações de Vieira.
2. Paladino da tradição e dos bons costumes, Luís Filipe Vieira recalcou memórias passadas e insurgiu-se contra Pinto da Costa no lamentável final do Benfica-FC Porto. Surgiu na Sala de Imprensa e vendeu a sua superioridade moral ao evocar o facto de ser pai e chefe de família, algo que não se aplicava ao herege portista. Imagino que Vieira tenha em casa uma exímia dona do lar e uma cozinheira de mão cheia, submissa à figura masculina. Vieira é mais do que Pinto da Costa mas também é mais do que Carlos Xavier. Não satisfeito com o ridículo a que se expôs na 6ª jornada, o presidente encarnado voltou ontem a fazer das suas. Recordou que o ex-jogador do Sporting costuma aparecer nas páginas da imprensa cor-de-rosa mas que, apesar disso, é “um homem sem carácter”, “um ultraje... que não sabe estar na vida”. Eis Luís Filipe Vieira, novamente exibindo a sua superioridade baseando-se em juízos de valor gritantes e na figura católica que julga ser. Faltando melhores argumentos surgem afirmações do tipo “cada vez que abro a boca, não sou polémico e aqueles que fazem comentários não devem estar habituados a ter pessoas sérias no futebol. Se eu fosse um presidente que, a partir das duas da manhã, convivesse com eles, se calhar escreviam bem de mim. Mas tenho família, empresas, tenho de ocupar o meu tempo com o Benfica e estou numa missão. Trouxe valores muito importantes para o Benfica e as pessoas não lhes dão realce.” Frases ontem proferidas e que me merecem apenas uma palavra – nojento!
3. Quanto a José Veiga, é risível a forma como exibe a sua mediocridade e a sua menoridade mental. Como é que alguém que durante tantos anos serviu o FC Porto pode colocar em causa o profissionalismo de alguém que, servindo profissionalmente o Estoril, já esteve ligado ao Sporting? Como é que alguém pode questionar as potencialidades e, mais do que isso, a sanidade de um treinador só porque tem um percurso recente junto de escalões jovens? Muitas outras situações poderia recordar mas prefiro acreditar que se Romário conhecesse Veiga (talvez Jardel lhe tenha dito umas palavras sobre o ex-empresário) diria dele o mesmo que disse de Pelé – “Quando abre a boca só fala merda”. Para além do conteúdo, Veiga é medíocre na forma e não se entende facilmente como é que se lhe estende tanto e tão frequentemente um microfone. “Para bom entendedor duas palavras bastam”, diz. Melhor – “não comentamos arbitragens desde a 6ª jornada... Foi uma arbitragem perfeitamente normal”. Delicioso! Melhor só se passar na TVI, juntamente com o grande especialista em estatísticas de arbitragens e acções disciplinares e o repórter de campo a quem mandam ouvir as loucuras dos insuspeitos adeptos encarnados.
4. Também muito bem esteve António Figueiredo, uma pessoa de passado inatacável e muito próxima de um clube da 2ª Circular. Muito ele rezou, tendo mesmo confessado publicamente, para que o Estoril não tirasse o título ao seu Benfica, tendo aliás mudado o encontro para o Algarve para ter mais benfiquistas a assistir. Figueiredo não gostou que a equipa técnica do Estoril não tivesse gostado da sua atitude ao longo da última semana e, nesse sentido, parece óbvio que não haverão contratos renovados em Junho. Figueiredo viu aqui uma excelente oportunidade para salvar as contas da sua SAD mas resta-me constatar que o Estoril vai gastar o seu imenso saldo para a Liga de Honra. Não afirmo que o resultado seria outro na Amoreira mas uma coisa é jogar num terreno que se conhece e outra é marcar uma partida num campo que nenhum dos intervenientes canarinhos conhecia e que, pior do que isso, impedia a presença da curta massa adepta do clube visitado. Muito se disse, recordo-o pois, que há enormes diferenças entre um Moreirense que altera o palco dentro do próprio concelho ou distrito e entre um Estoril que faz 300 quilómetros para “receber” um candidato ao título. Litos e as equipas técnica e de jogadores da Amoreira não mereciam a direcção que têm.
