sábado, dia 9 de julho de 2005

Quando mundos colidem

Há anos que não viamos um filme como este. Uma obra de ficção científica bem conseguida, onde os efeitos especiais não são demais e o horror é dado em forma de suspense e de sugestão. Um filme muito violento do ponto de vista cinematográfico. Quer nos cenários apocalípticos, quer no rosto de Dakota Fanning, estrela emergente (e com que brilho!) na meca do cinema. Eis War of the worlds, um dos acontecimentos cinematográficos de 2005.

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Steven Spielberg voltou aos contos fantásticos. E de que maneira. Depois de incursões por temas históricos (Schindler's list e Saving Private Ryan) ou filosóficos (Artificial Inteligence e The Terminal), aquele que já foi considerado o melhor realizador em actividade voltou-nos a dar um filme do espírito de Jaws e de Duel. Obras que lhe deram fama. War of the worls, no entanto, mostra já um Spielberg amadurecido. Conhecedor como poucos do ofício cinematográfico, e bem influenciado por mestres do suspense como Alfred Hitchcock. Por exemplo, quando Harlan (Tim Robbins), em estado de quase loucura, pega no machado para destruir o olho extraterrestre gera-se grande tensão, mas em seguida podemos respirar de alívio quando Ray (Tom Cruise) o acalma. Não foi necessário ver para sentir o que poderia acontecer.


Tudo estava calmo...

Tudo começa com as partículas de vida mais ínfimas de uma planta. Com um plano que pretende descrever a nossa complexidade. A voz off introduz-nos, então, para uma acção que não acontece de imediato. Assim, tal como Spielberg já nos habituou, não entramos directamente no filme. Tudo começa num guindaste, onde somos confrontados com a personagem de um operário, Ray Ferrier (brilhantemente interpretado por Tom Cruise) que é o estereótipo do típico americano médio. Gosta de Baseball, de conduzir em excesso e, como vive sozinho, é totalmente desorganizado. Divorciado, tem dois filhos que vão passar o fim-de-semana com ele. Notam-se de imediato tensões entre Robbie (o filho mais velho, interpretado por Justin Chatwin) e Rachel, numa interpretação notável de uma miúda de apenas onze anos, Dakota Fanning. Nota-se que Tay nunca foi um bom pai, e que tenta (re)conquistar os filhos à custa de pequenos truques, como obrigar Robbie a jogar baseball com ele, numa cena em que as tensões familiares vêm ao de cima e a bola se torna arma de arremesso entre progenitor e cria. Há humor nestas sequências, e se não soubessemos ao que iamos à entrada da sala escura talvez julgassemos que iamos ver um drama sobre o choque de gerações e problemas socias. Tudo parece normal, portanto.
Ora, toda esta introdução é apenas o pretexto para Spielberg nos mostrar o antes do horror. Com diálogos que levam ao riso prepara o espectador para as ondas de choque que se vão seguir, e que lhe farão palpitar o coração.

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O ponto de vista do ser humano

Se a primeira meia hora não passa, como já afirmamos, de um filme de família, em seguida tudo se sucederá a um ritmo vertiginoso. Vindos do espaço, relâmpagos abatem-se sobre o planeta. Em seguida, máquinas extraterrestres saem do solo e começam a destruir tudo o que lhes aparece pela frente. A guerra dos mundos começou. Mas a forma como Spielberg mostra esta guerra é com mestria, e sempre do lado do ser humano. A câmara é sempre o olhar dos personagens, ou o nosso se nos encontrassemos naquele contexto. Já não acontece como em ET , onde seguiamos em certas cenas as aventuras «solitárias» do "boneco" vindo de outra galáxia. Nunca entramos nas máquinas et's. Vivemos em caves e mergulhamos na água para escapar aos ataques de outros seres que nos querem aniquilar. Deste ponto de vista War of the worlds funciona muito bem, e não entra nos habituais clichés de filmes ou séries menores de ficção científica em que vemos o ponto de vista dos extraterrestres. Aqui eles são a ameaça desconhecida. Tanto para os personagens como para os espectadores.
Nota máxima no filme para os efeitos especiais que, desde já, apostamos que ganharão o óscar desta categoria no próximo ano. Sem este tipo de efeitos o filme não teria um impacto tão grande. Não são usados de forma gratuita e, por vezes, até são bastante contidos dando ao espectador margens para a sua criatividade pessoal. Os vales de sangue, por exemplo, chocam imenso, mas são mostrados de forma não intensiva.
Ests vales de sangue são, igualmente, um pretexto para Spielberg homenagear um dos maiores clássicos de Hollywood num pequeno plano. Quando Ray, desesperado, sai da cave em busca da filha, sobe à colina do vale e vê a terra vermelha, recordamo-nos imediatamente de Gone with the wind e do plano final que mostra Tara, a terra vermelha de Scarlett o'Hara.

