janeiro 25, 2006

Chris Penn: 1965-2006

Morreu Chris Penn, o irmão mais novo de Sean Penn. O actor foi encontrado morto num apartamento em Santa Monica, Los Angeles. Ainda não se sabe qual a razão do súbito falecimento. Espera-se agora pelo resultado das autópsias.
Chris Penn entrou em filmes como Reservoir Dogs, de Quentin Tarantino, Mulholland Falls e After the Sunset, mas a sua especialidade era fazer de polícia em comédias como Starsky and Hutch ou Rush Hour. O seu último filme, The Darwin Awards, estava entre os seleccionados do Festival de Sundance deste ano.

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fevereiro 01, 2005

A juventude de Oliveira - parte VII

Com A Divina Comédia e, principalmente, O dia do desespero assiste-se a uma certa perda de fôlego na criatividade de Oliveira. Uma maneira de fazer cinema bastas vezes repetida e levada à exaustão das suas possibilidades são justificação para esse facto. Mas o realizador portuensse mostrou, com o filme seguinte, que ainda não havia esgotado a sua gramática cinematográfica. Assim, surpreendeu todos com Vale Abraão. Tão bom ou melhor do que os filmes da tetralogia dos amores funestos.

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Vale Abraão (1993) é um dos melhores filmes de Manoel de Oliveira. Para muitos o melhor. Filme que marca o reencontro do realizador com Agustina Bessa-Luís – que o passaria a acompanhar até hoje como inspiração literária para os seus filmes. Oliveira pedira a Agustina, em 1992, um romance argumento, como Fanny Owen servira para realizar Francisca. Estava interessado o realizador numa adaptação cinematográfica do romance de Gustave Flaubert Madame Bovary. Agustina “fintou” Oliveira, e apresentou-lhe um dos seus romances, cheios complexos e com uma teia impenetrável, onde a temporalidade é uma incógnita. De tal modo que na noite em que Oliveira principiou a ler a “encomenda”, parou ao fim de poucas páginas para telefonar à romancista, dizendo-lhe que era tarefa quase impossível filmar alguma coisa dali. Mas foi realizável a tarefa, nascendo desse modo um dos maiores filmes que alguma vez se realizaram em Portugal. O filme nasce, como se pode ver desde o início com a recorrência a um narrador (voz de Mário Barroso, o director de fotografia e o Camilo de outros filmes) de uma inspiração literária. Cinema e literatura quase se fundem nos planos intensos de Vale Abraão. Mas o cinema consegue focar melhor a acção e a psicologia das personagens. Algo que se perde no labirinto agustiniano.

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cartaz de Vale Abraão

A obra passa-se nas magníficas paisagens do Douro. Os planos repartem-se, esfumados, em zonas como a quinta que dá o nome ao filme e a Quinta do Vesúvio, perto do rochoso Douro Internacional. À beira deste rio sem cantores – palavras de Agustina a abrir Fanny Owen – está Ema Cardeano. Uma mulher singular, perdida num mundo que parece tão longínquo mas ao mesmo tempo tão próximo. Ela é a mulher-fatal. A mulher-desejo que atrai os homens para a sua rede de afectos, mas que os homens não podem, nem querem, saber amar. Ema, interpretada brilhantemente por Leonor Silveira, é aquela mulher por quem os homens se sentem irremediavelmente atraídos, e por quem as mulheres têm uma imensa inveja. Não podem ser como Ema. A leviana Ema. Mas ao mesmo tempo a Ema perdida nos abismos da incompreensão.

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Vale Abraão

Vale Abraão, pérola do cinema português, é uma ode a essa mulher. Acompanhamo-la nos seus amores fracassados, na sua busca por não sabe muito bem que afecto, desde a juventude até à sua morte. Esta última um dos planos mais brilhantes não só do cinema de Oliveira mas também de todo o Cinema. Ema caminha sorridente para a sua escapatória, no meio dos laranjais do Vesúvio. Vai vestida de azul, como se desafiando a esperança perdida. Depois de tanto jogar ao gato e ao rato com os homens, incluindo esse fantástico Carlos Paiva (interpretado pelo grande Luís Miguel Cintra), marido enganado e perdido na vida, Ema já não consegue caminhar mais. E antes do envelhecimento, que a destruiria, prefere optar por outro caminho.

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Vale Abraão

Vale Abraão funciona também como uma crítica ao país pequeno e ensombrado. Várias referências, nesse microcosmo do Douro, são feitas à situação que se vai passando ao longo dos anos do filme – desde os finais dos anos 60 até à década de 90. O Douro surge um pouco como metáfora disso. Aliás, como nota muito bem João Bénard da Costa, Vale Abraão é um filme “sem céu”. Explica o crítico a ideia, mostrando que esta obra de Oliveira “é o filme da noite”. A própria banda sonora transmite essa ideia. Os clair de lune de Debussy, Fauré e Schumann e a sonata ao Luar de Beethoven. Porque mais uma vez a temática da morte está pressente no cinema de Oliveira. Ema, Carlos e as outras personagens perdem-se nas profundezas de um Douro onde o puro amor é impossível. A temática é parente com a da tetralogia. Porém, Vale Abraão vai mais longe. Espécie de actualização de um tempo novo em que estamos. O amor profundo já não leva à morte. Antes a sua falta é que faz deixar de ter vontade de viver.

