O JN de domingo passado deu o mote, as salas de cinema portuguesas perderam 2 milhões de espectadores em comparação, e colocou o tema da crise na indústria cinematográfica na ordem do dia. Já muito se tem escrito mas este é um assunto sobre o qual importa continuar a reflectir pois a crise económica não serve de desculpa para tudo.

A verdade é que o cinema enfrenta a cada vez mais feroz concorrência dos meios de entretenimento domésticos. Comecemos pelo exemplo mais simples e bem sintomático da realidade portuguesa: os canais de filmes. Um bilhete de cinema a preço normal custa em média 5 euros, o que significa que um casal que queira ir ao cinema gasta no mínimo (se não tiver filhos) 10 euros, apenas para ver um filme. Por pouco mais do que isso as redes de televisão por cabo disponibilizam canais com filmes 24 horas por dia e para os mais variados gostos. Sob esta perpectiva, ir ao cinema é um luxo que ainda por cima tem o "inconveniente" de obrigar a sair de casa (o que também acarreta os custos de transporte). Mas isto é só a ponta do icebergue.

Para além dos filmes, que chegam cada vez mais depressa ao DVD e aos canais codificados, não se pode descurar o papel da própria televisão. Mais uma vez graças à televisão por cabo (mas não só) é possível assistir ao que de melhor a TV americana tem produzido nos últimos anos. E a verdade é que existem aí produtos para todos os gostos (drama, comédia, ficção científica, policial) e que em muitos casos superam grande parte dos filmes do mesmo género. Poucos thrillers de acção superam a generalidade dos episódios de The Shield (ainda por descobrir pelas tv's portuguesas) ou de 24, que alcançou no passado fim de semana o maior share deste ano da :2. Para além disso a televisão já não é um trabalho menor para os actores e muitos nomes de Hollywood não hesitam agora em explorar o pequeno ecrã. Citem-se a título de exemplo Kiefer Suderland (que tem o papel da sua vida em 24), Glenn Close em The Shield, Dennis Hopper e Benjamin Bratt em E-Ring e até o "nosso" Joaquim de Almeida (24, Wanted). A prova de que Hollywood está atenta a este fenómeno é o facto de estar a chamar alguns dos grandes criadores de programas de TV comom Joss Whedon (Buffy, Firefly) e JJ Abrams (A Vingadora, Perdidos) para realizarem longas metragens. Mas isso não chega, numa altura em que se reciclam cada vez mais antigas séries de televisão, porque não havia o público de ficar em casa a ver as novas?

E se os adultos são tradicionalmente mais comodistas os jovens tem outros motivos para começarem a evitar o cinema (apesar de ainda serem a fatia principal do publico). Em primeiro lugar estão mais próximos das novas tecnologias, da internet e por consequência da pirataria. Em segundo lugar são os adeptos mais fervorosos dos jogos de vídeo. Uma indústria milionária que conseguiu aproximar-se do cinema recolhendo mais benefícios do que vantagens (logo para começar é muito mais fácil encontrarmos uma boa adaptação de um filme para videojogo do que o contrário). Para se ter uma ideia do dinheiro que esta indústria movimenta por comparação ao cinema num só dia Halo 2 fez 124 milhões de dólares (a sua adaptação cinematográfica será um estrondoso sucesso se fizer isso no primeiro fim de semana) e as vendas dos dois jogos da série juntas chegam aos 600 milhões de dólares!

Para além disso, muitos jogos estão cada vez mais cinematográficos com histórias complexas e os próprios actores emprestam as suas vozes aos seus modelos digitais. O melhor exemplo disto é o recente 007 From Russia with Love que, enquanto se discute se Daniel Craig será um bom Bond, permite aos fãs controlarem o eterno 007, Sean Connery.
É certo que os jogos de vídeo chegam a custar dez vezes mais que um bilhete de cinema mas são, em muitos casos, um investimento mais seguro. Para começar são interactivos, algo com que o cinema só poderá sonhar, e uma "demo" de um jogo permite averiguar a sua qualidade com muito mais precisão do que qualquer trailer de cinema.

Em conclusão, os portugueses têm menos dinheiro no bolso e a pirataria é uma realidade mas isso não explica tudo. Hollywood (e as indústrias de cinema de todo o mundo) deviam olhar com atenção para o que de melhor se faz noutros sectores do entretenimento e tentar supera-los em termos de qualidade e inovação em vez de apelar a um qualquer sentimento de nostalgia com produtos do nível de Os Três Duques ou Casei com uma Feiticeira.
Por Léccio Rocha às 21:48, sábado dia26 de novembro de2005Excelente análise, sobre um ponto de vista muito interessante.
Uma crise só é crise por muitos factores. Todos os que referiste são razões de peso para a indústria cinematográfica estar como está hoje. Em relação aos dvd´s, não falo muito de crise, porque os próprios estúdios já contam com esse lucro. A crise é mais para os donos de salas de exibição (que antigamente eram dos estúdios, e aí sim, a crise seria bem maior do que é hoje). Em relação á pirataria, essa é uma questão muito importante que tem sido bastante negligenciada..com a pirataria muitos jovens deixaram de ver filmes que iriam ver, "para ver se valia a pena", e passaram a fazer investimentos seguros.
Em relação ás series televisivas e videojogos, estás bem mais por dentro do que eu, mas pelo que deu para perceber, de facto esses são rivais de peso que o cinema não está a conseguir ultrapassar. De facto o Halo fazer 124 milhões d lucro no 1º dia, a um preço que presumo que ande pelos 30-50 euros, e o Harry Potter, com bilhetes a 5 euros, só fazer 104, é claramente um sinal.
Bem, como disse, excelente artigo. Pena é que o Take2 não tenha tanta opinião. Seria um excelente complemento ás noticias, já que as próprias reviews começam a faltar.
um abraço
Por: Miguel Lourenço Pereira àsnovembro 27, 2005 02:14 AMBom artigo e podia acrescentar mais uma coisa: a pirataria benefecia essencialmente aqueles lancamentos que geralmente dariam menos lucro, porque hoje, mais do que no passado, qualquer pessoa sabe antecipadamente as grandes banhadas de Hollywood e evita os grandes blockbusters de cinema, preferindo vcer aqueles que sabe, antecipadamente serem muito melhores. O mesmo se passa na industria da música onde os grandes money makers se veem conforntados com um grupo de consumidores muito mais informados e nque não se sujeitam aos seus maiores investimentos. O mundo agora não é oq ue era e com tantas salas de cinema a perder qualidade ou a desaparecer só nos restam alguns centros comercias onde polulam pessoas mal educadas e sem respeito pelos outros (comedores de pipocas e comentadores de ocasião).
Um bem haja e continuações ;)
Por: Luigi Mario àsnovembro 28, 2005 09:08 AM