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O ser humano perante as ameaças exteriores

War of the worls é, também, um filme que levanta questões sobre o ser humano. De facto, Spielberg reflecte, tal como fizera H. G. Wells no romance que inspirou o filme, por sua vez inspirado na mais famosa peça radiofónica de todos os tempos relatada por Orson Welles, sobre as reacções que o Homem teria - e tem perante actos de barbárie como os ocorridos agora em Londres - quando se apanha no meio de ataques inesperados. Mantem-se sempre o espírito de sobrevivência, e de protecção dos que lhe estão próximos. Se Ray até aí não sabia como demonstrar o amor que nutria pelos filhos, o modo como sobrevive para eles é a prova de que mesmo em guerra há valores que vêm ao de cima. Rachel, a filha, é a pessoa que Ray mais quer proteger, matando até para que ela se sinta bem no meio do horror causada pela guerra extraterrestre. Mas esse valor de sobrevivência não é só abordado de modo altruísta e do ponto de vista do pai de família. O filme também mostra o desespero que se pode acometer dos homens e da multidão em que se insere num momento de pânico. Veja-se o modo como um simples carro se transforma em necessidade absoluta do ser humano, acabando este «bem» por ser destruído por uma multidão em fúria que o quer utilizar. Ou a sequência de entrada para o ferrie boat, onde a ideia de «cada um por si» é evidenciada.
A parte final, onde a causa extraterreste é vencida, não nos parece, como alguns pensam, um «panfleto propagandístico» da grandeza da América. Desde logo porque os ET's não são derrotados pelo exército mas pelas nossas próprias protecções naturais. O filme centra-se mais nas especificidades do ser humano e deste magnífico planeta para explicar que, apesar das ameaças, a nossa raça pode sempre sobreviver e lutar, de formas sempre novas, contra quem nos subjuga. «Todas as tiranias e guerras foram vencidas. É um facto histórico», afirma um quase louco Harlan a Tom Cruise. E é bem verdade.

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Dakota

Um filme pode ter tudo do melhor em termos técnicos. Porém, se falharem os actores pode-se tornar um fracasso. Não é o caso de War of the worlds, onde os intérpretes representam muito bem os seus papéis. Tom Cruise revela a sua plena maturidade como actor. Consegue mudar com convicção o personagem na situação antes e depois do começo da guerra. Justin Chatwin também vai muito bem, embora, na nossa opinião, não seja convincente em certas situações de pânico. E last but not least, temos Dakota Fanning, a nova Shirley Temple de Hollywood. Se Dakota tiver dentro de uma década este nível de representação, estão terá pela frente uma das mais brilhantes carreiras de actriz na História da Sétima Arte. Impressionante como uma garota de apenas onze anos dá lições a actrizes que se julgam grandes estrelas mas são apenas vulgares produtos de marketing. Casos, entre outros, de Cameron Diaz ou Liz Hurley. Em 1982 Steven Spielberg apostou em ET, para o papel de Gertie, numa actriz de nove anos: Drew Barrymore. Esta, já crescida, não passa de uma actriz mediana que é mais conhecida pelas extravagâncias do que pelos filmes em que entra. Com Dakota acreditamos que o mesmo não se passará. Aqueles olhos azuis não enganam. Está ali uma muito grande estrela.


Classificação: ******* (sete estrelas)

Ficha técnica:War of the worlds de Steven Spielberg
Com Tom Cruise, Dakota Fanning, Justin Chatwin, ...
116 minutos
site oficial

Por Duarte Sousadias às   2:50, sábado  dia 9 de julho de2005
Comentários

Sinceramente, não achei grande piada a este filme. Independentemente de estar ou não a respeitar a história, o filme não é assim tão bom como se perspectivava. Esperava algo novo, que me surpreendesse e afinal encontrei a versão melhorada do Independence Day. O final então nem se fala. Uma verdadeira desilusão sem explicação. A Guerra dos Mundos vale pelos seus efeitos especiais e pela menina de olhos azuis. Esperava mais de Spilberg. No filme, nada me assustou, nada me fez ficar surpreendido...é tudo uma questão de ver os filmes em que entram extra-terrestres e comparar com este. Parecem iguais, mas estes são mais sufisticados. Eu esperava algo mesmo muito bom e sinceramente acabei por sair da sala de cinema desiludido. Não digo que percebo de cinema, aliás não escrevo aqui, mas este filme não merece a atenção que lhe estão a dar. É mais um filme para arrumar na estante, ao lado do Deep Impact e Independence Day.
A aniquilação da raça humana já começa a ser repetitiva no mundo cinematográfico. Que tal uma mudança?