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Vale Abraão

Todo o modo como Oliveira aborda estes temas é magnífico. Filme que herda da literatura o seu cerne, mas que só na magia do cinema é possível. Com isto o realizador atinge quase a sua perfeição. Brilha génio num filme que se quer sombrio, onde as sequências solares anunciam o desespero do fim das relações humanas. Por fim, fica a mensagem de Agustina e do mestre do cinema luso. A voz do narrador, na sequência final, paira sobre as águas que acabaram de receber Ema para explicar o epílogo das outras personagens. E relata o fim de Carlos e dos outros. Fala também de um último romance escrito por Maria do Loreto (Glória de Matos) – mulher contraponto de Ema no filme – em que explica que nada do que escreve é importante. Mas que isso transmite a ilusão de que se “viveu uma bela vida”. Romance e cinema como vida. Eis a súmula final da grande obra de Manoel de Oliveira.

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Vale Abraão

Para ser exibido em competição no festival de Cannes, Oliveira teve que cortar quatro longas cena, que juntas tinham a duração aproximada de meia hora. Porém, era-lhe impossível cortar mais. Não entrou, por isso, na corrida à Palma de Ouro. Mas quando foi exibido fora de competição, Vale Abraão registou o maior aplauso a que Cannes alguma vez assistiu. Durante dez minutos, os espectadores aplaudiram a obra de arte de pé. E houve quem garantisse que se em competição tivesse entrado, arrebataria o cobiçado prémio que vai escapando ao nosso cinema. Oportunidade perdida…

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cartaz de A caixa

No ano seguinte (1994), Manoel de Oliveira realizou A caixa. Filme-teatral, passado numas escadas da Mouraria de Lisboa, conta a história de um cego (Luís Miguel Cintra) e da sua cobiçada caixa de esmolas. O realizador procurou dar a ver personagens típicas do baixo povo, que vêm na caixa a fortuna. Desde prostitutas a bêbados, até ladrões de meia tigela. Um pouco a ideia de João César Monteiro nas Recordações da Casa amarela (1989), que retrata um povo mesquinho com muita ironia e humor. Ao contrário de outros filmes literários de Oliveira – como o seu anterior – este filme é mais rude e teatral. Não deixa, por causa disso, de ser um bom filme de Oliveira.

Neste ano, o mestre participará como actor numa sequência do filme de Wim Wenders Lisbon Story, encomendado pela Capital Europeia da Cultura 1994. É uma homenagem ao decano dos cineastas, que imita Charles Chaplin e a sua forma de representar. Imagem comovente de Oliveira, que o realizador alemão homenageia. Oliveira já está no panteão dos grandes realizadores. È essa ideia que fica, com os seus gestos a fazer enquadramentos.

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cartaz de O Convento

É bom de ver que na década de 90 Oliveira fez um filme por ano. Impressionante para a idade. Assim, em 1995 é estreado O Convento, outro filme inspirado numa obra de Agustina: As terras do risco. O realizador tem neste filme a oportunidade de juntar à sua troupe de actores as estrelas John Malkovich e Catherine Deneuve.

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O Convento

O Convento conta a história de um investigador, Michael Padovic (Malkovich) que vem à serra da Arrábida procurar documentos que comprovem a sua tese de que William Shakespeare era um comerciante judeu com raízes portuguesas. Traz consigo a sua mulher Hélène (Catherine Deneuve). No convento deserto residem Baltar (Luís Miguel Cintra) e Piedade (Leonor Silveira). Os quatro vão protagonizar uma relação demoníaca, fora dos tempos, onde o espaço é a clausura da serra da Arrábida o do seu convento. Tudo no fim se altera. A relação quasecortada entre o professor e a mulher é alicerçada, enquanto Baltar (personificação do diabo) e Piedade (a pureza ameaçada) são consumidos pelas chamas de um incêndio na serra.

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Party

1996 é ano de Party. Um dos filmes mais esquecidos de Oliveira. Espécie de divertimento, o filme aborda o relacionamento entre dois casais. È também o encontro do mestre com dois actores conceituados: Michel Piccoli e Irene Papas. Os amores e traições. Os olhares. As relações entre casais. Uma temática algo falhada.


(continua)

Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV
Parte V
Parte VI

janeiro 11, 2005

A juventude de Oliveira - parte VI

Os anos 90 chegaram e com eles a ideia de que Manoel de Oliveira estava a pensar acabar a carreira. No entanto, isso não veio a acontecer, e a sua produção aumentou cada vez mais.

