O Take 2 continua a apresentar a homenagem a Manoel de Oliveira. Aniki-bobó e Acto da primavera são agora relembrados...

É interessante analisar que Oliveira se considera um cineasta que começou tarde a fazer filmes. Isso acontece porque, depois de Douro, faina fluvial e até 1962, o realizador só realizou mais uma obra: Aniki-Bobó (1942). Um filme considerado menor, e sobre o qual o próprio Oliveira pouco fala. Filme português inspirado na corrente neo-realista - embora com grandes diferenças até pelos temas proibidos pelo regime fascista vivido em Portugal - mas com um grande encanto. Não se pode considerar um grande filme, mas é obrigatório considerar-se um filme essencial na história do cinema nacional. Oliveira conta-nos uma história passada no Porto. Mostra-nos como vivem, nos inícios dos anos 40, grupos de crianças modestas da Ribeira. Estória de amor entre crianças, com ódios à mistura. Análise ao pensamento de infância, como metáfora para o mundo adulto. Depois, há também o registo dos espaços da cidade e das suas gentes. Os eléctricos a passarem na Ponte D. Luís, as locomotivas a vapor, as vendedoras de porta em porta... Um contributo para a memória portuense, à qual mais tarde Oliveira voltará com Porto da minha infância. Além destes aspectos, em termos formais já se reconhece mestria na forma de colocar a câmara. É exemplo a cena em que as crianças cobiçam a boneca de trapos. Vemos o ponto de vista da boneca, a visão da cobiça, despertando assim uma maior compreensão do que está em jogo.

Durante duas décadas, e como atrás referimos, Manoel de Oliveira deixa de realizar longas-metragens. Não porque quisesse. Antes porque os tempos políticos em Portugal eram tenebrosos. Oliveira não pactua com o regime salazarista. Por essa razão, não recebe apoios para fazer longas-metragens. Desgostoso, o realizador chega a considerar, no ano de 1946, abandonar a carreira.

Acto da primavera
Até 1962, Oliveira realizou, no entanto, alguns documentários, como O pintor e a cidade(1956). Ora, neste ano volta às longas-metragens com Acto da Primavera. É o filme português sobre a paixão de Cristo. Oliveira consegue isso com uma filmagem etnográfica. Tudo se passa numa aldeia de Trás-os-montes. Os actores são os habitantes locais, que encenam para as câmaras um hábito que têm desde o século XVI. Com um colorido belíssimo, Acto da Primavera revela Oliveira ao mundo: ganhou a medalha de Ouro em Sienna, entre outros prémios. Em Portugal, no entanto, uma sessão pública, no Porto, de apresentação do filme valeu-lhe uma passagem pelos calabouços da PIDE. Preso em Lisboa, Oliveira conhecerá na cadeia personalidades importantes como João Bénard da Costa - que será seu actor - e Urbano Tavares Rodrigues.
(continua)
Por Duarte Sousadias às 11:28, terça-feira dia21 de dezembro de2004