Por: Danilo Fernandes àsjulho 9, 2005 06:29 AM

Boa análise Duarte! A minha mãe (foi ver o filme comigo) também tinha comentado sobre essa clara referência a E Tudo o Vento Levou, um clássico do cinema. Continua a fazer análises como estas!

Por: André Batista àsjulho 9, 2005 10:21 AM

É mais um filme, embora se consiga ver o claro génio que existe em Spielberg, mas não é concerteza o filme do Ano.

Cumprimentos

NeTo
http://rollcamera.blogspot.com

Por: Manuel Barros àsjulho 9, 2005 12:50 PM

Se quiseres recorrer á enciclopédia de cinéfilos para resumir War of the Worlds, podemos dizer que até à fuga estamos diante de um filme com origens em Capra. Todo o processo de fuga a um extreminio lembra-nos The Pianist. A cena da cave traz a força brutal de um filme da Monogram Pictures. O final é melado no mesmo tom que os filmes MGM. E pelo meio podes ainda falar de Signs, Independence Day ou afins. Mas não devia ser assim. Deviamos olhar para um filme como ele é. Só que Spielberg teima em continuar filmes nas suas obras. Não há total liberdade em cada obra. Pelo contrário, há cada vez mais um constrangimento, e o final chega a ser patético. Com todo o mundo a ser exterminado, a familia está em casa á espera dele como se nada fosse? Isto não é do The Searchers. Mas Spielberg poderia almejar a ser o Ford moderno. Se tivesse mais arrojo. Talento técnico ele tem e o filme demonstra isso. Boas ideias também. Mas o arrojo final é que deita tudo a perder em muitos dos seus filmes, e neste principalmente! Por isso War of the Worlds é uma desilusão. É diferente de Alexander que também vinha de um grande realizador, mas que mais do que uma desilusão era um mau filme. The Aviator desilude mas escapa. Com este filme Spielberg desilude em toda a linha, deixando apenas a esperança de no Natal sair-mos compensados com um brinde especial.
E quanto aos actores deixa-me discordar. Conheces a minha afeição pelo Cruise, mas ele falhou em tornar-se actor. Hoje ele é um nome. Nada mais!
um abraço

Por: Miguel Lourenço Pereira àsjulho 9, 2005 09:45 PM

Eu é assim, dizendo bem, eu n gostei muito do filme, pa por um lado adorei, as personagnes, Tom Cruise e Rachee a menina dos olhos azuis, tal como referiste, vendo bem, se não vossem personagens como estas, n me levava a ter um opinião do filme tão formada, arrumava na estante tal como referiram, atendendo que temos que pensar que á 3º é de vez.
Eu por acaso só vi o 2º "War of worlds" nem sei nada do 1º, n sei se são com as mesma personagens, anyways, pah, gostei do filme, n foi uma coisa que n pegasse mais, mas até adorei, axo que foi um filme muito bom pelos efeitos, podia ser melhor, mas n há dinheiro para isso.
Fikem bem....

Por: oro àsjulho 10, 2005 11:52 PM

Por favor, me expliquem o final do filme!!!

Por: Ricardo àsjulho 11, 2005 12:53 AM

Foi agora finalmente que vi um filme diferente e simplesmente espetacular... as minhas preferencias iam para Gothika, Million Dollar e Constantine, mas a Guerra dos mundos veio mudar tudo! Dakota depois de Sean Penn, Denzel Washington e Robert de Niro, está agora novamente fantastica ao lado, do tambem igualmente fantastico Tom Cruise. Por mais que os seus "berros" electrizantes enervem, são os mais realistas possivéis, assim como todo o filme..., bem era capaz de tirar o que aconteceu ao filho de Cruise... talvez calha-se melhor a morte... Fantástico! Só tenho a acrescentar que adoro todas as capas de filmes exebidas neste site!

Por: Miguel àsjulho 13, 2005 05:30 PM
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