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Um mergulho na história. Assim começa Manoel de Oliveira os anos 90. Com Non ou a vã glória de mandar (1990) dá a sua visão de Portugal. O país perdido nas brumas da tragédia da derrota. A nação sem rumo, naufragada nos mares do infortúnio. Filme onde é negada vitória. Onde se mostram as acções desastrosas do ser português, como a morte do Infante D. Afonso, o herdeiro do trono de D. João II. A Batalha de Alcácer Quibir. E mais recentemente a Guerra colonial. É a partir deste último acontecimento que parte a "narrativa" histórica. Um grupo de soldados passa o tempo a ouvir lições de história do seu sargento, professor na vida civil (Luís Miguel Cintra). E tomam contacto com outras épocas trágicas do seu país. E aos poucos o espectador é convidado a penetrar numa outra dimensão pátria. Uma realidade que está à nossa volta, que nos domina neste laxismo. Mas que temos medo - ou será vergonha?- de assumir.

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Non ou a vã glória de mandar

O filme abre com um dos mais bonitos planos da obra de Oliveira. Uma cena típica do realizador, onde durante vários minutos a câmara ronda uma árvore. Não uma árvore qualquer. Uma metáfora de Portugal certamente. Quando olhamos apra aquela árvore, ouvindo uma voz em off a falar, somos levados a compreender o que é um país e a sua história. Algo que cresce. Que ganha ramos. E no caso português, com raízes bastante profundas. Não apenas temporais, mas no nosso imaginário. Aquela árvore somos nós. Portugal. O país enraízado à beira-mar, levado ao sabor de um Deus que disse Non ao seu desejo de glória.

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Non ou a vã glória de mandar

É esta, basicamente, a tese do filme. O mostrar onde o país se perdeu. E tal como todos os historiadores e pensadores da nação (tais como Oliveira Martins) Manoel de Oliveira presta especial enfoque ao dia 28 de Agosto de 1578. Data em que nos perdemos definitavamente para a derrota, e onde o nosso Rei desapareceu. É uma batalha mal filmada. Talvez Oliveira, realizador do universo interior do ser humano, não estivesse preparado para dirigir ao mesmo tempo centenas de figurantes. Mas fica o espírito do filme e a sua mensagem. Sobre a figura do Rei desejado, o qual é a acção próximo filme, a estrear em breve, o realizador também filma o encoberto. Há uma cena, no fim de Non... em que vemos D. Sebastião a chegar num dia de nevoeiro. Pega na sua espada, símbolo do poder de Portugal, e crava-a nas mãos. O sangue que corre pela espada fora é símbolo do sangue derramado na nossa derrota. Mas talvez não seja apenas isso pois é uma cena bastante enigmática, tal como todo o mito do encoberto, mito esse que vem desde finais do século XVI e chega até ao século passado, por exemplo, nas teses sebásticas de Fernando Pessoa. Será este, antes, o momento em que esperamos a nossa redenção, em que «a hora» profetizada por Pessoa chega, e finalmente Portugal toma o seu verdadeiro lugar - de grandeza - na história? Talvez a resposta seja dada um dia. Talvez tudo não passe de um mito. Mas o que é o cinema senão uma arte. Uma criação de realidades paralelas que nos fazem resistir ao tempo e acreditar.

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Non ou a vã glória de mandar

A cena final é das mais tocantes cenas do filme, e reflecte como as loucuras dos outros podem ter consequências trágicas para quem faz o país. Os portugueses. Vemos um soldado a morrer num hospital de campanha. O médico tenta sálva-lo a todo o custo, e administra-lhe uma injecção intra-venosa no coração. O soldado não aguenta. Mais uma vítima da tragédia chamada Portugal. O médico começa a passar a sua certidão de óbito. E lentamente acompanhamos a escrita da frase "faleceu no dia 25 de Abril de 1974". Dia da liberdade. Do fim das trevas e razão de ser daquela estúpida guerra colonial. Ironia trágica para aquele soldado que representa os mortos em combate de toda uma nação desde Viriato, o seu primeiro chefe.
Non ou a vã glória de mandar esteve em Cannes e recebeu uma menção especial do júri.

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A divina comédia

Depois de Non, Manoel de Oliveira parte para um asilo de alienados. Não se pense que o nosso realizador ensandeceu. Antes fez de actor no seu filme seguinte: A divina comédia. Um filme que se passa numa "casa amarela", com grandes actores a interpretarem personagens bíblicas como Eva (Leonor Silveira) ou Jesus (Paulo Matos), ou até personagens de romances de Dostoievski, como o Ráskolnikov (Miguel Guilherme) e a Sónia (Maria de Medeiros) de Crime e Castigo. Até a piansita Maria João Pires interpreta uma personagem, numa das suas colaborações com o mestre do cinema português. Filme sobre loucos, mas onde a alienação destes será tão saudável como a nossa normalidade?

