Faz hoje dez anos que Kurt Cobain, vocalista e imagem principal dos Nirvana, decidiu tomar uma dose excessiva de estupefacientes e a meio da trip, dar um tiro na cabeça. Três dias depois um electricista que estava a fazer obras na casa de Kurt e Courtney encontra o corpo. A notícia correu mundo e gerou a maior onda de compaixão, tristeza, raiva e desilusão desde que Jim Morrisson ou Ian Curtis foram encontrados mortos, também em tenra idade...estalou o boom Nirvana. Falou-se da salvação, de fama, de depressão, de grunge. Criou-se uma moda, um comércio. Dez anos depois só nos resta recordar...
Escrevendo como fã dedicada que fui, como adepta do grunge em todos os sentidos, como adolescente que viveu e respirou aquela época, tenho a dizer que se há momentos que me lembro bem dos meus 13, 14 e 15 anos é a morte de Kurt Cobain, dos Nirvana, do grunge e todas as bandas que fizeram parte do movimento. Agora não tenho vergonha de dizer que chorei quando li no Expresso que ele tinha morrido. Contudo, não sei explicar porquê! Não tenho medo de dizer que fiquei revoltada quando vi pessoas a comprar os álbuns dias depois de ele ter morrido e dizerem que eram os maiores fãs. Inconsciente, talvez? Mas foi uma notícia que me mudou e que mudou os meus objectivos. Tidos como a banda da geração de 90, como a banda que deu uma esperança ao rock, como uma influência para bandas como os Silverchair, Puddle of Mud, The Vines, The Strokes, Radiohead, entre outros.
A morte do vocalista fez dele a imagem do grunge. A morte dele até foi considerada como a morte do grunge. Talvez, como fã, não acreditei. Também não acredito que ele morreu por não aguentar a fama, depois de morrer ainda se tornou mais famoso. O que leva uma pessoa a ser fraca ao ponto de desistir da vida? Ninguém sabe, apenas o próprio.
Escrevendo como jornalista, vejo-me forçada a recorrer à história e aos factos. Kurt Cobain nasceu em 1967, dois anos antes de Dave Grohl e dois anos depois de Krist Novoselic. Kurt e Krist tocaram pela primeira vez como Nirvana em 1988, no mesmo ano que a Subpop lança um vinil dos Mudhoney e que os Soundgarden lançam Ultramega OK, o seu primeiro registo de originais. Um ano depois os Nirvana assinam pela Subpop e gravam Bleach pela módica quantia de 606 dólares, mais ou menos 500 euros. Um disco cru e primitivo, gravado sem condições, mas que foi suficiente para mostrar que dali poderia nascer qualquer coisa: o grunge. Daqui para a frente foi uma corrida até se chegar a 1991, ano em que é lançado Ten dos Pearl Jam e Nevermind, o álbum que iria mudar para sempre a história da música na última década. Um álbum depressivo, sujo, cru, tocado por três maltrapilhos, andrajosos e despenteados que acima de tudo sabiam tocar. Em 1992, depois de uma actuação da banda no Saturday Night Live (um daqueles programas tipo Jay Leno), Nervermind sobe do 144 da Billboard para nº1. Nasce assim o movimento. E nasce também a filha de Kurt e Courtney - Frances Bean. A polémica instala-se, correm rumores de que Courtney se drogava enquanto estava de esperanças, o casal torna-se num ícone e a fama estava mesmo ali ao virar da esquina. Daqui para a frente foi sempre a descer. Uma espécie de crónica de uma morte anunciada. Em 1993 é lançado In Utero, estreando-se directamente no nº1 da Billboard, apesar de não vender tanto como Nevermind. No mesmo ano os Nirvana gravam o MTV Unplugged num cenário mórbido. O resto já se sabe. Kurt morreu... ficam as memórias e as saudades.
Um movimento condenado?
Depois da morte de Kurt Cobain especulou-se que o grunge tinha morrido com ele. A verdade é que os Nirvana encabeçaram o movimento que salvou o rock e salvou a música do disco sound e da pop que se ouvia nos anos 80. A atitude era punk, as letras eram tristes e depressivas, o som era rude, as composições eram simples e agressivas, a imagem da banda era despreocupada, deslavada e acima de tudo sincera. O grunge morreu mas a herança permaneceu mais alguns anos. No final da década de 90 a voz é das boys e girlsband e de outros ícones da pop, como Britney e Christina. Tudo aquilo que Kurt e o grunge construiram, querendo ou não, desapareceu. Agora está de volta com as bandas dos jovens que na altura choraram a morte do seu ídolo. Julian Casablanca, dos Strokes, disse à revista americana Spin que foram os Nirvana que o levaram a fazer música; Deryck Whibley, dos Sum 41, disse o mesmo à mesma revista; Nick Zinner dos Yeah Yeahs Yeahs contou à revista Uncut Legends (NME) que os Nirvana eram a sua banda favorita e que ficou muito triste quando se apercebeu que o seu pequeno segredo se tinha tornado na maior banda do mundo.
O grunge não morreu só com o Kurt...
Foi aos poucos, mas todos os que protagonizaram o movimento tendem a acabar ou a morrer. Antes de Kurt foi Andy Wood, o vocalista dos Mother Love Bone (banda que contava com Jeff Ament e Stone Gossard, depois nos Pearl Jam), que morreu em 1990 vítima de overdose. Mia Zapata, vocalista dos Gits, uma banda também de Seattle, foi violada e assassinada no seu caminho para casa em 1993. Kurt foi o seguinte e mais recentemente Layne Staley, que morreu de overdose em 2002. Dos Soundgarden não morreu ninguém, mas a banda acabou, os Stone Temple Pilots também encerram as actividades, mas o futuro do seu vocalista, Scott Weilland não parece muito risonho. Os Pearl Jam foram os únicos que se aguentaram...apesar de já não serem grunge em estado puro.

Faz hoje 10 anos que Kurt Cobain pôs fim à sua própria vida na sua mansão em Seatle. Para trás ficaram 27 anos marcados pelo divórcio dos pais, o suícidio de um tio e pela incapacidade de lidar com o sucesso que o levaria ao consumo de heroína. Mas mais do que uma juventude perturbada, a história tem bem presente o talento musical de um génio que ousou revolucionar o rock, cortando com os artifícios e glamour dos anos 80 para nos oferecer um estilo mais directo, rude até e que ficou conhecido por grunge. Ironicamente o grunge viria a morrer com Cobain e a desmembramento dos Nirvana, a banda por si iniciada em 1986.
Os Nirvana alcançaram o sucesso graças a temas que falavam a uma geração que não mais se reconhecia no panorama musical de então. Cobain sempre teve dificuldade em compreender como é que temas tão pessoais apelavam a uma massa tão grande de fãns e temia que a banda se estivesse por isso a vender. Ficou célebre o seu ódio por Smells like teen spirit, o single de avanço de Nevermind, o álbum que os lançou para o estrelato. Como reflexo disso, os discos seguintes, particularmente In Utero (1993) prendam-nos com temas ainda mais intimistas como All apologies e que mostravam um Kurt Cobain mais deprimido e cansado. O próprio cenário do concerto unplugged para a MTV lembra o de um funeral e foi imposição do vocalista que preferiu compor o alinhamento de covers e temas menos conhecidos do que dos sucessos retumbantes da banda (excepção feita a Come as you are).
Depois de algumas tentativas falhadas, Cobain pôs finalmente fim a uma vida com a qual já não se identificava. Deixou uma filha, uma mulher (que muitos dizem ter contribuido para a sua morte) e algumas das mais geniais composições da história do rock.
Até sempre Kurt!