5. Por último, a arbitragem. Hélio Santos nunca poderia ser nomeado para uma partida desta importância, jogada de forma tão mediática por antecipação. Não me envolvo em polémicas de folhetim e em discussões de chuteiras mas o que vi foi uma arbitragem habilidosa. Rui Duarte foi bem expulso, diz a lei. Todavia, a regra do senso não poderia ter poupado um segundo cartão amarelo a um jogador que comete falta (a segunda em todo o jogo) em situação longe de se considerar perigosa? Parece-me que sim mas respeito o refúgio legal. Não encontro explicações para a não marcação da grande penalidade por falta de Ricardo Rocha (o tal que pode bater em tudo o que mexe mas que resmunga imenso quando é a sua vez de levar) sobre Moses nem percebo o porquê de o golo da igualdade ter novamente nascido a partir de uma falta inexistente. Também estranho, e aqui julgo apenas a única versão tornada pública e que é a do próprio jogador, que João Paulo tenha sido expulso por ter dito a Hélio Santos “marque-me essa falta, caralho”. Sim, a arbitragem foi bem habilidosa. A ver vamos o que se passa até final...
Simplesmente Excelente!!!
Posted by: Oliveira às abril 27, 2005 08:39 AMProvavelmente esquece-se que:
1/ O Setúbal há uns anos recebeu o Benfica...nas Antas
2/ O Sporting pagou ao Pampilhosa para limpar o cartão do Liedson, que por acaso até só simulou depois uma falta que lovou à expulsão do Alcides
3/ Que as leis não são para interpretar subjectivamente, são para aplicar objectivamente
4/ Que houve um número inusitado de faltas contra o Estoril porque o dito clube se limitou a defender desesperadamente um resultado que aparecia do único meio-remate que tinha feito à baliza
5/ Que o Cisse devia ter visto o vermelho quando agrediu o mantorras
6/ Que o Litos, Carlos Xavier e Mário Jorge são lagartos dos quatro costados e que deviam dar graças a Deus de alguém os deixar treinar um clube de futebol, ainda por cima na zona da linha, permitindo-lhes irem embebedar-se para o Jezzbel sempre que querem. Qualquer coisa que eles digam sobre o jogo, tem tanta independência quanto as opiniões do Dias Ferreira
Anda tudo muito nervoso com medo que o Benfica ganhe o campeonato. Tenham calma que ainda faltam 4 jornadas e tudo pode acontecer. Até o Olegário voltar a apitar jogos do Benfica...ou do Porto (já sabíamos que o Baía era o único GR a poder defender com as mãos fora da área, agora ficámos a saber que o J. Costa é o único jogador a poder fazer o mesmo dentro da área)
Posted by: LV às abril 27, 2005 11:15 AMÉ incrível como a direcção benfiquista se continua a esconder naquele lance do BenficaXPorto em que simplesmente é impossível dizer com certeza se a bola entrou ou não entrou. Lances mais escandalosos de bolas q entraram aconteceram por essa Europa fora (por exemplo Totenham contra o Man United) e n se ficaram a chorar o resto da temporada. Talvez isso seja para esconder as alturas em q foram claramente benificiados (BenficaXRio Ave, BenficaXEstoril, etc)e pior do que isso, estarem a jogar neste momento o pior futebol de entre as equipas da frente.
Posted by: Léccio às abril 27, 2005 11:44 AM« 5/ Que o Cisse devia ter visto o vermelho quando agrediu o mantorras»
Bem... parece que há alguém que não viu bem as imagens da TVI. No golo do Mantorras, que viria a dar a vitória ao benfica, os comentadores diziam "(...) Nuno Gomes a fazer também um trabalho muito bom (...)".
Logo de seguida vê-se qual foi o trabalho, numa repetição única (porque será?). O Nuno Gomes, no meio da confusão habitual da grande área agride (ou tenta agredir) um jogador do Estoril. Viu-se muito mais claramente nestas imagens do que nas que levaram à suspensão por três jogos ao McCarthy. Só que desta vez, o jogador agressor não tinha ninguém em cima dele.
Fico à espera (sentado) pelo processo sumaríssimo.
Posted by: AM às abril 28, 2005 10:18 AM