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cartaz de O dia do desespero

Em 1992 Oliveira regressa a Camilo Castelo Branco. De novo como personagem. Em O dia do desespero Oliveira mostra os últimos dias do escritor de Ceide (e também do Porto, em certa medida). O horror da cegueira domina Camilo, de novo interpretado por esse grande actor e técnico de som que é Mário Barroso (havia-o feito também em Francisca). É, na nossa opinião, um filme falhado do mestre. Demasiado teatral, Oliveira parece querer levar longe demais uma técnica que já havia experimentado na perfeição. Salva-se, além da interpretação do universo camiliano por parte da restante troupe de actores de Oliveira (como Teresa Madruga, Diogo Dória ou Luís Miguel Cintra entre outros), a visão da casa de Ceide. Tal como noutros filmes (O passado e o presente, entre outros), a casa - a autêntica neste filme - parece ter vida própria. As trevas, por exemplo, nas cenas em que Camilo está no seu escritorio, parecem vir do chão e das janelas, rodeando o escritor e impelindo-o para o seu destino de suicídio.

continua

Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV
Parte V

janeiro 05, 2005

A juventude de Oliveira - parte V

Os anos 80 serviram para Manoel de Oliveira relançar a carreira. Começou a realizar cada vez mais frequentemente. Ganhou vários prémios de carreira, entre eles o Leão de Ouro.

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Os anos 80 foram produtivos para Manoel de Oliveira. Depois do êxito de Francisca, o realizador lançou-se em novas obras. Mas a seguir ao seu êxito, Oliveira decide fazer o seu filme "desconhecido". Propositadamente desconhecido. Trata-se de Visita ou Memórias e Confissões(1982). A obr a estrear depois da morte do realziador. Um filme de que só os próximos do mestre conhecem. Temos, nop entanto, algumas indicações. Não se trata, segundo o próprio Oliveira, de um filme auto-biográfico. Antes uma visita à sua memória, que ganhará maior expressão em 1997 com Viagem ao princípio do mundo. O protagonista nem sequer é o próprio Oliveira. É a casa onde estee a família moraram durante várias décadas. O espaço físico, tal como noutros dos seus filmes, ganha maior relevância do que o lado humano das personagens. Também a destacar a reconstituição da detenção e interrogatório a que o cineasta foi sujeito pela PIDE.
Uma dúvida temos em relação a este filme. Oliveira certamente não contava ainda estar vivo nos dias de hoje, tendo-se entretanto passado mais de vinte anos de Visita.... Por isso, questionamo-nos se o filme será actual, no sentido em que certos temas possam estar ultrapassados.

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Le soulier de satin

Até 1985 Manoel de Oliveira realiza alguns documentários, como o Lisboa Cultural. Mas neste ano volta ao cinema para realizar Le soulier de satin. Filme-súmula da sua ideia de cinema: teatro filmado. Durante quase sete horas o espectador é conduzido pelos labirintos das personagens. Infelizmente pouco conhecemos deste filme. É mais um dos seus filmes "fantasmas", que as televisões e associações de Cinema deste país não se dignam mostrar. De proução francesa, a obra recebeu elogios de todos os lados (menos de Portugal, talvez) e estreou em Cannes numa versão curta. Mas foi em Veneza que Oliveira recebe, a pretexto da mostra do filme, o Leão de Ouro pelo conjunto da sua obra. Outras homenagens neste ano se seguiriam por toda a parte. A grandeza do mestre do cinema português era já uma certeza. Se dúvidas existissem quanto à sua importância no panorama do Cinema, talvez só num país chamado Portugal.

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O meu caso

Em 1986 estreia novo filme. De novo Manoel de Oliveira se inspira em José Régio (havia-o feito com Benilde) e apresenta O meu caso. A acção passa-se num teatro, mais concretamante num palco, onde vemos os personagens a encenar a sua próxima representação de várias maneiras.

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Os canibais

Depois de O meu caso, Oliveira realiza Os canibais (1988). Filmara romances, acontecimentos etnográficos ou peças de teatro, mas agora estreia-se a dirigir um filme-ópera. Filme com uma vertente tragicómica, Os canibais contam a história de um casamento, e das descobertas da noiva do que é o marido na noite de núpcias. O tema do ser humano, como canibal, está igualmente presente sendo a obra uma metáfora dos desejos humanos.


continua


Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV

dezembro 28, 2004

A juventude de Oliveira - parte IV

O encerrar da tetralogia dos amores funestos e o encontro com a glória. Os finais dos anos 70 e princípios de 80 foram assim para Manoel de Oliveira.

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Por vezes, as televisões privadas cumprem o papel de serviço público melhor que a televisão pública. Vem isto a propósito de que a única vez que Amor de Perdição(1978, terceiro filme da tetralogia) passou no pequeno ecran foi numa homenagem da SIC a Oliveira, por ocasião do seu nonagésimo aniversário (e passou tarde e a más horas... um filme de mais de quatro horas, numa madrugada de terça para quarta-feira). Assim, podemos descobrir em Amor de Perdição uma adaptação soberba da obra de Camilo Castelo Branco. O filme tem como argumento o próprio livro. Nada no filme escapa ao romance, tendo até Oliveira a ousadia de acrescentar uma ou duas cenas adicionais. É o caso do desembarque da família Botelho no Douro, a caminho de Vila Real. Momento que vincula a futura tragédia de Simão, protagonista da obra, pois ali ele voltará a embarcar para África. Depois, o filme tem momentos de uma profunda clareza na visão de Oliveira do que é o cinema: uma espécie de teatro filmado, onde as personagens são voz. Há momentos neste filme que nos lembram tudo isso: a maneira como Simão (mal interpretado em certos momentos por António Sequeira Lopes) relata a última carta de Teresa, já morta, e como se falasse também do além-túmulo, é disso exemplo.

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Amor de perdição

E apesar disto? Amor de perdição revela-se um dos maiores filmes feitos em Portugal. Acreditamos que se por milagre Camilo regressasse à vida, reconheceria o filme como a adaptação perfeita do seu romance. Um cuidado estético aguçado, mas ao mesmo tempo com a ponta de teatralidade mencionada (que será mais evidente no filme seguinte), mais as personagens interpretadas soberbamente (com a excepção atrás mencionada). É o caso de João da Cruz, interpretado fantasticamente por António Costa. Personagem camiliana confunde-se com o actor, parecendo esta ter saído das aldeias à volta de Viseu no século XIX.

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Amor de perdição

O filme foi alvo de pesadas críticas. Até no Parlamento. Natália Correia, na altura deputada, insurgiu-se contra a obra de Oliveira, declarando que esta desvirtuava o romance de Camilo. Nada de mais falso. Muitos críticos declararam, não só a propósito deste filme, que Manoel de Oliveira não sabia dirigir actores. Opinião da qual temos uma visão contrária. Quando vemos filmes do decano dos realizadores, principalmente os desta fase, temos a ideia que os actores são passivos perante as câmaras. Parecem não agir. Mas isso é uma das originalidades de Oliveira. Tal como o dinamarquês Carl T. Dreyer – autor de filmes como A palavra ou Gertrud – Oliveira aposta no diálogo e na acção teatral. Para ele isso é cinema. È o modo como esteticamente se devem os actores exprimir perante a câmara. Assim, o filme seguinte de Oliveira, Francisca, será o expoente máximo da sua arte.

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Amor de perdição

Nos finais dos anos 70 e princípios de 80, Manoel de Oliveira via o seu nome crescer no panorama internacional. Por cá o seu valor era minimizado apesar de festivais e retrospectivas), dizendo com justiça João César Monteiro, a propósito do mestre, que «Portugal tem um realizador maior que o país. Como este não pode crescer, encolhe-se o realizador». 1979 é o ano que marca o encontro de Oliveira com Paulo Branco. Jovem produtor, Branco e Oliveira constituiriam dupla de sucesso no campo cinematográfico. O primeiro pelo nome que o realizador lhe dava, e o segundo pelo apoio financeiro, actores com nome e distribuição de filmes assegurados.

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Cartaz de Francisca

O primeiro filme produzido por Paulo Branco foi Francisca (1981) que marca também o encontro do cineasta com a romancista Agustina Bessa-Luís. É o último filme da tetralogia dos amores funestos. E aquele onde melhor Oliveira expõe o seu cinema. O modo com vê a sua arte. Agustina inspirou-se em dois textos de Camilo para fazer o romance/guião. Experiência que detestou, sendo talvez por isso que Fanny Owen seja o seu romance mais legível. O filme conta a paixão funesta entre José Augusto (Diogo Dória) e Fanny Owen (Teresa Meneses). Camilo surge agora como personagem, sendo interpretado por Mário Barroso, director de fotografia de Oliveira noutros filmes.

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Francisca

O que vive brilhantemente em Francisca, perante o amor «desalmado» de José Augusto com Fanny, é a morte (perdoem-nos a antítese). É ela a actriz principal do filme. Desde a música de João Paes, passando pelos cenários, até ao modo como os actores interpretam as personagens, tudo faz lembrar o além-túmulo. A morte está já em José Augusto e Camilo quando falam sobre o amor na famosa cena em que o primeiro entra a cavalo pelo quarto do segundo. Ficam sentados a olhar para o vazio enquanto falam. Vazio esse que se preenche pela morte presente-ausente, e cujo contrário – a vida – se encontra no centro do “palco”, no irracional cavalo. O único que não pode pensar a fatalidade que se abate sobre as almas. Também é caminho para o além-túmulo a cena do rapto. Os dois amantes caminham pela floresta à noite, com música fúnebre cantada do além. O caminho que percorrem é o da perdição. Está ali presente a morte. Eles próprios já são morte.

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Francisca

E também são geniais os planos “repetidos” por Manoel de Oliveira. Três cenas são filmadas duas vezes de ângulo diferente Vemo-las repetidamente, embora só existam uma vez. A temporalidade está para além da encenação. E a visão do cinema pode captar isso. Porque ele é visão. É a realidade vista de onde o realizador quiser. Manoel de Oliveira consegue atingir assim o topo, o panteão dos grandes realizadores da história do cinema.

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Francisca

Tanto mais há analisar sobre Francisca. Mas ficamos por aqui. Fazemos a promessa de voltar a analisar esta obra-prima quando sair em DVD. A sua edição pela Atalanta Filmes, de Paulo Branco, está prometida há anos. Acrescente-se que Francisca esteve presente em Cannes. Não conquistou a Palma de Ouro pois o filme não foi posto em competição. Se o tivesse sido ganhava. Todos os críticos concordaram que havia sido a grande sensação do festival. Oportunidade perdida para ganhar o prémio.

continua

Parte I
Parte II
Parte III

dezembro 24, 2004

A juventude de Oliveira - parte III

Depois de mais três curtas-metragens, entre elas A caça (1964), uma curta-metragem muito falada mas difícil de se ver, Oliveira volta aos grandes filmes. Realiza, então, a famosa «tetralogia dos amores funestos». Filmes marcantes na história do cinema português.

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Mesmo fazendo curtas e médias-metragens durante os anos 60, e só com dois filmes realizados, Manoel de Oliveira começa a ser distinguido internacionalmente. As suas películas passam em festivais internacionais, como os de Bérgamo ou Locarno em 1964. Em 1965 a sua obra é reconhecida pela prestigiada Cinemateca de Paris. Um prestígio que o leva a ser menos incomodado pelas autoridades portuguesas (havia sido preso pela PIDE como se pode ler no post anterior), podendo trabalhar mais à vontade.

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O Passado e o presente

Assim, em 1971 Oliveira relança a sua carreira com O passado e o presente. O filme que é considerado o começo da obra fulgurante que hoje conhecemos. Este filme é também o primeiro da tetralogia dos amores funestos (os outros, que serão analisados em baixo, são Benilde, Amor de perdição e Francisca)Um ciclo de filmes que marcaram uma geração de realizadores. Ainda recentemente, António Pedro Vasconcelos, confesso detractor de Oliveira, confessava que esta tetralogia era um marco inolvidável no Cinema português. A tetralogia consiste no uso de um tema comum: os amores que se revelam fatais. Amor entre seres, onde o único caminho para este é a morte. Os seres amados só revelam o seu amor com a presença da fatalidade. É o caso de José Augusto em Francisca, ou o de Vanda em O passado e o presente. Neste primeiro filme da tetralogia, Manoel de Oliveira inspirou-se na obra homónima do dramaturgo Vicente Sanches para contar a história de uma mulher (Vanda, interpretada por Maria de Saisset) que só se apaixona pelos seus maridos quando estes estão mortos. Depois, a acção passa-se numa casa apalaçada, que vive por todo o filme. Casa da família de Vicente Sanches, em Castelo Branco. Ela é a actriz principal da obra. Os personagens percorrem as grande salas e os corredores gigantesco, procurando um espaço para se evadirem dos problemas do amor.

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O Passado e o presente

Mesmo os exteriores se revelam um espaço de clausura. As cenas passadas no jardim dão a ideia de espaço fechado, com as sebes ou as colunas do pátio que não deixam escapar os personagens da sua condição. Para além disto, o filme tem o condão de nos fazer rir com as situações de engano protagonizadas por Vanda e os seus maridos. Nota para a fabulosa prestação de uma grande actriz, Manuela de Freitas (no papel de Noémia, a mulher que só ama o marido se estiver deste divorciada), que apesar de actriz secundária ganhou com o filme o Prémio da SEIT à Melhor Actriz.

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O Passado e o presente

É um filme que foi produzido pela RTP e pelo Ministério da Cultura. Porém, não passa na televisão há mais de quinze anos. Foi restaurado pela Cinemateca portuguesa, e serviu para, recentemente, a fábrica de sofás Divani & Divani oferecer aos seus clientes, em DVD, quando estes fazem anos. Pasme-se!!!! Um filme que é um marco no cinema. Realizado pelo mais conceituado realizador nacional, é ignorado pelas televisões públicas e não só. É assim que este país trata muitas vezes a cultura: como se fosse lixo.

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Manoel de Oliveira e José Régio

Em relação à exibição destes filmes, o caso mais grave é o de Benilde ou a virgem mãe (1974). Também há mais de quinze anos que este filme, inspirado numa peça de teatro de José Régio (amigo pessoal de Oliveira), não é visto - se o fôr - senão em círculos como a cinemateca. De tal modo que o autor deste post nunca teve acesso ao filme. Nem em DVD's oferecidos por lojas, nem por nenhum canal de televisão. E foi, recorde-se, co-produzido pela RTP. O filme conta a história de uma rapariga que vive com o pai num isolado solar no alentejo. Um dia aparece grávida, e afirma que foi intervenção divina. Segundo filme da tetralogia dos amores funestos, Benilde... gira em torno da explicação lógica para a gravidez da personagem. Violada pelo pai? Amores com o louco que se ouve nas noites de ventania? Um mistério...

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Cartaz de Benilde

(continua)

Parte I
Parte II

dezembro 21, 2004

A juventude de Oliveira - parte II

O Take 2 continua a apresentar a homenagem a Manoel de Oliveira. Aniki-bobó e Acto da primavera são agora relembrados...

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É interessante analisar que Oliveira se considera um cineasta que começou tarde a fazer filmes. Isso acontece porque, depois de Douro, faina fluvial e até 1962, o realizador só realizou mais uma obra: Aniki-Bobó (1942). Um filme considerado menor, e sobre o qual o próprio Oliveira pouco fala. Filme português inspirado na corrente neo-realista - embora com grandes diferenças até pelos temas proibidos pelo regime fascista vivido em Portugal - mas com um grande encanto. Não se pode considerar um grande filme, mas é obrigatório considerar-se um filme essencial na história do cinema nacional. Oliveira conta-nos uma história passada no Porto. Mostra-nos como vivem, nos inícios dos anos 40, grupos de crianças modestas da Ribeira. Estória de amor entre crianças, com ódios à mistura. Análise ao pensamento de infância, como metáfora para o mundo adulto. Depois, há também o registo dos espaços da cidade e das suas gentes. Os eléctricos a passarem na Ponte D. Luís, as locomotivas a vapor, as vendedoras de porta em porta... Um contributo para a memória portuense, à qual mais tarde Oliveira voltará com Porto da minha infância. Além destes aspectos, em termos formais já se reconhece mestria na forma de colocar a câmara. É exemplo a cena em que as crianças cobiçam a boneca de trapos. Vemos o ponto de vista da boneca, a visão da cobiça, despertando assim uma maior compreensão do que está em jogo.

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Durante duas décadas, e como atrás referimos, Manoel de Oliveira deixa de realizar longas-metragens. Não porque quisesse. Antes porque os tempos políticos em Portugal eram tenebrosos. Oliveira não pactua com o regime salazarista. Por essa razão, não recebe apoios para fazer longas-metragens. Desgostoso, o realizador chega a considerar, no ano de 1946, abandonar a carreira.

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Acto da primavera

Até 1962, Oliveira realizou, no entanto, alguns documentários, como O pintor e a cidade(1956). Ora, neste ano volta às longas-metragens com Acto da Primavera. É o filme português sobre a paixão de Cristo. Oliveira consegue isso com uma filmagem etnográfica. Tudo se passa numa aldeia de Trás-os-montes. Os actores são os habitantes locais, que encenam para as câmaras um hábito que têm desde o século XVI. Com um colorido belíssimo, Acto da Primavera revela Oliveira ao mundo: ganhou a medalha de Ouro em Sienna, entre outros prémios. Em Portugal, no entanto, uma sessão pública, no Porto, de apresentação do filme valeu-lhe uma passagem pelos calabouços da PIDE. Preso em Lisboa, Oliveira conhecerá na cadeia personalidades importantes como João Bénard da Costa - que será seu actor - e Urbano Tavares Rodrigues.

(continua)

Parte I

dezembro 18, 2004

A juventude de Oliveira - parte I

Manoel de Oliveira, o mais conceituado realizador português, está de parabéns. Fez recentemente 96 anos, e continua em intensa actividade. Actualmente tem dois projectos em mãos. Um filme inspirado, mais uma vez, num livro de Agustina Bessa-Luís, e uma adaptação do romance O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde. Isto ainda antes de ter estreado entre nós o seu último filme, O Quinto Império ontem como hoje.

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O Take 2 pretende homenagear o grande mestre do cinema português, lançando ao longo desta semana uma análise à sua vida e obra.

A vida dos grandes criadores é a sua obra. O seu percurso serve, apenas, para explicar as mutações das obras, da sua arte. Por essa razão, juntamos aqui a obra com a vida. Uma leva, impreterivelmente, à outra.
Manoel de Oliveira nasceu no Porto, cidade que lhe serviu de palco a alguns filmes (Aniki-bóbo, Porto da minha infância), a 11 de Dezembro de 1908. Nascido numa família burguesa, dona de uma fábrica, interessa-se desde cedo pelo desporto e pelo cinema. Seguirá ambos no começo de carreira, dedicando-se posteriormente e em exclusivo ao segundo.
No cinema, Oliveira participou como actor, fazendo papéis de jovem galã. O papel mais conhecido que representou foi no filme A canção de Lisboa(1933), de Cotinneli Telmo. Ao vermos o filme, apercebemo-nos que não está ali um grande actor, ao contrário de Vasco Santana com quem contracena. Mas ninguém poderia adivinhar, nos começos dos anos 30, que estava ali aquele que seria o mais famoso cineasta português.

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Douro, faina fluvial

A realização já havia sido experimentada, com Douro, Faina fluvial (1931). Neste seu primeiro filme, Oliveira inspira-se em Eisenstein. Filma a labuta diária dos trabalhos à beira-Douro, mostrando o sofrimento de rostos em grande plano. É exemplo disso a cena inspirada vagamente no Couraçado Potemkin. Uma criança é atropelada por um carro de bois, registando o sofrimento das pessoas que assistem ao acontecimento. Força bruta animal substitui força dos militares. Mas a ideia mantêm-se como beleza estética, despida de ideologia. É um filme experimental, mas que se pode considerar um brilhante começo de carreira.

(continua)

junho 24, 2004

Dalí e o cinema

Este é o ano Dalí. O ano em que se comemora o centenário do nascimento de um dos maiores génios do século XX. Embora a sua obra seja identificada com a pintura surrealista, Dalí também contribuiu para a História do cinema. É a versatilidade do homem que disse que «a felicidade suprema era ser Salvador Dalí» que pretendemos homenagear.

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Salvador Dalí, como todos os grandes artistas, desejava que a sua arte chocasse a Humanidade. Que ela fosse motivo de admiração. Quer pela sua violenta beleza, quer pela sua novidade. Conseguiu-o. Mas não só à pintura e escultura podemos ligar o nome do catalão. Também ao cinema. Principalmente pela sua colaboração com Luís Buñuel, o maior realizador espanhol, no primeiro filme surrealista: Un chien andalou (1929). Filme que não se pode explicar. Nem perceber. Antes ver e maravilharmo-nos pelo choque da sua estética do horror. Nada no filme é explicável à luz de princípios racionais. Buñuel e Dalí, ao escreverem o argumento, tiveram como primeira orientação que tudo o que podesse vir a ter uma explicação não podia entrar na obra. E conseguiram. Uma obra chocante, que abre com um olho a ser cortado. Cena que leva o mais corajoso dos cinéfilos a virar a cara ou tapar os olhos. Logo esta cena marca o mote do filme. Este filme não é sobre o que se vê no mundo. É sobre os sonhos, o inconsciente, principalmente os dos dois jovens realizadores. De facto, uma das cenas mostra uma mão cheia de formigas. Era um sonho que perseguia Dalí, como mais tarde este confessou. O próprio, tal como Buñuel, tem uma curta aparição no filme: vestido de padre, agarrado a um piano que é deslocado por um personagem. Reconhecemos já aqui, ainda jovem, uma expressão que Dalí teria para o resto da vida: os olhos arregalados.

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Devido ao sucesso de Un chien andalou, Luis Buñuel e Dalí idealizaram novo projecto: L'age d'or (1930). Um filme também surrealista, embora mais chocante. Talvez por ter mais lógica e fazer referências aos ódios dos dois jovens artistas: a religião, a política, os problemas do amor, etc. Certo é que as explicações dadas sobre este filme, proibido durante mais de 50 anos em todo o mundo, são controversas, chegando umas a ser o contrário de outras. Interpretações que dependem muito do modo de ver de cada crítico. Mas o filme ficou também marcado por outro acontecimento: a ruptura entre Dalí e Buñuel. O fim de uma amizade que até ao fim da vida de ambos os génios seria retomada.

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As explicações sobre a ruptura dividem-se entre os críticos/biógrafos pro-Dalí e os críticos/biógrafos pro-Buñuel. Para os segundos o filme é inteiramente de Buñuel, sendo abusivo o nome de Dalí aparecer no genérico. Para os defensores do pintor, L'age d'or é em iguais proporções dos dois artistas. No futuro esta discussão continuará a alimentar polémica. Desde já porque se descobrem no espólio dos dois surrealistas referências ao caso contraditórias. E descobriu-se, há relativamente pouco tempo, um filme caseiro de Dalí nos inícios dos anos oitenta (pouco antes da morte de Buñuel em 1983) em que pedia directamente desculpa ao realizador. Este nunca lhe respondeu.

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Dalí também colaborou com Hollywood. Trabalhou mesmo com autores de destaque como o mestre do suspense Alfred Hitchcock e Walt Disney. Para o primeiro, Dalí concebeu e realizou uma sequência onírica no filme Speelbound («A casa encantada» no ridículo título português) de 1945. Filme sobre estados de alucinação psiquiátrica. Sobre sonhos e comportamentos subconscientes. É uma espécie de policial, mas cuja investigação é feita por uma psicóloga (Ingrid Bergman) ao passado cerebral que condiciona as actuações do seu amado (Gregory Peck). A referida sequência é a «filmagem» de um sonho do protagonista principal. Uma viagem do espectador à mente de Gregory Peck. Dalí fez esta sequência com mestria. Uma sequência onde os fragmentos de referências dalínianas se acumulam. Era para ser um filme dentro do filme. Vinte e cinco minutos de duração. Porém, os imperativos comerciais (porque já os havia naquela altura) reduziram para cinco minutos o tempo de uma obra de arte. Esperemos que ainda esteja conservado o que falta, para podermos um dia ter acesso a essa pequena jóia cinematográfica de Dalí.

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Disney era mestre em desenhos animados. Obras como Fantasia ou Bambi são obras de arte. Por isso, Dalí e Disney planearam fazer um filme de animação juntos, em 1946. Destino era o nome escolhido. Objectivo do filme: combinar o surrealismo com a arte de fazer animação. O projecto nunca foi concluído, sobrando hoje inúmeros desenhos e 17 segundos de película. Não tinha intuito comercial. Apenas artístico.

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Foi esta a colaboração de Dalí com a sétima arte. Agora no seu centenário, todas as artes em que o génio do surrealismo colaborou lhe devem prestar homenagem. O Take 2 presta assim a sua modesta homenagam a um dos maiores génios de sempre, homem que fez da arte a usa vida. E que também soube fazer da vida uma Arte, confundindo-se para sempre as duas.

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maio 12, 2004

Bem Vindos

Bem vindos ao Take 2, o blog-jornal de cinema da licenciatura em Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade do Porto. Aqui vão poder encontrar as habituais notícias e críticas de filmes, bem como outras rubricas relacionadas com a sétima arte.
Dinamizado por estudantes de jornalismo, o Take 2 pretende afirmar-se como um produto claramente jornalistico sem fechar, no entanto, as portas à opinião quer dos redactores quer dos nossos visitantes.